Talvez estejamos muito acostumados à noção cristã de divindade (onipotente, onipresente, onisciente). Mas o fato é: essa noção não se aplica a todas as religiões, e muito menos à religião tradicional grega. Baseada no antropomorfismo (do qual antropos: homem e morfismo: forma), a religião grega foi talvez a que mais humanizou seus deuses dentro do panteão de religiões do ocidente. Capazes de sentir medo, dor, ódio, raiva, amor e desejo, os deuses Olimpianos eram o espelho da sociedade que os venerava: impulsivos, gananciosos e cujas relações interpessoais poderiam oscilar tranquilamente entre paz e guerra numa rapidez incrível (a exemplo da Confederação de Delos se transformando na Guerra do Peloponeso). Numa sociedade formada por Cidades-Estado com estruturas políticas diferentes, e que guerreavam entre si com a mesma rapidez com que faziam acordos de paz, não é de se estranhar que a única coisa que una suas divindades sejam seus laços consanguíneos, em referência aos laços culturais compartilhados pelas Cidades-Estado gregas.

É dentro desse contexto então, que a Mulher-Maravilha se insere. Tendo origem no grupo mais belicoso e misterioso da mitologia grega, as amazonas, Diana Prince emerge como um sopro de força e independência frente à representação feminina nas mídias. Não à toa seu título é “embaixadora de Themyscira no mundo do patriarcado”. Seus autores quiseram evidenciar a enorme disparidade entre gêneros na época, por meio de uma personagem completamente independente de homens, ao ponto de desprezá-los. Uma personagem de um mundo tão ideal que só poderia ser obra divina.

Sendo uma das mais icônicas representações femininas nos quadrinhos até hoje, a Mulher Maravilha traz não apenas uma carga de libertação feminina muito grande, como também os ideais da cultura grega da qual advém. É a reinvenção do mito das amazonas a partir da junção do ideal do guerreiro grego e da reação feminina a uma sociedade opressora, que tem como papeis ideais o de mãe, esposa e dona de casa. Vale salientar que a personagem foi criada em 1941, no auge da Segunda Guerra Mundial, e apenas 22 anos após a promulgação da ementa 19, que permitiu o voto feminino nos EUA. Sendo assim, ela nos mostra a conexão com o passado (através de suas raízes gregas), ao mesmo tempo em que nos dá uma luz para o futuro, por meio de suas mensagens de emancipação feminina.

Possuindo a força sobre-humana de uma amazona, a sabedoria de Atena, a velocidade de Hermes, a beleza e carisma de Afrodite, e o olho da caçadora de Ártemis, Diana Prince possui como principais armas um escudo, uma espada e o laço de Héstia, também conhecido como laço da verdade. Seus braceletes também são poderosos como qualquer escudo, e podem liberar poderosas explosões de energia. Todos esses atributos fazem dela um exército humano, aliado ao seu intenso treinamento guerreiro em Themyscira, nas mais variadas artes de combate.

Em algumas versões é tida como semideusa, em outras como deusa, assim como em algumas versões seu lado mais extremista em relação aos homens foi suavizado, mas a essência da guerreira que rompe correntes e luta pela justiça, eliminando seus oponentes sem piedade é inerente à personagem.

 

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