A editora Planeta é uma das editoras que, quando o assunto é livro histórico, eu mais gosto. Os fatos apresentados, a organização realizada, a forma como eles se preocupam em sempre trazer mais e mais. O assunto de hoje é um livro que li há um tempo, que aborda os relatos de Alfred Rosenberg, escritor e político que era considerado como o “pai do Nazismo” e que fazia parte do círculo de Adolf Hitler.

Os Diários de Alfred Rosenberg (1934 – 1944)
Autor: 
Alfred Rosenberg
Organizadores: Jürgen Matthäus e Frank Bajohr
Tradução: Claudia Abeling
Editora: Planeta, Selo CRÍTICA
664 PÁGINAS

Publicado pela primeira vez, o diário de Alfred Rosenberg representa um documento fundamental sobre a segunda guerra mundial e o nazismo. Um dos fundadores do partido nazista, Rosenberg era chamado de pai do nacionalsocialismo pelo próprio Hitler. Não é para menos: ele foi o principal ideólogo do Holocausto e de sua proposta de exterminar o povo judeu. Acreditava na supremacia branca, em particular dos alemães e escandinavos, e considerava os negros e judeus como uma raça inferior. Tornou seu pensamento em ação particularmente depois que foi apontado ministro do Reich para os territórios ocupados do leste, em 1941. Foi responsável por incitar o ódio, o genocídio e, pessoalmente, mandou executar milhares de homens, mulheres e crianças – algo que relatou em detalhes nos seus escritos. Também organizou o roubo de quadros e outros bens culturais em toda a Europa. Este diário estava desaparecido desde o julgamento de Nuremberg, quando Rosenberg foi condenado à morte por crimes de guerra. Descoberto em 2013, está sendo lançado mundialmente com comentários e explicações dos organizadores, dois estudiosos do nazismo.

Alfred Rosenberg. O nome pode soar estranho a alguns e familiar a outros, mas certamente uma vez na vida ouviu-se falar das consequências que Rosenberg deixou no mundo e isso porque, antes de mais nada, o alemão foi não apenas um escritor e político, também é aquele que é considerado como o ideólogo principal do nazismo. Durante dez anos, Rosenberg relatava em um diário que foi mantido por ele por dez anos (1934 – 1944), antes de ser enviado para Nuremberg. O livro publicado pela editora Planeta, sob o selo Crítica, revela a nós os escritos que relatam através de suas palavras não apenas detalhes a respeito dos contextos vividos, mas também retrata em sua essência mais bruta todos os seus fundamentos para a criação e implementação do nazismo na Alemanha daquela época. É um mergulho aprofundado em uma mente que detalha de forma incrível toda a estrutura que há por detrás do nazismo.

Ele, que era considerado por Hitler como um de seus mais importantes conselheiros, demonstra através de páginas a fio sua real fascinação e devoção pelo Führer. Os diários de Rosenberg foram encontrados apenas em 2013, quando já se acreditava fielmente que seus relatos haviam se perdido com o tempo. Retratos de uma época em que Rosenberg se via no auge, no topo da sua própria carreira.

O nazismo ainda causa estranheza, causa confusão. É uma ideologia que para a grande maioria das pessoas ainda soa como um absurdo incompreensível, especialmente ao tratar com uma questão tão cruel que diz respeito ao genocídio. Particularmente, quando mais nova, lembro que as questões a cerca da perseguição aos judeus me soava absurda. Não que ainda não soe, mas sempre quis entender o porque. Porque essas pessoas eram motivadas por essa filosofia, por essas atrocidades. Qual a lógica? As leituras frequentes a respeito do assunto ainda não bastavam para que eu pudesse ter um contato que fizesse compreender a lógica por trás das atrocidades cometidas. Ler os relatos de Rosenberg me trouxeram, novamente, o mesmo sentimento de anos atrás: que não faço a mínima ideia do que se passa na cabeça de um ser humano deste calibre. A forma como Rosenberg se expressa é confusa, de forma pouco clara, com palavras despejadas sobre o papel a respeito de altos e baixos em sua convivência com Adolf Hitler e também com as questões que envolviam diretamente o partido nazista.

Os relatos de Rosenberg, em sua maioria, apresentam-se detalhados, mas pouco construídos. Sua forma de expressar os acontecimentos relacionados à administração do regime nazista é dada através de uma estrutura pouco clara. Detalhes como relatos a respeito das ideias e comportamento de Hitler também são presentes, de forma a conhecermos ainda mais de forma aprofundada a respeito de como o dia a dia funcionava. De certa forma, é um  livro rico, fiel em uma tradução feita diretamente da tradução alemã.

Rosenberg, mesmo para seus colegas, era uma figura que apresentava problemas. Intelectual, claro, especialmente ao levarmos em consideração sua participação na “construção” do que é o nazismo – entretanto, até que ponto era realmente influente? Seus escritos passam a mensagem de que suas opiniões são fortes, mas a realidade é diferente. Mesmo os outros membros do partido nazista achavam o intelectual como uma figura confusa, que apenas possuía boa memória e era capaz de “somar 2+2”. Em paralelo a isso, somos capazes de contemplar os relatos de um membro fanático do círculo de Hitler. Em sua visão, as atitudes que levavam Hitler a uma possível ruína eram sempre culpa dos outros conselheiros, jamais do Führer.

O livro inteiro, como pode-se imaginar, não é de fácil leitura. Os relatos de Rosenberg foram devidamente compilados em um volume único lançado pela editora Planeta com extremo cuidado, tendo sido traduzida diretamente da edição publicada na Alemanha, oferecendo ao leitor um guia que nos auxilia a compreender ainda mais a dimensão do que possuímos em mãos. Contemplamos inicialmente uma introdução extensa, detalhada e durante todo o restante do volume somos agraciados com notas de rodapé que nos auxiliam em pontos obscuros que nos soam confusos. Durante a leitura, perceber que na verdade Rosenberg tratava sua moral falha e doentia como uma simples filosofia sólida e racional chega a ser perturbador. Conseguia de certa forma apaziguar as consciências alheias com sua doutrina nazista, fazendo com que praticamente todos os atos realizados pelo regime nazista se tornassem convencionalmente fáceis de serem praticados.

Com uma diagramação que não é cansativa, em capa dura, a edição da Editora Planeta é uma obra enriquecedora para qualquer um que seja fã de história. É uma edição indispensável para historiadores e curiosos.

E se você gosta de leituras a respeito da Primeira e da Segunda Guerra Mundial, recomendo fortemente a leitura da resenha do livro High Hitler, que o Levi leu também neste ano e a resenha do livro O Nazista e o Psiquiatra, ambos da mesma editora.

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