“Mais um instigante thriller psciológico da mesma autora de A Garota Perfeita”. Apesar de saber que é puro marketing, que é pura vontade de manter os autores no topo e que são provavelmente falsas promessas sendo lançadas em busca que um leitor seja seduzido por elas e, enfim, as vendas cresçam e este autor permaneça no topo da cadeia alimentar dos escritores e, enfim, seja consagrado como um best-seller. E, infelizmente, A Desaparecida, de Mary Kubika, acaba se tornando um destes exemplares que você espera uma coisa e o que desaprece entre as páginas e páginas de suspense é a sua vontade de ler.

A DESCONHECIDA
Mary Kubica
Editora Planeta
352 Páginas

Todos os dias, a humanitária Heidi pega o trem suspenso de Chicago e se dirige ao trabalho, uma ONG que atende refugiados e pessoas com dificuldades. Em uma dessas viagens diárias ela se compadece de uma adolescente, que vive zanzando pelas estações com um bebê. É fato que as duas vivem nas ruas e estão sofrendo com a fome, a umidade e o frio intenso que castigam Chicago. Num ímpeto, Heidi resolve acolher Willow, a garota, e Ruby, a criança, em sua casa, provocando incômodo em seu marido e sua filha pré-adolescente. Arredia e taciturna, Willow não se abre e parece esconder algo sério ou estar fugindo de alguém. Mas Heidi segue alheia ao perigo de abrigar uma total estranha em casa. Porém Chris, seu marido, e Zoe, sua filha, têm plena convicção de que Willow é um foco de problemas e se mantêm alertas. Em um crescente de tensão, capítulo após capítulo a verdade é revelada e o leitor irá descobrir quem tem razão.

Não é que seja um livro ruim em sua totalidade – sejamos francos, encontrar um bom livro de thriller hoje em dia é uma tarefa árdua e que consiste em, geralmente, encontrarmos um a cada dez autores bons* e nos agarrarmos a ele da mesma forma como algum sobrevivente de um naufrágio quer agarrar-se a uma tábua para sobreviver. A história gira em torno de uma família totalmente dentro dos padrões, que já caiu nas “graças” da falta de empatia de um para com o outro e na dita rotina que, cedo ou tarde, pode acabar chegando a nós todos. Heide é quem encabeça essa trama toda, sendo uma humanitária que prefere ficar tagarelando à respeito de quantos imigrantes analfabetos Chicago possui, enquanto é odiada pela filha de doze anos, Zoe (que tragicamente inicia a passagem pela puberdade) e por Chris, seu marido workaholic que tenta de todas as formas possíveis não incomodar-se com o fato de que Heide sempre fala sobre as mesmas coisas.

Em paralelo a isso, nós conhecemos Willow. A Willow que residia nas ruas, pegava chuva e que tinha um bebê nos braços. A Willow que nos deixa com as pulgas atrás da orelha, mas que mesmo assim, não é o suficiente para fazer com que o livro sustente a si mesmo de forma que nos faça querer lê-lo deu uma só vez e solucionar de uma vez por todas quais são os mistérios que a envolvem.

A narrativa aqui é dividida entre três polos, sendo eles Heidi, Willow, Chris e não segue de forma nenhuma uma ordem fixa, e muito  menos uma forma cronológica correta. Primeiro porque somos apresentados à família dos Wood enquanto Heide, com seu jeito chato e tedioso, nos conta como conheceu Willow e sua bebê, Ruby. Como ela resolve abrigá-las dentro de sua casa, ignorando totalmente sua família e decidindo, por si só, bater o martelo sem sequer consultar seu marido. Então, temos Willow, que de uma forma mais atraente, mas ainda assim pouco desajustada, vai relatando sua vida pouco a pouco, desnudando seu passado de forma que nos leva a questionar como e por quê ela se encontra em um interrogatório, gerando expectativa no leitor. E, por fim, mas nem de longe menos importante, possuímos Chris. O belo Chris, administrador e analista de finanças, que trabalha como um condenado enquanto sua mulher já não é mais quem um dia ele viu.

Nunca ter lido nada da autora em questão talvez possa, de fato, ter colaborado para as impressões, mas enquanto lia página a página, com uma dificuldade certeira por questões que envolvem uma narrativa que alternava-se entre boa e ruim, pensava apenas em como as coisas pareciam pouco amarradas e até mesmo um pouco previsíveis. Os pontos de vista de Heide são chatos. Ela é uma personagem que parece não ter saído da própria bolha e nem parece ter o tato para conseguir perceber sua própria loucura. Quer dizer: ela é egoísta e mesquinha, pensando sempre em si mesma e ignorando às vezes a necessidade da própria família, mas continua sempre com o mesmo discurso de que “empatia é necessária, vamos ser caridosos e ajudar aqueles que precisam”, sem perceber as coisas que ocorrem à sua volta. De quase 400 páginas, apenas por volta das páginas 200 é que ela vai finalmente cair na real e se questionar se aquilo é seguro, se Willow é confiável. E isso contando que já faz no mínimo um ou dois meses da garota em sua casa.

Willow, por outro lado, é o que dá vida a história. É ela quem se encarrega da terrível missão de prender o leitor, de fazê-lo se questionar o quanto daquilo que estamos acompanhando se torna ou não passível de perdão. Ela solta as pistas – ela afirma que algo ruim aconteceu, e que o nosso maior desafio por aqui é tentar adivinhar, antes da última página, o que se resulta na afirmação total e plena que é ela quem, de fato, consegue prender o leitor.

E por fim, há Chris, que possui seus pontos de vista entre suas viagens de trabalho e preocupações com sua mulher e filha, enquanto abrigam uma total desconhecida.

O problema são os personagens – mesmo Willow é retratada de uma forma rápida e muitas cenas descritas poderiam facilmente ter sido substituídas por algo que rendesse uma profundidade maior ainda nos personagens. O passado do casal corre de forma veloz, memórias esquecidas na cabeça de um homem que não sabe mais o que faz da própria vida e de uma mulher que encontra-se desolada e destruída por uma perda que, mesmo não recente, ainda martela todos os dias no peito.

Heidi é totalmente cega por ter alguém dentro de sua casa que depende dela. Altruísta, seus familiares são deixados de lado, enquanto a única coisa que importa é Ruby, a bebê de Willow. E, muito embora a trama seja conduzida através de temas pesados (abuso infantil, abortos, traumas psicológicos e moradores de rua), o desenvolvimento não cumpre a proposta inicial, que seria nos fazer mergulhar naqueles personagens, visto que a narrativa em primeira pessoa nos permitiria isso. Contudo, a autora se mantém no superficial. Medos, frustrações, pequenas alegrias e memórias não dão conta de nos fazer sentir que eles são de fato reais. Com exceção, novamente, de Willow, que infelizmente possui um passado em sua bagagem de vida que é a realidade dura e nada bonita que nós sabemos existir.

Ainda assim, o livro é bom. Apesar de todos os defeitos que o permeiam, é uma leitura agradável para aqueles que se permitirem cativar. Apesar de Heide ser chata e não haver exatamente uma evolução da personagem, nós acompanhamos página após página sua real destruição, sua mente atingindo um ponto crítico que nos faz perceber como, de fato, os acompanhamentos médicos após um momento traumático são necessários. O desgaste mental de Heidi é algo que nos impacta, especialmente os últimos dois ou três capítulos, onde sua mente perturbada é encarregada de finalmentrender uma boa história.

É agradável, nada divertido, mas de longe não pode ser considerado um dos “melhores” thrillers deste ano.

*= Oh, sim. Eu realmente baseio-me nas minhas próprias estatísticas!

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