Talvez a mais singela contribuição de Spike Jonze tenha sido o tratado assinado em Ela: o amor surge intrinsecamente nos detalhes da vida dividia, fazendo morada lá dentro do ser enquanto é ser só. Não se apaixona pelo “ser só” do outro. Se apaixona por todo o universo que se cria e recria nessa convivência. A única certeza que se tem em um relacionamento é que eles são incertos; podem durar um dia, uma semana, seis meses, um ano ou mesmo uma vida. Somos como pássaros rasantes, pousando em janelas todos os dias, levando um pouco do que a vida nos fez e trazendo um outro tanto daquilo que a vida fez aos outros.

A verdade é que Ela é um sopro que vem do infinito. Transborda como um rio que segue religiosamente seu caminho com segurança e perspicácia, fluindo lentamente, em profundo silêncio enquanto percorre o ofício fadário. Em sua quietude, não clama por atenção maior que a árvore ou por uma proeza maior que a do solo. Apenas assume a voz diferente que carrega enquanto caminha, viajante, até seu destino. E é quando lá chega que abraça o mar e toda sua transformação. Encontra seu renascimento vendo docemente sua personalidade.

Desde seu gênesis, o Cinema tem em seu leque de habilidade o dom de arrancar lágrimas de qualquer par de olhos que cruze seu caminho. Talvez essa seja a Arte esgotando tudo aquilo que não conseguimos ver. E Ela, em toda sua harmonia, libera pequenas doses de infinitos “eus” comuns que se desdobram vagarosamente até culminarem, juntos, em uma única explosão melódica. À primeira vista, o filme nos leva a vida de Theodore Twombly, solitário escritor que, entediado com a vida pós-divórcio, compra uma OS que, gradativamente, molda uma personalidade junto à seu dono. Nos poréns, Theodore subitamente se apaixona pelo sistema, cultivando, com o tempo, uma relação um tanto peculiar.

Sempre que se fala de Ela, centraliza-se a ideia de que o filme, sobretudo, foi feito para falar sobre a tecnologia e suas influências, a superficialidade das relações do terceiro milênio e as frustrações nascidas na confusão da mente humana diante do mundo virtualizado. De fato, é nesse cenário que a película se desdobra. Com doses críticas cavalares quanto a frieza da intrapessoalidade física, o filme faz com que nos enxerguemos nos modelos-comuns dos personagens em seus recortes. Entretanto, muito além de uma antiquada crítica à sociedade ou um conto de seres inumanos sentimentais Ela, em seus desdobres, se revela muito mais ao começar a discursar sobre o amor; não o perpetuo literário romancista; o amor contemporâneo em seu real sentido. Das pessoas reais em seus universos fragilizados que se ligam na mesma velocidade em que se desligam dos indivíduos, do sentido do “eu” e do “estar no mundo”.

Theodore é parte da multidão frustrada daqueles que se remediam das mais diversas formas ao fim do expediente para evitar a difícil realidade que mora na reconstrução da vida após o fim de um grande relacionamento (intensificada em sua vida por conta de seu auto conflitante divórcio). Após veemente relutar a uma entrega à realidade angustiante de uma solidão que não lhe era comum há tempos, encontra em um computador a fuga da realidade e a busca por um novo sentido para viver: Samantha, e sua personalidade em formação, evoluindo a cada conflito com Theodore, ganhando sentimentos como um ser humano legitimado. Samantha é a folha em branco em nossa vida aos dois de idade, quando tudo é fantástico e cada descoberta é um novo mundo, como aquelas três cores que originam uma infinidade de tons ou mesmo as formigas se rastejando umas sobre as outras. Para Samantha, até mesmo a tristeza é uma alegria. Tudo é humano, e ela quer testar todas as partes que puder explorar de sua humanidade em harmonia com Theodore. Ele é um mundo inteiro, afinal. Ela quer sentir cada ponto, cada fragilidade desse novo universo mágico.

Movido pelo ânimo e encantamento do OS com as coisas mais simples da vida, seu operador se entrega por completo à práticas pequenas, mas que o transformam cada vez mais. Andar pela praia, correr de olhos fechados, se libertar de algemas emocionais, gritar em meio a uma multidão. Theodore foge do vicioso cotidiano habitual cultivando emoções múltiplas, se aventurando ao lado de Samantha e contemplando os brotos mais simples em seu cotidiano até que, na sutileza do convívio rotineiro, ele percebe: estava apaixonado. Porém, é problemático pensar que é possível cultivar passionalidade por uma virtualidade sem personalidade criativa.

Psicólogos entendem a febre platônica como uma dor tão grande quanto a de um amor vivido de forma concreta pelo simples fato de nossa mente não diferenciar na produção de sentimentos o real e o abstrato. Contudo, Theodore não se apaixona por Samantha. Theodore se apaixona pela vida e por todas as pequenas partículas que a envolve e a paixão envolvida em cada uma delas. Por esse prisma, talvez ninguém se apaixone de fato por alguém, mas pelas ideias e pelas sensações que, de alguma forma, se ligam a figura especial da pessoa. No caso de Theo, seu sorriso passa a abraçar o mundo inteiro e a contagiar a todos que estejam por perto. Tudo dentro dele era festa, iluminando sua noite e seu amanhecer.

Em diversos momentos, somos levados ao passado de Theodore com Catherine, sua ex-mulher, e todas as sensações de sua vida à dois nos são mostradas na suavidade de um olhar carinhoso de um enquanto o outro dorme, a suavidade do cílio caído no rosto sendo retirado com mãos afáveis, e a simplicidade das risadas. São os recortes do cotidianos de um casal comumente apaixonado. Através de seu relacionamento incomum com Samantha é que Theodore tenta reconstruir e resgatar o amor, a vida dividida e o emocional característico a qualquer relacionamento. Nos poréns, é quando se encontra com sua ex-esposa para assinarem os papéis do divórcio, o símbolo da separação atiça ainda mais memoriais interiores.

O passado, “a roupa que não nos serve mais”, é tudo que temos. É nossa personalidade; o que somos e o que seremos; o que queremos e o que esperamos. É com um olhar para atrás que percebemos o porquê de sermos quem somos e de fazermos o que fazemos. “O passado é só uma história que contamos a nós mesmos”, dizia Samantha. Marcel Proust tentou agarrá-lo, mas o que sobra dele são as lembranças viciadas pelos desgastes da experiência ao se transformar naquilo que acreditamos ou no que queríamos acreditar.

Theodore fala brevemente de seu casamento em uma das passagens mais sinceras do filme. “Nós crescemos juntos. Era emocionante vê-la crescer, nós crescemos e mudamos juntos. Mas essa é a parte difícil, crescer com ela se afastando“. Talvez seja aqui onde encontremos o cerne de toda a semântica problemática do amor e de suas implicações cotidianas. Afinal, onde foi parar “aquele” amor? Navegando entre Charles Bukowski e Paulo Mendes Campos, surge: “o amor acaba”. Qual o destino do amor que prometia juntar duas pessoas em uma só?

Definitivamente, é aqui que Spike Jonze assina com letra singela seu maior tratado: o amor surge na vida dividida e, com o perdão da auto-citação, faz morada lá dentro do ser enquanto é ser só. Tudo acontece lá dentro. Cada palavra ouvida é a realidade do que cada um pensa e espera de si. Quanto maior a dualidade da solidão, o partilhar dela, maior a compreensão, o amor mútuo e o respeito à esfera individual do outro. É onde terminam as tentativas (sempre frustradas para qualquer um dos lados) de extrair qualquer parte do outro senão aquelas que ele queira dar. O amor, porém, é desesperadamente humano. É o núcleo da novela da vida real. E, por isso, é imperfeito, mas perfeito em suas imperfeições (como diria Bergman).

A vida dividida, apesar do emocional estável e da paz interior em constante busca, transmuta características de um para o outro e encontra emoções conflitantes que lançam um desafio a suas partes mais íntimas. O “humanamente visceral” nos faz projetar partes nossas naquele com quem andamos de mãos dadas. Samantha, sendo um OS, passa a absorver características de Theodore. Sente ciúmes, sente medo, sente insegurança (mesmo que, na verdade, sejam representações de cada uma das sensações), até que, por fim, se transforma. É o ciclo de toda relação, afinal. A mudança, porém, pode não pender pro mesmo lado que o daquele que nos acompanha. “É difícil mudar sem assustar o outro”, diria Theodore. É um desafio constante aceitar que as pessoas são pequenas luzes que compartilham momentos e momentos conosco e que assumem suas trajetórias para si mesmas. E que um abraço pode mudar uma trajetória inteira.

A singela produção, a impecabilidade sutil das atuações aveludadas, e todo o jogo de luzes e cores em tons pastéis suaves moldam a identidade nostálgica e terna do filme. Bem como o tema, a pedra onde constrói sua homenagem: o amor. O amor que, dentro de tudo aquilo que há em nós, se torna um quase literal mar de rosas, um lugar de descanso e afago. Ela é um filme para se sentir com o corpo todo. A impermanência, força matriz (e motriz) das discussões cotidianas no churrasco de domingo e nos consultórios psiquiátricos às quartas, é inerente ao homem. Nada “É”, tudo apenas “está”.

Um relacionamento pode durar um dia ou uma vida, mas absolutamente tudo está em movimento, e a cada momento as experiências transformam tudo aquilo que queremos, acreditamos e sentimos. Volta a analogia dos pássaros que voam de janela em janela, levando um pouco do que a vida os fez e do que fez aos outros. Vivemos uma ciranda. Somos frágeis, cheios de medos. Abrimos nossos micro “eus” para outros na esperança de que nos aceitem. Mas, acima de tudo, somos um. O que somos é resultado dos pequenos universos com os quais colidimos todos os dias, e o amor é apenas o desenho real de nossa eterna confusão e da vontade implacável de arrancar toda a beleza da vida que vaga por nosso intimo. Afinal, isso é tudo que há lá dentro.

  • Lorena Schveper

    Mota, cada vez mais fico surpresa com tudo o que você escreve. Sou suspeita porque 1) é um dos meus filmes preferidos e achei linda a forma como você analisou; 2) eu gosto da forma como você retratou Her foi magnífico, porque fez mais do que o jus que o filme merece. <3 Sem puxação de saco, mas você REALMENTE mostra que tem um talento incrível: o de conseguir conduzir uma crítica e uma opinião de um jeito maravilhosamente sutil. Mais que isso – você consegue enxergar coisas que poucos conseguem. QUERO MAIS MARMOTANDO, SE VIRA.