“Jesus Cristo (Ewan McGregor) viaja sozinho pelo deserto, em sua peregrinação rumo a Jerusalém. No caminho ele encontra um garoto (Tye Sheridan), cuja mãe está gravemente doente, que possui um relacionamento complicado com o próprio pai (Ciarán Hinds). Jesus permanece com eles por algum tempo, tentando ajudá-los ao mesmo tempo em que precisa lidar com as tentações do Diabo.”

O diretor Rodrigo Garcia tinha um desafio á cumprir, fazer um filme religioso sem repetir nada feito antes. Para cumprir esse desafio, Rodrigo faz escolhas peculiares, um elenco forte mas pequeno, apenas quatro protagonistas, diálogos pontuais e na maior parte do tempo filosóficos e reflexivos e um cenário infinito e vazio.

Para que isso se torne interessante algumas tramas são criadas em cima do verdadeiro objetivo. Jesus ao se encontrar com o garoto (que não tem nome) logo percebe que há um desafio a sua frente, o jovem garoto tem problemas de comunicação com seu pai (que também não tem nome) e enquanto o pai decide a vida do garoto em base do que acha correto (um reflexo dos dias de hoje), o jovem se mostra relutante e busca identidade durante toda a jornada. Os problemas de roteiro começam em cima disso, Tye Sheridan apesar de se mostrar esforçado, nos apresenta um personagem entediante e mesquinho e o roteiro não colabora ao coloca-lo constantemente em cima das mesmas falas e as mesmas soluções. É em cima dessa trama que Jesus busca aprender á ajudar as pessoas, em um momento de alto reflexão (um de muitos), Jesus se mostra ainda inexperiente e essa com certeza é uma chance de se autoconhecer e aprender.

Últimos Dias no Deserto : Foto Ayelet Zurer

Uma escolha interessante foi a ausência do inexplicável, não vemos milagres, a mãe doente não é curada por meios de fé e as coisas não se resolvem de forma simples. É tudo real e cru, uma jornada para os envolvidos e para o telespectador. Rodrigo Garcia que também escreveu o roteiro, fez a escolha curiosa de passagem bíblica, ao invés de diversos antecessores (e posteriores), Garcia escolheu um pequeno momento de autorreflexão, um episódio simplório na jornada de Cristo. O que o torna tão poético é sua execução em cima disso, o diretor abusa do silêncio e soma isso com cortes constantes, mantendo o mesmo plano por breves segundos, as vezes até mesmo busca com suas lentes o vazio, o cenário infinito do deserto, o sol no horizonte ou um espaço entre duas pedras, apenas qualquer ambiente para que o silêncio predomine e o espectador entre no contexto.

O elenco se mostra sem a intenção de brilhar, até mesmo McGregor que interpreta duas personalidades completamente distintas acaba por se tornar uma mera engrenagem dentro de todo o longa. Ayelet Zurer enfrenta o grande desafio de ficar deitada em uma cama enferma e balbuciar algumas palavras de vez em quando, podia ter sido qualquer outra atriz mas a escolha de peso com certeza deve ter ajudado a promover o longa. Quanto aos dois últimos atores do elenco, o pai e o filho, sua relação é bem desenvolvida, alguns acontecimentos marcantes mudam suas personalidades de tempos em tempos e no fim o seus papeis são bem feitos. Não há espaço para estrelas nesse longa e sem nenhuma dúvida, os nomes de peso só serviram de marketing mesmo, o que importa no fim das contas é o caminho que Jesus deve seguir e as lições que deve aprender.

Últimos Dias no Deserto : Foto Ayelet Zurer

Pra fechar a conta, a trilha sonora de Danny Bensi (The OA) e Saunder Jurrians (The OA), por mais pequeno o espaço e tempo que tiveram, souberam brilhar, a trilha é tranquila e completamente dentro do contexto, não busca acentuar demais ou dramatizar pouco, é forte e necessária. Infelizmente é obrigada a dividir tempo com o silêncio tão almejado por Garcia, mas consegue trabalhar bem em conjunto com essa característica do diretor.

Se você é um religioso fanático ou um ateu assíduo, talvez não entenda o objetivo do filme, pode acha-lo confuso e muitos até podem chamar de “desrespeitoso” com sua origem. Mas se você procurar se desprender de velhos conceitos e entrar de cabeça na história, você vera que é uma história fiel sim e ao mesmo tempo é um longa que busca sua própria identidade, se destoa do dramático religioso estabelecido pela Paixão de Cristo e faz a sua própria visão de um pequeno episodio (porém importante) da história bíblica.

O filme já se encontra disponível em formato DVD.