Wakanda vive! Wakanda é para sempre! Wakanda é seu povo e seu povo está enfurecido com seu rei.

TA-NEHISI COATES é um jornalista político e premiado escritor americano, sendo hoje considerado um dos principais nomes falando sobre a negritude e antinegritude americana. No The Atlantic, revista literária e cultural americana, ele é o correspondente internacional escrevendo sobre política, cultura e questões sociais. Negro, casado e pai, Coates vive hoje em Nova York e é autor do Best Seller “Between The World And Me” que funciona como uma carta a seu filho adolescente sobre a violência e como é ser negro na América. Aliás, em 2015 Coates escreveu uma carta a seu filho, você pode conferi-la traduzida aqui.

A primeira vez que li algo de Coates foi quase um ano antes de ser anunciado como novo escritor do quadrinho do Pantera Negra, e querem saber por que é importante descrever quem ele é e o que ele faz? Porque isso faz toda diferença em sua obra na Marvel.

Antes de falar um pouco sobre Pantera Negra: Uma Nação Sob Nossos Pés, gostaria de mostrar a vocês uma pequena parte, traduzida, do texto que me fez admirar o autor.

“Às vezes eu caminhava com amigos até a rua U e circulava pelos clubes de lá. Era a época da Bad Boy e do Biggie, One More Chance e Hypnotize. Eu quase nunca dançava, por mais que quisesse. Aleijava-me um medo infantil de meu próprio corpo. Mas eu observava como os negros se moviam, como nesses clubes eles dançavam como se seus corpos pudessem fazer tudo, e seus corpos pareciam ser tão livres como a voz de Malcolm X. Lá fora os negros não controlavam nada, e muito menos o destino de seus corpos, que podiam ser requisitados pela polícia; que podiam ser apagados pelas armas, tão pródigas; que podiam ser estuprados, espancados, encarcerados. Mas nos clubes, sob a influência de rum e Coca-Cola na proporção de dois para um, no encantamento das luzes baixas, sob o domínio do hip-hop, eu os sentia no controle total de cada passo, cada aceno, cada giro.”

No texto em questão Coates, sob o título “Não Controlamos o Destino de Nossos Corpos“, explica – numa carta ao filho – o que significa ser negro na América, além de escrever também um pouco de sua trajetória na universidade e sua vida.

O que irei dizer para vocês a partir de agora eu talvez não tenha dito para mais ninguém, mas acredito que seja importante contextualizar todo o sentimento que tive ao ler o quadrinho, e principalmente todo o sentimento que tive ao saber que o escritor de tal era o autor do texto que, nos primórdios da criação desse site, me serviu de inspiração.

A primeira vez que vi o Pantera Negra, pelo que me recordo, foi na quarta série do ensino fundamental. Na época, enquanto representante de classe e candidato à presidência do grêmio estudantil da escola onde estudei, ganhei a alcunha de “Lula-Levi” – Lula era muito popular naquele período, não havia intenção política real nenhuma no apelido, éramos crianças de 10 anos.

Durante aquele mês de campanha eleitoral para o grêmio, eu e minha chapa deveríamos passar por todas as salas de aula da escola apresentando nosso projeto e em uma das salas da terceira série – lembrem-se, era o ensino fundamental – um grupo de alunos me conhecia e começaram a gritar em coro “Lula-Levi, Lula-Levi, Lula-Levi”. Após a professora pedir silêncio, um dos alunos da frente falou,um pouco mais alto do que ele gostaria, “Ele não parece o Lula, está mais para Pantera Negra”. Não sei dizer exatamente o que aconteceu, mas o fato da palavra “Negra” ter sido utilizada pareceu uma ofensa ou uma brincadeira de mal gosto então todos começaram a rir. O aluno em questão, que era o Nerd da turma e naquela época ser Nerd não era tão cool como é hoje, ficou tão envergonhado que abaixou a cabeça e pareceu chorar.

Naquele mesmo dia, durante o recreio – sim, recreio, éramos crianças – ele me procurou para se desculpar e me mostrou o Pantera Negra em um de seus quadrinhos. “É esse aqui, ele é um rei, um grande líder e é amigo do Quarteto Fantástico, eu não queria te ofender, desculpa.” O quadrinho em questão era a versão americana do quadrinho do Quarteto Fantástico, onde T’Challa explicava para o grupo de heróis o porquê de convidá-los para Wakanda e atacá-los em seguida.

Lembro que desde então o Pantera Negra se tornou um dos personagens que eu mais gostava, mas logo me esqueci dele em função da dificuldade em encontrar quadrinhos do personagem no Brasil. Eu até peguei alguns quadrinhos emprestados com o Rafael – garoto nerd que me mostrou o Pantera Negra – mas a maioria dos quadrinhos que ele possuía eram em inglês e com 10/11 anos meu inglês me permitia apenas apreciar as figuras.

De qualquer forma foi a partir daquele momento que migrei da Turma da Mônica para histórias de super heróis que, direta e indiretamente, moldaram meu caráter.

Ler e visitar Wakanda durante a leitura é algo que me remete à infância, lazer, bons momentos, mas principalmente a representatividade e ter alguém com o background de Coates escrevendo histórias do Pantera Negra é tão fantástico que se torna difícil explicar.

Uma Nação Sob Nossos Pés não é apenas uma HQ de ação de um personagem extremamente ágil em uma armadura de gatinho, muito longe disso, ao trazer um dos principais autores norte americanos que falam sobre a negritude e antinegritude nos EUA e sobre cultura afro a Marvel consegue politizar o quadrinho de forma a agradar até os mais exigentes.

Coates traz consequências as desgraças que anteriormente caíram sobre Wakanda e a partir disso torna o povo e as camadas da sociedade Wakandana personagens tão importantes quanto o próprio Pantera Negra.

Diferente de outras abordagens, as Dora Milaj – guarda real feminina de Wakanda – não são apenas mulheres fatais. Ao fazê-las parte da revolução contra o reinado dos homens Coates mostra camadas de personalidade às personagens e desenvolve, durante seu arco, parte do reino de Wakanda em colapso.

Ao mesmo tempo Coates demonstra um rei mais humano tendo que tomar atitudes drásticas, perdendo as rédeas do controle de seu povo e se vendo cada vez mais encurralado por sua pátria. O interessante de tudo é que, ao colocar um autor tão bem preparado sobre tudo isso, para escrever sobre o Pantera, notamos que o foco da história não fica na ação ou na beleza de Wakanda em si, mas em tudo aquilo que ela pode oferecer, todas as suas nuances e possibilidades de história político-cultural de uma forma que não exista exatamente vilões e heróis, apenas pontos de vista, alguns extremistas, mas apenas pontos de vista.  Não temos aqui os brancos maldosos ou negros tribais raivosos, temos uma população amedrontada e sem fé em seu rei. Não existe a dicotomia do bem e mal, Wakanda existe e Wakanda pulsa, como deveria existir e como deveria pulsar.

Uma Nação Sob Nossos Pés se torna tão atual e necessária que, não à toa, foi aclamada nos Estados Unidos.

A arte de Brian Stelfreeze é também um capítulo à parte. Negro e com muita consciência social, Brian traça o corpo dos personagens de forma a valorizar os traços dos elementos da cultura afirana e não apenas o corpo objetificado em si. Quando tratamos de personagens negros, masculinos e femininos, no contexto dos quadrinhos não se pode ignorar a gigantesca objetificação de seus corpos. Seja para evidenciar algo de forma sexual ou músculos e força, durante décadas tivemos aberrações nesse aspecto e Brian tendo consciência de que o corpo negro é político, traz em seu traço a cultura de Wakanda muito mais do que a força e objetificação da beleza negra.

Pantera Negra é político e cultural, é a vida africana e as nuances de uma cultura rica e tecnológica em meio ao tribal e, dito por muitos desavisados, selvagem. Nisso Ta-Nehisi Coates acertou em cheio e elevou o personagem a um novo patamar.

Para acompanhar a história não é tão necessário ler muito anteriormente, com o passar das páginas o que se deveria saber sobre o que aconteceu com Wakanda é dito ou relembrado pelos personagens, então não se perde muito iniciando a leitura diretamente pelo Livro Um.

No Brasil a editora Panini já publicou 3 encadernados da elogiada fase de Coates, o Livro Um compila as 4 primeiras edições. O Livro Dois as edições de 5 a 8 e o recém lançado Livro Três às edições de 9 à 12. Além disso, nas edições nacionais, temos alguns clássicos do personagem, como sua origem nos quadrinhos do Quarteto Fantástico e também a primeira aparição de Erik Killmonger nos quadrinhos, um dos principais Nêmesis do Pantera que tem aparição marcada no filme solo do personagem no próximo mês.

Marvel Studios’ BLACK PANTHER
L to R: Erik Killmonger (Michael B. Jordan) and T’Challa/Black Panther (Chadwick Boseman)
Credit: Matt Kennedy/©Marvel Studios 2018

 

Pantera Negra: Uma Nação Sob Nossos Pés é uma ótima pedida para quem não conhece o personagem e gostaria de se preparar para o que vem por aí nos cinemas.

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