Título: Fábulas Cruéis
Autor: Luiz Vadico
Editora: Empíreo

Sinopse: “Luiz Vadico traz de volta as fábulas – composição literária que tornou famosos grandes escritores como Jean de La Fontaine -, dando um toque sinistro e cruel a elas. Cada uma das 30 histórias revelam uma moral de uma forma sombria e, por vezes, assustadora.”

 

 

Não me lembro a última vez que li ou escutei uma fábula, mas aposto que você tem memórias infantis de histórias como A Tartaruga e a Lebre, A Cigarra e a Formiga, entre outras tantas, certo?

Fábulas, definindo grossamente, são histórias curtas frequentemente vividas por personagens animais com características antropomórficas – qualidades humanas tais como habilidade de fala e reflexão sobre sentimentos – e que carregam um ensinamento moral.

No compilado de Luiz Vadico, as fábulas são cruelmente reais. Elas não apresentam elementos de horror, mas os personagens são a representação do ser humano, especialmente em seus momentos mais sombrios – mesmo que comuns –, e a nossa vivência em sociedade, quebrando completamente a inocência e floreio das fábulas clássicas e nos fazendo refletir ao invés de entregar algum ensinamento.

Demorei um bom tempo pra digerir o livro como um todo e tudo o que ele representa. Primeiramente achei que a obra não tinha me agradado tanto, mas eu simplesmente não conseguia apontar exatamente o que tinha de errado e foi só no último terço do livro que eu finalmente entendi que o meu mal-estar não era com a escrita do autor, mas o que ela me fez sentir como pessoa.

Então comecei a me pegar sorrindo com as sacadas do livro, a frieza dos desfechos, a surpresa das reviravoltas, a tristeza das tragédias, a revolta com uma traição e a impotência que sentimos assistindo o erro dos outros, exatamente um espelho da vida. A questão é que estamos tão acostumados a viver o tipo de crueldade que o autor brasileiro ilustra que nem nos damos conta mais e quando nos tornamos espectadores causa estranheza.

Fábulas Cruéis reúne 30 histórias protagonizadas por animais, humanos e até plantas, com debates contemporâneos e polêmicos como homossexualidade, discriminação, violência, padronização de beleza, alienação e auto aceitação, tudo assustadoramente – ou genialmente – disfarçado com um ar infantil.

Uma Família para Sara e Sônia, O Porco-Espinho e o Rato e Um Lobo são algumas das primeiras fábulas e as que mais me impactaram – e as que eu fiz uma meia dúzia de pessoas aqui perto de mim conhecerem também –, trazendo um casal de águias fêmeas desejosas de uma família com filhotes, um porco-espinho solitário buscando a amizade de outra espécie e um lobo desdentado vivendo como cachorro longe de sua alcateia.

“ – Sara, para! Você me desespera assim! Pare de construir esse ninho!
– Não é apenas um ninho – respondeu, séria –, é o nosso lar.
– Que lar?! Não teremos filhotes! Não seremos uma família!
– Eu e você somos uma família! – respondeu convicta.”

Por mais que me dê a vontadezinha de me aprofundar mais nessas histórias, especialmente as minhas favoritas, e convencer vocês da leitura bacana que tive, abrir mais que isso iria tirar toda a experiência de ler esse livro de surpresa.

Em uma edição de capa dura, uma diagramação linda e ilustrações maravilhosas de Eduardo Seiji que casam perfeitamente com a atmosfera da obra, Fábulas Cruéis traz algumas histórias adaptadas de fábulas famosas e outras super inusitadas, resultando em um conjunto de uma originalidade incrível que vale, e muito, a pena conhecer.

Por fim, pode ser meio sadista, mas uma parte II, por favor?