Cru, violento, insano. À primeira vista confuso, mas logo se revelando uma crítica social recheada de questionamentos que causam polêmica até hoje. Se definido em uma expressão, Laranja Mecânica, do inglês Anthony Burgess poderia ser definido como insanamente atual, e talvez seja esse um dos principais motivos pelo qual este livro se tornou um clássico da ficção científica e o filme homônimo de Stanley Kubrik tenha se tornado um clássico do cinema cult: a identificação de uma série de problemas sociais em uma sociedade fictícia e distópica que se assemelham muito à nossa própria sociedade atual.

Publicado pela primeira vez em 1962, Laranja Mecânica narra a história de Alex, um jovem fanático por música clássica (em especial Beethoven) que lidera uma gangue de delinquentes que não possuía escrúpulos quanto a roubar, agredir e estuprar, ações que são explicitadas na obra sem o menor pudor, como a agressão de um idoso a troco de nada, o estupro de duas menores de idade bêbadas, e o estupro da esposa de um escritor, que acabou por acarretar na morte da mesma. A trama começa a se encaminhar quando após uma briga pela liderança dentro da gangue e um assalto mal sucedido à casa de uma senhora idosa, Alex acaba sendo abandonado por seus companheiros e preso pela polícia. Condenado a 14 anos de prisão, Alex passa a trabalhar auxiliando o capelão da prisão com a aparelhagem de som, dormindo numa cela superlotada e um novo prisioneiro chega. Sedento de brigas, ele tenta assediar Alex, que o espanca e é apoiado pelos colegas de cela, e praticamente todos o espancam, deixam-no no chão e vão dormir. Na manhã seguinte, o novato está morto e a culpa cai toda em cima de Alex, o qual recebe como punição servir de cobaia a um novo experimento, chamado de Tratamento de Recuperação, que supostamente lhe tiraria os instintos criminosos e lhe devolveria a liberdade em cerca de 15 dias. De acordo com isso e julgando ser uma boa oportunidade, Alex assina os papeis e é levado então a um novo prédio, onde supostamente iniciaria seu tratamento.

É aí então que se inicia o suplício de Alex. A princípio um excelente lugar, com melhores acomodações e doutores simpáticos, que lhe fariam simplesmente assistir “filmes” e receber injeções de “vitaminas”.  Após a primeira sessão é que ele começa a perceber o que estão lhe fazendo: após injetar nele drogas que o deixariam sonolento e influenciável, o imobilizam em uma cadeira e o fazem ver filmes repletos de violência, com cenas de tortura, assassinato, estupro e todas com música clássica ao fundo. A intenção do tratamento é chocá-lo de forma tão pesada que seu subconsciente e por consequência, seu corpo, acabem por rejeitar qualquer forma de violência, tornando-o um sujeito mais pacífico. Ao fim do tratamento, ele é exibido a um grupo de doutores, onde é humilhado e agredido por um valentão, ao qual não consegue reagir, e diante de uma mulher sexualmente atrativa, acaba por se humilhar diante dela, sem conseguir manter desejos sexuais, apenas sentimentos platônicos no melhor estilo do amor cortês medieval. Considerado então apto a voltar ao convívio social, Alex acaba sendo liberto.

Ao voltar para casa, descobre que seu quarto fora alugado por seus pais a um novo inquilino, e que não há mais lugar para ele no seio familiar. Ele vai então à biblioteca e encontra o idoso que uma vez havia agredido até quase a morte. Condicionado a não reagir agressivamente em situações de violência, Alex é agredido pelo idoso, e levado por policiais para fora da cidade, onde apanha e se surpreende ao descobrir que um dos policiais é o seu antigo colega de gangue. Ele acaba então indo parar na casa isolada do escritor cuja esposa ele havia estuprado violentamente e coletivamente, e é acolhido pelo homem, que não o reconhece, mas quer fazer dele um exemplo público de como o tratamento oferecido pelo governo acabava por retirar a humanidade daqueles a que eram submetidos, uma vez que os condicionava a sentir aversão da violência e retirava todo seu poder de escolha e de autodefesa. Um dos sócios do escritor acaba por induzir Alex a uma tentativa de suicídio, que acaba falhando. E é aí que mostra-se uma falha na sua programação e também onde há o ponto de ruptura entre o livro e a adaptação cinematográfica de Stanley Kubrik. Enquanto em seu livro, Burgess finaliza a falha na programação de Alex com suas crises existenciais e sua tentativa de se adaptar à sociedade, pensando até mesmo em constituir uma família, Kubrik prefere terminar o filme apenas com a falha programativa, mostrando Alex de volta à violência, em um tom mais dark e com um quê de Hobbesiano.

Outro ponto interessante quanto ao livro, é a divisão em 21 capítulos, uma referência à suposta idade da maturidade mental do ser humano na psicologia (embora o 21º capítulo tenha sido omitido nas primeiras edições norte-americanas para preservar o clima sombrio da obra), além do dialeto adolescente criado por Burgess. A maior parte das edições de Laranja Mecânica acompanha um glossário das principais expressões, embora seja interessante iniciar a leitura sem o auxílio do glossário, e tentar deduzir os significados. Uma mistura de gírias adolescentes da época, gírias criadas pelo autor e termos eslavos é o que caracteriza o Nadsat, dialeto dos jovem delinquente que narra o livro. Um livro recebido com choque em sua época, e ainda chocante nos dias de hoje, com relatos tão crus e explícitos de violências mútuas que fazem valer a célebre frase de Thomas Hobbes: “O homem é o lobo do próprio homem”.

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