Moore dos vários títulos. Melhor escritor de quadrinhos de todos os tempos? Mago dos quadrinhos? Um dos romancistas mais importantes do último século? Todos eles tem uma base, concreta, verídica. Nascido em Northampton e com uma infância e juventude recheadas de conturbações, crises e o uso constante de drogas, Moore é o mais próximo que temos sobre uma entidade mística, profundamente alinhada e politicamente correta com o anarquismo. É um mago da nossa nova era, da tecnologia, do romancismo, das boas histórias e das criações conturbadas e profundamente psicopatas das várias mentes. Alan é criador de um movimento relacionado aos quadrinhos dos últimos tempos que influenciou não só somente as próximas histórias que vieram, mas também a própria cultura audiovisual, como o cinema. Moore é acima de tudo um visionário, um arriscador, uma figura sem medo ou estigmas de errar e felizmente ele sempre acertou.

O século XX foi marcado por situações políticas e sociais que acarretaram em diversas mudanças na nossa era atual, tivemos guerras mundiais, guerras silenciosas, conflitos internos, a criação de movimentos e ideologias, a mostra ao mundo do ódio e da intolerância e outras inúmeras ações feitas pelo homem que abriram as portas para o novo século tecnológico. O aspecto mais comum de um período histórico assim é a criação de histórias baseadas nisso, embora seja comum, de certa maneira com o nascimento do conceito de super herói em 1938, era raro encontrar histórias em quadrinhos “diferenciadas”. A DC Comics inicia tudo com Superman#1, onde as peripécias de um alienígena vindo de outro planeta e criado na Terra transcorria entre as páginas coloridas, posteriormente a figura do vigilante do Batman e depois de anos a invasão de várias histórias, personagens, figuras, conceitos e outras editoras. Havia ícones no passado, como figuras mitológicas (Hércules, Perseu) ou de outras mídias (Tarzan), mas os quadrinhos iniciaram todo esse movimento do heroico em páginas e histórias, não tinha uma literatura do tipo e é óbvio clarear a visão de todos diante o berço desse aspecto histórico midiático. Em meio a um cenário tão bem delineado pelo séc. XX, Moore foi um visionário em relação a histórias em quadrinhos padrão, era usual encontrar o vilão contra o herói, um conflito e o término da história com o vencer do bem, havia histórias um tanto diferentes, mas grande parte persistiam em manter esse sentimento antigo, anacrônico e daí é que um jovem desempregado, despedido do último emprego por fumar maconha em expediente entra.

Moore tem toda uma trajetória de empregos, ele inicia na revista semanal Sounds. Ele escreve uma história intitulada de Roscoe Moscou com um diferente pseudônimo, após de outros trabalhos como 2000 A.DA Balada de Halo Jones e SKIZZ, Moore inicia um de seus maiores sucessos, quando começa a trabalhar na revista Warrior, V de Vingança. A história gira em torno de uma Inglaterra distópica, onde um totalitarismo havia sido implantado na política da região, Moore com toda certeza se baseou em fenômenos políticos e sociais daquele momento de sua vida para criar a história. O anarquismo impregnado na história de vida do personagem “V“, a  base no governo de Margaret Thatcher e uma concepção nascida de várias outras obras como 1984 torna com que o impacto cultural de V de Vingança alastre-se por toda a cultura pop e pela cultura mundial, grupos anônimos, hackers, manifestantes e todo o tipo de “rebelde” contra o estado utilizam a famosa máscara do personagem para lutarem contra algum tipo de força maior. V de Vingança foi concebido entre 1982 e 1983 e foi publicada nesse período, porém não fora terminada, em 1988 a DC Comics influencia Moore e David Lloyd (O ilustrador da história) para finalizarem e publicarem e então V de Vingança vem ao mundo, finalizada, prontíssima. Em 2005 ela é levada para o cinema, se torna um ícone em crítica e público e amplia cada vez mais o sucesso da história e do personagem “V”. Ao mesmo tempo, em 1982, Moore também estava envolvido nas histórias do Miracleman, uma figura vinculada a outros autores e concepções de história. Moore então começa a trabalhar na DC Comics, ficando amplamente reconhecido nos EUA.

A próxima fase da vida e da obra de Moore é com O Monstro do Pântano, a história do personagem que era de certa forma simplista é totalmente modificada por Moore que é novo no mercado. Alan gira do avesso o personagem e apresenta uma busca pela humanidade perdida ou mantida do personagem e também é nelas que o mesmo introduz Hellblazer, ou mais conhecido como John Constantine, é a partir daí que o personagem ganha sua revista própria e ocorre a ascensão de movimentos diferentes no mundo dos quadrinhos. A linha Vertigo entra em ascensão, é com Hellblazer e Monstro do Pântano que Moore traz elementos do horror maduros e é nessa premissa que a Vertigo pretende seguir, apresentando um clima maduro e histórias mais complexas e adultas. Alan não foi somente um escritor fundamental nesse início de carreira para criação de histórias importantes e poderosas, também foi por movimentar o mundo dos quadrinhos em escalas editoriais, como o caso da DC Comics e da Vertigo. E também nos traz A Piada Mortal. É inegável falar sobre a questão do sentimento novo de Moore, sobre como ele trouxe algo novo para o mundo dos quadrinhos, novidade, atual, realístico. Mas também há um aspecto da renovação, o Batman é uma figura EXPLORADÍSSIMA nos quadrinhos, A Piada Mortal é uma de suas mais célebres histórias por explorar a psique dos dois personagens mais famosos das histórias do morcego, O Coringa e o próprio Batman. O contexto adulto, pragmático, extremamente bem conceituado e poderoso de Moore é um modo de renovação de certos conceitos de histórias já criadas, como vamos ver futuramente Moore também se envolve com Superman e isso concretiza que o escritor não é somente um homem de novas ideias, é um homem renascentista que de todas as maneiras trouxe para esse universo literário grandes histórias.

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De um caráter sombrio, bem formulada e de uma densidade sem tamanho, A Piada Mortal é um clássico sem escalas.

Outra grande obra do autor também é Do Inferno ou From Hell, uma história que gira em torno de uma Inglaterra com a presença de Jack, o Estripador. A história foi adaptada para o cinema em 2001 e também oculta-se um grande roteiro, de uma complexidade extremamente áudio visual, como se programada para uma adaptação e extremamente bem feita sob um traço disforme e jugular do ilustrador.

Em 1985 o autor é chamado para reconfigurar personagens criados, Moore recusa e cria algo novo. Talvez aí seja o ápice da carreira de escritor de Moore, a concepção de uma história sem barreiras. Watchmen é um série de doze edições publicadas pela Editora DC Comics, ela segue uma linha temporal totalmente diferente e é de uma premissa avassaladora, a questão da realidade existencial de super heróis no mundo real acarretam a turbina e combustível de tragar questões políticas, filosóficas, sociais e históricas.  O que Moore fez em Watchmen é a total construção de uma obra tão complexa, aprofundada e bem construída que beira a perfeição, o roteiro é de uma imensidade universal, além da arte belíssima do seu parceiro David Gibbons. Moore nos traz um Estados Unidos no meio da Guerra Fria, próximo a um holocausto nuclear, onde vigilantes existiram e se aposentaram e com uma presença acima de todos que é um Superman realista, mas ele é americano, Dr. Manhattan, uma figura tão poderosa e existencialista que a sua relação com a Terra é como a de um homem com um formigueiro. O aspecto charmoso da psicopatia dos personagens também é chamativo, temos o Comediante que é um sádico total e tem todo o tipo de base inescrupulosa e anarquista para a sua vida e Rorschach com seu fascismo nas ruas e sua presença ameaçadora e violenta, os vigilantes não são perfeitos, é a partir de Watchmen que nasce o herói modificado, a questão da mudança do escoteiro e parte para uma premissa totalmente nebulosa, drástica e adulta. Eleito como um dos melhores romances do século XX e vencedor de prêmios que anteriormente eram somente levados a literatura em livros, Moore se torna uma figura conhecidíssima na cultura pop, é com Watchmen que a vida dos super heróis é quebrada, analisada e renascida novamente. Eu posso citar e descrever Watchmen com um milhão de adjetivos, posso falar da complexidade do roteiro, das nuances e referências que o autor faz com a criação de histórias internas, mas não o farei, se você já leu Watchmen você sabe do que eu estou falando, e se você não leu… Bem, considere-se incompleto, e vá ler.

Após sua saída da DC Comics e o início dos anos 90, Moore deixa esse contexto de Watchmen e trabalha em A Liga Extraordinária, uma história que compreende uma cadeia de personagens da cultura popular literária, como o Drácula. Futuramente trabalha com Promethea, uma história com elementos ocultistas de sua vida pessoal, como alquimia, a mitologia xamã e a presença constante da situação do oculto, do não conhecido. Mas voltando aos vários campos de trabalho e mais conhecidos do autor é óbvio que temos que comentar sobre Whatever Happened to the Man of Tomorrow? E no Brasil, O que aconteceu com o Homem de Aço? O compendio de histórias sobre toda a mitologia do Superman formuladas por Moore narra toda uma trajetória de vida da figura mais conhecida dos quadrinhos, desde dramas internos como Clark Kent até a morte de amigos e vilões, Moore destaca uma dezena de aspectos do Homem do Amanhã, obra do filósofo Friedrich Nietzsche. Além de despedidas, desfechos e um término aprazível para as múltiplas facetas do herói, Moore também nos presenteia com For the Man Who Has Everything. A história também do Superman que narra a possessão de uma planta alienígena sobre o escoteiro azulão e a criação de uma realidade mentirosa na mente do herói onde todos os seus desejos internos se transformavam em uma vida real, o autor esclarece como Alan vê o Superman. Diferente de Frank Miller que desafia a identidade heroica da figura vinda para a Terra, Moore apresenta um caráter muito mais dramático sobre o arco da figura bondosa que desce para a Terra para o auxílio dos humanos e tem de enfrentar milhões de desafios para provar isso, ele esclarece como o Superman não é uma figura puramente esperançosa, mas não quebra o conceito do herói o transformando em um ditador maléfico ou em um vilão, mas denunciando a tristeza interna do Superman, da morte e da destruição de seu planeta natal e como a sua vida seria “normal” se Krypton não tivesse morrido. Alan igualmente com A Piada Mortal nos esclarece uma visão dos personagens de uma maneira catastrófica, as histórias e roteiros criados para simples quadros desenhados e pintados parecem surreais, todo o poetismo não barato e a construção monstruosa e anti-simples do autor só influenciam ainda mais em transformar Moore em uma figura fora da posição de um simples escritor de histórias em quadrinhos e seria simplista até demais ele ser considerado “O Melhor”.

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E após aprofundar-nos mais no caráter de Moore como escritor de quadrinhos, o mais óbvio seria aprofundar na visão de vida de Moore, no que é Alan Moore. Também escritor do romance A Voz do Fogo, publicado em 1996, Alan também é escritor de Jerusalém, com mais de 1.500 páginas. O caráter literário de Moore nunca o deixará, e agora com 62 anos, o escritor é um monstro na cultura de histórias, na criação de roteiros e em como relacionar personagens, não importa o tempo, se são deles ou não e em aprofundar mais essa câmara de nascimento de ideias. Um amante da louca mitologia de H.P. Lovecraft, ele também é escritor de Neonomicon, uma história extremamente pirada e baseada na mitologia de Lovecraft, com a presença de uma das figuras do autor. Moore também é um grande fã de Aleister Crowley, um ocultista do séc. XX famoso por suas histórias ocultistas e amplas bibliotecas do gênero. Em realidade envolvido com a magia e todo o tipo de estudos que o mago poderia ter, Moore tem duas filhas e é casado com sua esposa desde 1974.

Se há um escritor de histórias que merece ser destacado é ele, polêmico e talvez chato? Qual é o problema? Ele é um gênio! A criatividade, a monstruosidade e a capacidade de criar essas histórias, revolucionar gêneros e personagens e abrir portas para um mundo pop totalmente diferente torna a dívida de vida do autor quitada e talvez excedida em papel universal. Enquanto enfocam em nomes criatórios, meio superestimados e que fizeram papeis fracos na indústria dos quadrinhos, Alan Moore é de um papel estrondoso, influenciador de grandes nomes dos quadrinhos como Neil Gaiman e também criador de contextos para esse universo totalmente utilizados em mídias diferentes na época atual. É através desse único escritor que a revolução dos quadrinhos para uma perturbação muito mais ampla começou e com ela que a melhor década de criações se permaneceu.

Alan Moore é tão mítico quanto suas obras, é um romancista sem cadeias, é um alguém realmente mago.

OBRAS DO AUTOR:

  • V DE VINGANÇA
  • MARVELMAN
  • MONSTRO DO PÂNTANO
  • WATCHMEN
  • A PIADA MORTAL
  • DO INFERNO
  • PROMETHEA
  • NEONOMICON
  • A LIGA EXTRAORDINÁRIA
  • FASHION BEAST

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