No último dia 18 de dezembro, o K-pop perdeu um de seus mais completos artistas: Kim Jonghyun. Encontrado inconsciente em um apartamento, em Seul, após sua irmã receber mensagens de texto com despedidas e acionar os serviços de emergência, Jonghyun faleceu. A polícia concluiu que foi um suicídio por inalação de monóxido de carbono, mas não é minha intenção nesse texto detalhar as circunstâncias de sua morte ou os pormenores dela, mas sim explanar um pouco sobre quem era Jonghyun enquanto artista e sua luta contra a depressão.

Nascido em 8 de abril de 1990, Jonghyun envolveu-se com a música enquanto ainda estava na escola, participando de uma banda, a partir da qual foi descoberto por olheiros da SM Entertainment, maior empresa musical da Coreia de Sul e um nome de peso na história do Kpop. Tendo se saído bem nas audições, em 2005 se tornou trainee na empresa e em 2008 debutou no boygroup SHINee, ao lado de mais quatro membros. Em 2015 debutou como artista solo, com o álbum Base, que lhe rendeu um Disk Bonsang no 30th Golden Disk Awards, além de várias indicações a prêmios como “melhor artista solo” e “melhor colaboração”.

Num ramo tão fabricado como a indústria do K-pop, Jonghyun mostrou-se um artista multifacetado ao escrever canções para o SHINee e compor praticamente todos os seus trabalhos solo, além de seus talentos musicais. Vocalista principal de seu grupo, era também um exímio dançarino (uma vez que SHINee possui uma série de coreografias complicadas).

Outro incrível lado seu é o literário, tendo lançado um romance ainda em 2015, intitulado “Skeleton Flower: Things That Have Been Released and Set Free“. Sem dar nomes aos personagens, o livro fala sobre o relacionamento entre um homem e uma mulher, e após sua separação, as suas jornadas em busca do autoconhecimento. Ela, uma jornalista workaholic, que em determinado ponto da obra entrevista um cantor/apresentador de um programa de rádio, o qual fala um pouco sobre solidão e depressão, e que é um personagem autobiográfico do cantor (que esteve à frente do programa de rádio Blue Night de 2014 a 2017). Confira um pequeno trecho do livro:

“A coisa sobre a solidão é que, eu não a vejo como algo simples que vai desaparecer uma vez que for apaziguado. Você poderia dizer que é como uma sombra que caminha com você por toda a sua vida. Ainda, de vez em quando eu sinto a necessidade de algo para me confortar – mas como as coisa que eu mencionei a você antes estão me abraçando tão completamente, eu estou passando por uma solidão saudável agora”

Através dessa obra, é possível conhecer um lado novo de Jonghyun, não apenas o cantor dedicado e a personalidade carismática, mas também o homem conflituoso em constante luta contra a sua depressão. O título, “skeleton flower”, faz referência à Diphylleia grayi, uma flor originária das regiões frias do leste asiático, cujas pétalas brancas ficam transparentes ao entrarem em contato com a água. Ainda sob inspiração dessa flor, Jonghyun compôs também uma canção com o mesmo nome.

Além do disco Base e do lançamento do livro, o cantor lançou mais 3 discos: She isStory Op. 1 Story Op. 2. Em sua discografia constam também uma série de canções para trilhas sonoras, bem como canções compostas para outros artistas, como Breath, para Lee Hi, Playboy para o boygroup EXO, No more para Lim Kim e Already para o colega de grupo Taemin.

Apesar de todo o prestígio e talento, Jonghyun lutou por anos contra a depressão. Em seu último álbum, Story Op.2, é possível notar a diferença gritante no tom de suas canções. A faixa principal, Lonely, teve participação de Taeyeon, líder do Girls’Generation e uma de suas melhores amigas (e que também sofre com depressão). Ele teria insistido e exigido que ela participasse da música, devido à proximidade que ambos tinham e a afinidade com seus problemas. Outras canções do álbum, como Let me outElevator, mostram um tom mais sombrio e quase desesperador.

E assim, ao final de 2017, o K-pop não perdeu só mais um ídolo, mas um artista completo e carismático, um dos poucos a tratar abertamente sobre causas consideradas “tabu” na Coreia do Sul, como LGBT e problemas psicológicos. E muito embora sua perda seja algo extremamente pesaroso, lembremos dele não apenas como o homem que infelizmente sucumbiu à depressão, mas também como o grande artista que ele foi, cujas obras estarão sempre disponíveis para nós.

 

You did well, Jonghyun.

 

 

facebook comments:

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here