As séries da TV aberta sempre sofreram um pouco para criar uma trama que fique bem amarrada e que não crie uma sensação de que o espectador está vendo um episódio que no final das contas não serve para nada além de “encheção de linguiça”. Por outro lado as produções de canais fechados, como HBO e serviços como Netflix, possuem menos episódios para entregar ao público uma experiencia melhor e mais simples, com cerca de 10 episódios.

Porém, com o lançamento recente de O Justiceiro, a nova série da Marvel prova que é possível fazer com que uma história se perca o ritmo durante a sua metade, mesmo tendo apenas 13 episódios, enjoando e que pode ser fácil acabar ficando com sono ao fazer a maratona. E antes que saia gritando aos quatro cantos que críticos não valem de nada, só porque você gostou da série, tenha calma. Pois este caro crítico que escreve esta resenha gostou da série, mas o meu papel aqui é falar dos defeitos e qualidades que a produção apresenta em sua parte técnica e visual.

Marvel’s The Punisher

A trama começa com uma proposta muito boa, apresentando conceitos e dilemas interessantes e que são muito bem vindos a um debate, fundindo com a história de vingança de Frank Castle (Jon Bernthal) pela morte de sua família, que começou ainda na segunda temporada de Demolidor. Os temas envolvem o abandono que o governo americano faz com seus veteranos de guerra, tornando eles em armas descartáveis, além do velho dilema de poder portar ou não armas, colocando pontos de vistas diferentes sobre o que seria o mais justo.

Os quatro primeiros episódios inclusive mantém um ótimo ritmo e nos fazendo crer que esta é a melhor série da Marvel desde a primeira temporada de Demolidor – e até mais um pouco adulta. Mas depois disto, o ritmo cai drasticamente, já que cada vez mais subtramas vão sendo abordadas, e mesmo que isso sirva para criar um desenvolvimento aos personagens secundários, isso toma muito tempo de tela para eles, tirando o foco de quem é realmente o protagonista.

E além de perdurar nesse acumulo enorme, se torna cansativo e difícil de compreender qual a mensagem que a série quer passar no final das contas. Várias discussões e ideias são apresentadas mas parece que é tudo de modo aleatório, fica desconectado com o que está acontecendo no momento. Parece que houve um medo de trabalhar bem o que é o Justiceiro, maquiando um pouco do impacto de suas ações.

Marvel’s The Punisher – Billy Russo

Das tramas adicionadas, apenas a de Micro (Ebon Moss-Bachrach) consegue chamar a atenção e criando empatia desde o começo até o final. Sentimos o peso dele ter ficado um ano longe da sua família e Frank vê nele um homem com uma história semelhante a sua, mas com uma possibilidade de um final diferente. Mas ainda sim tem problemas de construção, pois acaba virando futuramente um triangulo amoroso, desconstruindo o que estávamos vendo do personagem até então, principalmente por também desenvolverem uma espécie de romance com Karen Page (Deborah Ann Woll) e a série parece não saber aonde quer levar com isso tudo, e acaba levando a lugar nenhum.

Por outro lado, a atuação de Jon Bernthal salva o personagem que poderia ficar esquecido em sua própria série. Seus trejeitos estranhos vão dando uma construção de alguém perturbado e traumatizado, com um jeitão de poucos amigos. O resto do elenco por outro lado está na média, não chegam a fazerem atuações excepcionais, mas não desapontam. O ponto fraco acaba sendo o vilão vivido por Ben Barnes, o Billy Russo. Se você chegou a ver o ator em Westworld, provavelmente achou que estava vendo o mesmo personagem, só que com motivações fracas e que chegam a parecer sem sentido, além de ter um destino previsível, já que a série vai dando as pistas desde a sua primeira cena (e quem conhece o personagem dos quadrinhos, vai matar logo de cara).

A violência é suja e brutal. Mas no começo a série se contém com o que vai mostrar, focando em cenas onde não vemos muito das mortes e a ação é mais entre socos e subjetivismo. Quando a série vai se aproximando da reta final, o sangue começa a jorrar mais na tela e as coisas começam a ser mais viscerais, onde começamos a ver mais claramente as balas acertando os crânios e dando uma sensação de desconforto e mal estar, o que não tem nada de negativo. É nesses momentos que finalmente vemos o potencial do personagem, mas que infelizmente demora muito para acontecer.

Ao chegar no final, parece que nada aconteceu, aliás, toda a série parece ser apenas um ciclo que começa em um ponto e termina ali parada, sem nada ter acontecido de fato. O final do personagem em Demolidor já teria sido um fim a vingança de Frank Castle, mas a série tenta se arrastar demais para algo tão simples. Talvez se houver uma segunda temporada, este primeiro arco possa virar totalmente descartável.

A formula da Marvel na Netflix já não funciona mais como nas quatro primeiras produções. É nítido que o formato de 13 episódios pode ser alterado de acordo com a história, algo que inclusive foi feito em Defensores,  e que seria bom uma tentativa de contar algo em menos episódios, para que a trama fique mais centrada no que ela realmente quer propor ao seu personagem principal, e não a um monte de coisa que só serve para enrolar e maquiar quem é o verdadeiro personagem.

O Retalho Club teve acesso aos episódios de forma antecipada pela Netflix, onde já havíamos feito as primeiras impressões, clique aqui para ler.

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