O ciclo da vida é o que torna toda a nossa jornada neste mundo algo especial e único, sendo impossível modificar o rumo das coisas. Ou pelo menos é até o momento, pois, um dia a tecnologia pode avançar tanto que conseguiremos através dela alterar, por exemplo, o corpo em que habitamos e até mesmo a longevidade das nossas vidas. E se isso acontecer, como iremos reagir a isto? Provavelmente a sociedade não estará preparada para isto e muitos irão rejeitar e negar a própria morte, já outros se desfrutaram de um poder sob as outras pessoas.

Por conta desta discussão, fiquei completamente empolgado para poder assistir Altered Carbon, série que adapta o livro de Richard Morgan de mesmo nome. Neste universo, no século XXV, a humanidade conseguiu colonizar e extrair matéria de outros planetas, e foi possível encontrar o que era necessário para criar um dispositivo que armazena toda a nossa consciência e, ao conectar em qualquer corpo, faz com que ele ganhe vida. Com isso, os corpos são chamados agora de capas, e se torna apenas um mero produto.

Os primeiros três episódios acabam que iniciando em um ritmo um pouco lento. Por ser um futuro já muito distante, era necessário um bom tempo de tela para explicar tudo que existe naquele mundo, quais são as regras que mantém uma consciência viva, os grupos que não apoiam essa decisão, o tipo de sociedade que foi criada a partir desse novo poder de tecnologia e a hierarquia de quem manda e obedece dentro dessas normas. Mas ao passar esse “prólogo”, a trama avança muito bem e a ação vai se tornando cada vez melhor.

E por falar em trama, Altered Carbon não deixa a desejar nesse aspecto. Ela nos apresenta a Takeshi Kovacs, um misterioso personagem rebelde que faz parte dos Emissários, uma linha de soldados com habilidades especiais. Logo no começo, Kovacs morre, mas logo depois ele é reencapado em um corpo que é vivido por Joel Kinnaman, mas porém, ele precisa cumprir uma missão para poder pagar pela sua nova vida: resolver o assassinato de Laurens Bancroft (James Purefoy), o homem mais rico em vários mundos. A peculiaridade do caso, é que o contratante foi o próprio Bancroft, que ao voltar em uma nova capa, não se lembra do que aconteceu nas últimas 48 horas, o que gera suspeitas de que ele mesmo tenha se suicidado.

A partir disso, vamos desembrulhando toda a história por trás dos personagens, conhecendo mais a fundo cada uma de suas peculiaridades. Mesmo sendo muitos, o telespectador sente que todos são importantes para um determinado ponto da história, como por exemplo, Vernon Elliot (Ato Essandoh), aparece na trama com um suspeito de ter assassinado Bancroft, mas logo se descobre que é inocente e somos apresentados a história de sua filha, que vive presa dentro de uma realidade virtual e ficou traumatizada por conta da morte de sua mãe. Então Kovacs decide pedir a sua ajuda como segurança em troca de cuidados psicológicos de uma inteligência artificial que administra um hotel, chamada de Poe (Chris Cooper), que já havia sido introduzido como o ajudante do emissário.

Além disso, nem tudo é preto no branco e existem nuances em cada um. Nem todo mundo é perfeito e precisa fazer decisões que não são corretas, como é o exemplo da Oficial Kristen Ortega (Martha Higareda). É dessa pequena humanidade que ainda existem em alguns dos personagens, que a série se aproveita para debater assuntos interessantes sobre a vida. Afinal, será que viver eternamente, trocando de capas constantemente, vale mesmo tanto a pena? Viver em um corpo que não é orgânico, enfrentando situações onde a desigualdade social é gritante e há apenas uma grande família que dita todas as regras da sociedade, mandando até mesmo no departamento de polícia. E o curioso, é que a oposição dos que preservam a morte, não é por conta de serem contras a este regime, e sim porque vai contra as “vontades de Deus”, o que reflete muito na nossa sociedade atual com as bancadas evangélicas.

Visualmente, Altered Carbon é linda e uma das produções mais bem feitas até hoje, mostrando que a Netflix soube investir bem. É inegável que a primeira referência que temos ao olhar a cidade é de Blade Runner, mas nada vai além disto. É mais comum encontrar elementos que lembram a jogos de videogame, principalmente em questão dos figurinos de soldados e dos carros voadores. Até mesmo em um momento, se descobre que é possível realizar implantes com membros melhorados, lembrando uma evolução de personagem.

Coloque tudo isso no mesmo pacote, os temas debatidos, a direção de arte, a história e seus personagens, e o resultado é uma ficção cientifica de qualidade e que salta aos olhos, principalmente por ser uma série com o nível de qualidade de um filme. Altered Carbon faz jus ao primeiro livro, e ficamos a expectativa para que chegue logo a segunda temporada que dará continuidade a esse universo espetacular e impressionante.

O Retalho Club assistiu a todos os episódios sob liberação da Netflix. A série chegará ao serviço no próximo dia 2 de fevereiro de 2018.

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