Bombou. Explodiu na internet embora muitas pessoas só tenham conhecido agora a obra de Jay Asher que foi oficialmente lançada aqui no Brasil em 2009, pela editora Ática. Velhinho, velhinho, com praticamente dez anos no mercado editorial pelo menos em terras gringas, Os 13 Porquês é um livro absurdamente curto, mas nem por isso, menos impactante. De “é um soco no estômago” até a “eu me vejo em Hannah Baker”, o a obra de Asher abalou estruturas por vários cantos do mundo agora que a Netflix lançou, no último dia 31, todos os episódios da série.

OS TREZES PORQUÊS
Jay Asher

Editora Ática

Ao voltar da escola, Clay Jensen encontra na porta de casa um misterioso pacote com seu nome. Dentro, ele descobre várias fitas cassetes. O garoto ouve as gravações e se dá conta de que elas foram feitas por Hannah Baker, uma colega de classe e antiga paquera, que cometeu suicídio duas semanas atrás. Nas fitas, Hannah explica que existem treze motivos que a levaram à decisão de se matar. Clay é um desses motivos. Agora ele precisa ouvir tudo até o fim para descobrir como contribuiu para esse trágico acontecimento.

Talvez o livro seja tão impactante porque representa muitas pessoas, em diversas formas e contextos. Talvez, a fórmula do sucesso de Os 13 Porquês se deva ao fato de que muitas pessoas se considerem como Hannah Baker ou como Clay Jensen. A realidade tratada de forma tão sutil e ao mesmo tempo tão pesada: porque, sejamos francos, viver em um mundo onde nossos sonhos, desejos e nós mesmos somos diariamente julgados e condenados é uma tarefa absurdamente difícil e encontrar o equilíbrio para conseguir (sobre)viver e lidar com as pressões que a sociedade impõe de forma tão cruel. Sendo um livro de ficção juvenil, é uma daquelas obras eternizadas na mente e por isso mesmo que algumas coisas são imutáveis e como um punhado de palavras escritas por um homem podem desencadear uma reflexão mais aprofundada.

A narrativa acompanha Clay Jensen – um garoto comum, típico do ensino médio – que um dia chega em casa e descobre um embrulho bem especial e mórbido: fitas que explicam as razões pelas quais Hannah Baker, uma menina que estudava com Clay, cometeu o suicídio. Entre as várias razões, a missão de Jensen é mostrar para os demais indicados pela garota pela qual já tinha sido apaixonado todos os motivos que a compeliram a um ato tão horrível. Durante todo o seguimento da história, é possível você sentir aqueles mesmos sentimentos por uma garota que é um fantasma nos assombrando durante a leitura: ela não é detalhada e nem mesmo chega de uma vez só. Ela vai se acomodando ao seu lado aos poucos, mostrando a quem se permite um lado tão cruel e terrível que adolescentes possuem. Diferente do que demais livros prometem, Os 13 Porquês cumpre, entrega e te dá um tapa na cara com tamanha força que você se sente sendo arremessado para longe.

É justo dizer que a adolescência é uma fase cruel. Provavelmente, a mais cruel de todas. O ápice dos hormônios, da vontade de se provar, do “ser e afirmar”. De sempre ter a razão, de querer mover céu e terra durante aquela briga ou de simplesmente apontar o dedo para o colega do lado e esquecer que, assim como os demais, todos somos humanos. E, por isso mesmo, a capacidade de empatia deveria ser maior do que a que possuímos. É natural sermos egoístas. De acabar pensando mais em nós mesmos e menos no outro. É a fase em que você firma a sua personalidade, suas opiniões – você amadurece, cresce, cai e levanta um milhão de vezes e já começa a perceber que é bem diferente do que aquilo que você vê nos filmes americanos e séries adolescentes. A realidade crua é que nós sofremos. Não importa se você é o jogador do futebol ou a menina dos livros, ou o nerd dos games. Os conflitos internos passam a se exteriorizar a tal ponto que a crueldade aparentemente é a única forma de lidar com os problemas que vão surgindo ao longo do caminho.

E é isso que se encarrega de resgatar Os 13 Porquês, que vai muito além de um romance adolescente. Vai muito além de uma história da garota que se suicidou. Inclusive, Hannah se faz presente. A todo momento, a cada fita, a cada nova palavra sendo lida, você sente que ela está do seu lado contando uma história que a cada novo momento vai ganhando novos protagonistas, novos personagens. E a fluidez que a narrativa acaba possuindo por ter o intercalar entre Hannah – que cita suas razões e conta sua história pouco a pouco – e os pensamentos de Clay (que nos dão a perspectiva de alguém que não estava diretamente ciente da verdade por trás dos boatos que foram construindo a fama dela) é um detalhe singular que faz toda a diferença.

E, de forma certa, Jay Asher consegue trazer o sentimentalismo na dose equivalente com todas as desgraças que acabaram envolvendo o nome de Hannah Baker. A abordagem aqui vai muito além do bullying. Ele, inclusive, não é o protagonista da história. O que vemos aqui é o poder das palavras. São as juras de que determinado acontecimento é verdade, e da importância que é desabafar e colocar para fora o que se pensa. É sobre conseguir perceber que nossas atitudes, mesmo que de forma não intencional, podem acabar ferindo e machucando alguém; que mesmo quando julgamos o outro, estamos esquecendo de nos olhar no espelho. É sobre a falta de empatia com o próximo, e a capacidade de não conseguirmos muitas vezes diferenciar um boato de uma verdade.

Uma mão estendida poderia ter feito com que ela voltasse atrás em uma decisão. Mas, ao contrário disso, você se depara com uma garota forte, mas que vai aos poucos definhando, se fechando em uma casca feita de decepções e tristeza. É uma dualidade incrível porque aborda um assunto de forma tão densa e pesada, mas o humor incontestável e o sarcasmo de Hannah tornam a coisa toda mais leve, mais sutil. Não por isso menos dolorosa. Você é capaz de se deparar com uma garota que, pouco a pouco, vai definhando. Se torna uma casca de decepções e tristezas, cercada por pessoas que não são capazes de enxergar o peso de suas atitudes.

REVIEW OVERVIEW
Trama
Ambientação
Personagens
Narrativa
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Responsável pelos livros, mas é metida demais e publica também para séries e filmes. 22 invernos, viciada em café e em dar pitaco em tudo.

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