Quando falamos de Gantz, automaticamente nos lembramos daquele anime de 26 episódios exibidos aleatoriamente em algum canal da TV. Mas esquecemos, ou até mesmo não sabemos quem é seu criador. Esquecemos quem é Hiroya Oku. É um mangaká japonês que tem como sua obra mais conhecida a série Gantz, enquanto seu primeiro trabalho notável foi o mangá HEN. A partir desta obra ele demonstrou uma enorme predisposição para escrever histórias do gênero Seinen com uma característica de romance inclinado para o Ecchi.

Toda essa característica de sensualidade no conceito bordado e nas artes de cada um de seus trabalhos, criam interesse pela ficção científica a qual Gantz faz parte e se encaixa como obra prima do autor. Seja por juntar as denúncias dentro da sociedade japonesa, do pensamento japonês coletivista e individualista. Ao mesmo tempo ele nos enfatiza obras da cultura pop distópicas e na forma como nós humanos nos vemos com relação a outros seres vivos do planeta.

Gantz trata sobre o personagem Kurono Kei, um jovem individualista, inseguro e pervertido. Sempre odiou a tudo e a todos. Um dia encontra no metrô um antigo conhecido seu, que não via desde quando era criança, Katou Masaru. De início tenta evitá-lo, mas vê um mendigo bêbado caindo nos trilhos. Eles tentam salvá-lo, só que acabam morrendo atropelados. Ao ver que foram levados até uma sala, junto com outras pessoas, eles se espantam.

No meio dela está uma esfera negra, Gantz. Ela toca uma música e passa uma missão para matar Aliens. Mostra o arsenal de armas e o uniforme de cada um presente na sala. A missão deles é sobreviver ao jogo e matar os aliens indicados dentro do tempo e campo estipulado. Basicamente, Gantz é isso.

No começo, o mangá pode se tratar de uma série de referências às obras que marcaram algum momento da vida do autor. Todavia, se analisarmos mais a fundo, as homenagens estão homenageando a forma com a qual o mangá está sendo construído. Em vez de criar toda uma explicação para determinado a assunto, a referência posta consegue entregar de forma mais sutil a crítica social a qual ele faz. Fazendo assim, uma série que só faz sentido na época em que vivemos.

A era da ebulição da comunicação de uma forma que nunca foi vista antes. Assim como outras obras da atualidade como Black Mirror, por exemplo. Gantz também consegue fazer críticas ao nosso estilo de vida e à forma como estamos lidando com a tecnologia e os riscos que isso pode nos causar.

A inserção de elementos como a sensualidade das personagens femininas, a personalidade forte dos protagonistas – em alguns casos até mesmo quebrando dilemas japoneses ao colocar o protagonismo nas mãos de personagens femininos -, a criação do design dos aliens, dos armamentos, dos cenários e a forma como a profundidade psicológica dos personagens é abordada, moldam a forma como a obra é vista, tornando-a inconfundível.

A abordagem do autor com relação às vanguardas europeias, criando os traços de alguns aliens como se fossem pinturas ou esculturas, se aproveitando de referencias as obras de Dalí ou Picasso. Junto ao estranho e ao incompreendido.

Gantz se aproveita dos conceitos literários, científicos e distópicos dos mais renomados autores como Aldous Huxley, Arthur C. Clark, Isaac Asimov. Uma frase de Arthur C. Clark, por exemplo, diz que “existem duas possibilidades, ou estamos sozinho no Universo ou não estamos. Ambas são terrivelmente aterrorizantes”, e é nesse ponto que o autor Hiroya Oku vai extrapolar os verdadeiros limites da realidade.

Ao longo de toda a trama, o protagonista Kurono amadurece de uma forma que o faz mudar seu pensamento em relação relação ao valor da vida humana. Pois o personagem sempre foi era desinteressado na sociedade e com nas coisas ao seu redor. E foram preciso missões que deixam a sua vida em jogo para que ele note isso.

Em vários casos as pessoas se veem perdidas em suas crises existenciais criadas e alimentadas pela solidão e pela falta de perspectiva em algo maior do que a rotina cotidiana exige. Em vários momentos da obra, vemos personagens se perguntando se não estão no inferno por terem morrido e estarem enfrentando constantemente aliens. Enquanto alguns personagens apenas se drogam, comentem crimes e tem opiniões bastante controversas sobre o que realmente está acontecendo e o que é o Gantz.

Tais conceitos remente a Nietzsche, nos seus conceitos sobre na luta contra o niilismo (onde os protagonistas dão mais importância à vida humana do que às de outros personagens), o além-homem (onde o protagonista determina seus próprios valores fazendo registros de homem para além-homem) e o eterno retorno(onde os personagens são constantemente mandados para o quarto para enfrentarem os aliens).

Outro conceito nietzschiano abordado ao decorrer do mangá, é a existência ou não de um Deus. Em vários momentos da obra, ocorre a satirização do pensamento religioso humano e a forma como nós humanos nos apegamos a promessas divinas para ter esperança em algo, o que nos faz voltar à frase de Arthur C. Clark: “existem duas possibilidades, ou estamos sozinho no Universo ou não estamos. Ambas são terrivelmente aterrorizantes” – o que nos faz ou viver sob a tutela de um Deus psicopata responsável por todas as atrocidades do mundo, ou estamos sozinhos, somos frutos do acaso, apenas poeira cósmica e não temos nada para nos agarrar e criar esperanças.

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