Quando M. Night Shyamalan lançou ao mundo o poderoso O Sexto Sentido (1999)  toda uma carga cinematográfica caiu em cima do diretor. Carga a qual pode ter sido saciada com Corpo Fechado (2000) e Sinais (2002), que são seus filmes mais ilustres, afinal o diretor nos concede atmosferas sombrias com três longas impertinentes e ascende com esse tema um tanto assustador. Mas  também peca com O Último Mestre do Ar (2010) e Depois da Terra (2013), catástrofes cinematográficas do pior tipo. Shyamalan é um diretor impertinente, peculiar, e que tem métodos e técnicas bastante lúcidas, remetendo a outros diretores e sintetizando todo um gênero de forma bem arquitetada, climática e bem feita, mas ás vezes peca, como qualquer um.

Fragmentado, do original Split é chamado de o retorno do diretor, e com todas as minhas palavras eu posso confirmar que sim. Primeiramente pequenos elementos fornecem para a constituição de um filme forte, com um Shymalan conectivo, interligando pontes de narrativa entre três figuras, a história inicia com Casey, uma estudante jovem que estava em uma festa de aniversário de duas colegas de turma e quando se prepara para voltar pra casa junto à elas é sequestrada por um homem desconhecido, a partir disso a sua narrativa inicial, principalmente no primeiro ato se conecta entre Kevin, o sequestrador, Casey e suas amigas presas em uma espécie de prisão subterrânea e Dra. Karen, a psicóloga de Kevin.

O plot principal de sua história pode ser lido como a maneira que essas três garotas vão encontrar para fugir daquela prisão e como reagir diante as várias personalidades de Kevin, um homem que sofre de TDI e que tem 23 personalidades distintas, mas Fragmentado pode ser muito mais profundo e meticuloso, analisando toda uma temática por trás, nos dá uma forte reflexão a cerca do que consideramos natural, real, ilusório ou sobrenatural, algo que me relembrou bastante os contos do autor de terror H.P. Lovecraft, onde a condição humana é muito inferiorizada diante a grandiosidade do ente sobrenatural, Kevin interpretado por James Mcvoy é um personagem bem caracterizado e que evoca suas personalidades de forma diversa, além de invocar características extremamente perturbadoras, como ter a capacidade de modificar até mesmo a química corpórea com o poder do pensamento.

As personas de Fragmentado são brilhantemente interpretadas por seu elenco, imaginem a dificuldade de encarnar um personagem só, e James Mcvoy encarna mais de três, embora tenha 23 personalidades, somente algumas vão surgindo, então não espere que todas as personalidades sejam desenvolvidas, mas com o que temos percebemos a dificuldade profunda que o ator se depara, mas que se torna um dos pontos altos do longa, é brilhante, perfeitamente bem colocada, assustadora, ao mesmo tempo curiosa e impertinente, enquanto uma noviça Anya Taylor Joy personifica Casey de forma exemplar, uma vítima que toma um papel inteligente, calmo, sem qualquer tipo de desespero constante, mas uma necessidade impertinente de fugir, essa noção de inteligência e sobrevivência talvez venha dos pequenos flashbacks que o longa exibe, remexendo o interior psicológico da personagem e criando uma ponte interessante para o famoso plot twist final. Betty Buclkey também tem uma performance analítica, contida e que serve para exibir Kevin de forma humana, racional, se aprofundando um pouco nas suas personalidades e arquétipos.

 

O roteiro de Shyamalan é instigante, cria personagens bastante bem representados, contidos em seus arquétipos  e estranha as personalidades de Kevin se demonstram com diálogos e falas perturbadoras e com a direção do mesmo a atmosfera é poderosíssima, com certos planos e jogadas de câmera profundas, focos nos atores, inversões, tudo propiciando para a formação daquela atmosfera turbulenta, profunda e instigante.

Shyamalan não precisa cair na síndrome do plot twist final, sua história segue de forma rítmica e todos os três atos se comportam de forma saudável, bem dirigidos e interpretados, e que ao todo constituem um longa metragem extremamente bem qualificado e produzido. A decisão final do diretor não é negativa e resolve o problema final de forma instigante e inteiramente inteligente, certas jogadas podem deixar algo a desejar, como a resolução real de certo personagem ou até mesmo certas personalidades de Kevin que não são representadas, mas não é nada que possibilita o longa a ser negativo, tem um ritmo um tanto lento, mas repleto de momentos de pura tensão, e chega a ser deleitoso acompanhar as personas de Kevin de forma científica, descobrindo quem são, como são e através da brilhante performance conceituá-las.

Os desajustados e diferentes retratados no longa é uma reflexão profunda, Kevin é desajustado, Casey também e ambos reagem ao mundo de forma diferente, são diferentes e isso os torna únicos, igualmente com outros longas do diretor que retratam disso como Corpo Fechado e O Sexto Sentido, sua história é bem colocada e é um grandioso retorno para o diretor.

Fragmentado estreia nos cinemas brasileiros dia 23 desse mês.