Até que ponto podemos dizer que o passado e o presente são coisas distantes uma da outra, ou até que ponto são um prolongamento, uma descontinuidade ou uma ruptura? Olhar para o próprio passado é uma tarefa árdua, muitas vezes impossível, principalmente quando a carga de sofrimento impede esse olhar, e nos faz ignorá-lo. Exatamente desse olhar que trata a HQ Quilômetros Blues, escrita por Daniel Esteves, desenhada por Wanderson de Souza e colorida por Wagner de Souza.

Onde o passado assume o plano de fundo de uma história, a desilusão acaba sendo a palavra base de toda trama, e quem melhor parar falar disso do que Cartola? Ao ritmo subentendido de “preciso me encontrar” a revista se desenrola tendo como foco a história de Flávio. O capítulo de abertura traz um título muito sugestivo: “A mesma história”, sim, a história pelo qual todos passam cedo ou tarde, aquele momento da vida em que olhamos para trás buscando entender quem somos hoje, aquele instante em que perguntamos: a vida que levei valeu a pena? Realmente construí coisas que eu queria ter construído?

A resposta para ambas as perguntas estão nas memórias, na forma como interpretamos o que foi vivido e na relação de relevância que cada memória tem no presente. Quantos amores interrompidos, quantas histórias familiares conturbadas, quantas bandas e quantos amigos fazem parte do seu passado? A mesma história. Encontrar-se é uma tarefa que exige o confronto com tudo o que já foi experimentado. Nesse ponto em que Cartola e Daniel Esteves convergem na narrativa da HQ Quilômetros Blues.

Flávio encontra-se em um momento de sua vida em que mesmo após constituir família, ter um emprego estável e filho, não se sente satisfeito pelos caminhos que a vida que trilhou, vivendo um contexto no qual muitos não teriam coragem de desamarrar-se das correntes morais criadas por cada uma dessas construções. Ainda sim, Flávio decide retornar ao passado acompanhado pelo espírito de Cartola, para refazer as escolhas de anos atrás, ou para recomeçar do ponto em que parou.

Esse é o ponto em que está toda a beleza da HQ, onde a simplicidade da obra converge com a beleza da profundidade do sentimento, como uma forma de reverência ao trabalho do Cartola, assim como uma reverência à vida de todo leitor, pois a mesma história há de ser vivida por todos. Simplicidade de achar que o passado tem volta, que pode ser reconstruído ao recomeçar do ponto em que se parou, sem perceber que essa ação é algo impossível. O passado está morto e não pode ser reconstruído, o ponto em que cada conflito humano remonta em sua memória como algo crucial para todo o desenrolar de sua vida, não pode ser retomado, pois as coisas e pessoas envolvidas nesse ponto também seguiram suas próprias vidas, também fizeram escolhas e também se desiludiram por esse ou outros assuntos. Mesmo que haja um reencontro das pessoas envolvidas nesse conflito e no mesmo local não será o passado, cada pessoa terá uma nova carga emocional e uma nova maturidade adquirida ao longo do tempo, serão pessoas que enxergam a vida e as possibilidades dela de uma forma diferente, pessoas envolvidas em outro contexto, vivendo um novo tempo.

Essa é a grande descoberta de Flávio ao longo da narrativa, as coisas passam e passam numa velocidade incrível, onde num piscar de olhos você está com 40 anos sem saber como chegou ali, quase não reconhecendo a si mesmo ao se deparar com histórias dos seus amigos de infância, de sua família e dos rumos que cada um tomou. Nada pode ser revivido, tudo é absolutamente novo, todas as relações retomadas são inéditas. Um recomeço não se trata de uma ligação direta entre um ponto do passado e um ponto do presente, mas sim de um ponto do presente com o mesmo, entre pessoas totalmente novas, que vivem outros contextos, têm novos pensamentos, novas posturas, novas visões sobre a vida e principalmente novas formas de encarar aquele sentimento que fora rompido no passado. Quilômetros Blues é uma bela mensagem sobre as escolhas, as desilusões e as soluções para conflitos que vira e mexem estão sempre nos perseguindo, tudo ao som de um compositor aclamado pela crítica desde os anos 70 até hoje e ícone do samba: Cartola.