No último dia 15 de dezembro foi lançado o oitavo filme da franquia Star Wars, intitulado Os Últimos Jedi. Em pouco tempo as bilheterias do filme quebraram recorde atrás de recorde, porém, os fãs da franquia também quebraram. O filme dividiu a opinião do público. Algumas pessoas simplesmente o adoraram, colocando-o em seu top 3 pessoal da franquia, ao mesmo tempo em que outras simplesmente odiaram o filme ao ponto de realizarem diversos boicotes, seja pela nota no Rotten Tomatoes, seja pelo pedido de retirada do canon da franquia.

No meio de toda essa cisão, discutiremos o papel da Princesa Leia na franquia, tendo em vista que uma das cenas mais odiadas pelos fãs e pela crítica, foi a cena da General usando a Força de uma forma nunca vista antes nos filmes (particularmente acho incrível). A cena gerou comentários horríveis vindos da crítica brasileira, ao menos os populares. Comentários como “ela devia ter morrido ali…”, ou “foi bastante desnecessário…”, ou “General de título mágico…”. Enfim, acredito que aqui já tenhamos o suficiente para entender a crueldade imbuída na mentalidade do papel criado para a Leia.

Antes de entrarmos no cerne da questão, precisamos lembrar aos fãs que Carrie Fisher faleceu pouco depois do término das gravações de Os Últimos Jedi, em dezembro de 2016. Obviamente, a comunidade prestou homenagens à atriz, mas no fundo crescia a ansiedade de saber como a narrativa dessa nova trilogia continuaria agora, ainda mais levando-se em conta que ela possuía contrato para os três longas. A resposta para essa pergunta veio em forma de um filme sem cortes, tanto nas cenas que a Leia precisava aparecer quanto na importância emocional e contextual para narrativa do filme, onde os produtores optaram por respeitar a memória e o trabalho final da Carrie Fisher.

Sim. Eu poderia. Eu tive essa discussão com Kathy [Kennedy] quando nós voltamos do ano novo após o falecimento dela [Carrie Fisher] e olhamos as cenas. Nós decidimos e eu sinto muito fortemente, muito mesmo, Isso ia se tornar trágico em termos de como você lida com isso no próximo capítulo, e nós temos a última performance dela. Eu não conseguia ver nenhum jeito de manejar algo como o que você está falando sobre sem perder a cena dela e Luke, ou a cena entre ela e Rey no final, ou a cena dela com Holdo. Então estaríamos manufaturando algo que seria manipulado e não grande. E eu simplesmente senti como se aquelas cenas fossem potentes ‘adeus’ a ela. Senti como se todos merecessem ter aquilo na tela. E é um lindo final, o fato de que ela o possui as últimas palavras do filme e a última palavra é uma de esperança. ‘Nós temos tudo o que precisamos’. (Resposta de Rian Johnson à Slash Film)

De certa forma o filme fala por si, as escolhas feitas pelo diretor e pela Lucasfilm estão explícitas em cada cena que a Carrie Fisher aparece. Eles dizem ao grande público em cada cena que contemplem o melhor trabalho da atriz na franquia. Infelizmente foi necessário que Rian Jonhson viesse a público responder algo lógico, e íntegro da sua conduta como pessoa e diretor: respeitar a memória de Carrie Fisher, antes de pensar na trama. Os roteiristas do próximo filme, que tenham o trabalho de lidar com essa ruptura da vida, não seria ele que cortaria a importância da atriz para a trama, contribuindo para a cristalização de um papel de princesa frágil, que a atriz tanto lutou contra.

Acredito que devamos entrar no cerne da questão: O papel de princesa. A princesa na ideia cristalizada pelo senso comum no ocidente, cumpre um papel hierárquico dentro da estrutura de um regime monárquico, mas também cumpre um papel social, assim como um papel na literatura.

Nesse sentido, ser princesa significa depender de um homem para poder usufruir da hierarquia, pois mulheres historicamente não poderiam receber o seu dote se não fossem casadas (salvo alguns casos como o da rainha Elizabeth Tudor, a famosa Elizabeth I  e Isabel de Castela). Na literatura medieval e moderna, essa figura receberá uma série de outros significados, passando a ser vista como a figura doce e meiga que precisa ser protegida pelo nobre cavaleiro, o herói, e apenas nos braços desse nobre conhecerá a felicidade, pois ela só se concretiza no casamento, pautando a jornada do herói numa jornada onde o prêmio é a princesa.

E por que de todo esse papo sobre princesa, literatura e história? Na verdade esses conceitos são aplicados no cinema em larga escala, tendo a Disney como a maior reprodutora dessa ideia e desse papel feminino, basta lembrar-se de qualquer princesa clássica. Em Star Wars isso não foi muito diferente, apesar da personagem romper com uma série de padrões de comportamento a respeito da figura da princesa, ela ainda se encontrava como alguém destinado ao herói e que precisa ser salva por ele, independente do quão rude e desatencioso o mesmo seja com ela (o famoso “mulher gosta de homem que não presta”).

O problema dessa imagem é que ao fim do episódio IV, a jornada destinada do herói já estava completa, a princesa havia sido salva e estava condecorando o herói pelos seus feitos (nesse ponto da jornada me refiro apenas sobre o herói estar destinado à princesa). O que acontece é que ao longo do episódio V e do VI, a Leia torna-se cada vez mais dependente dos heróis, seja do Luke, seja do Han Solo e pouco a pouco a importância que ela deveria ter em termos de desenvolvimento foi restringida à ideia da princesa. Claro, vale lembrar que também virou escrava e esse foi o fundo do poço em termos de desenvolvimento e estética.

Dentro dessa construção do papel de Leia na trama, alguns outros conceitos vão ser ainda mais prejudiciais à personagem. O romance com o Han Solo acaba sendo um deles, por reforçar ainda mais a ideia de que mulher certinha precisa de um cafajeste, o que é um discurso muito próximo do corriqueiro “mulher só dá valor para quem não presta”. O que aparentava ser uma ruptura da figura da princesa acabou por se tornar um reforço da misoginia. Esse romance vai incentivar uma série de escritores do antigo canon (o atual Legends) a concretizarem no imaginário dos fãs o papel da princesa Leia.

Na trilogia Thrawn escrita por Timothy Zahn, por exemplo, a Leia torna-se mãe, e a guerrilheira de campo desaparece por causa do cuidado constante com a gravidez. Assim como também torna-se reduzido o impacto de suas ações na nova república, recaindo sobre Mon Mothma o papel centralizador dessa nova república (aqui me refiro ao exercício de poder e influência nas tomadas políticas, Leia é uma heroína militar, ela estava em campo quando a segunda estrela da morte explodiu). O fato é que esse imaginário da princesa dá o passo adiante nessa trilogia, leva a Leia para ser a dona de casa forte. Não que isso seja uma figura ruim, e sim que a Leia poderia ter outros vieses muito mais condizentes com o que a personagem tentava ser desde sua primeira aparição.

Se pensarmos no spin-off recente, Rogue One: Uma História Star Wars, podemos perceber quantos conceitos ajudam a romper mesmo com essa ideia da princesa Leia. Lembremos da cena do Darth Vader massacrando os soldados rebeldes. Essa cena é crucial para entender a personificação do medo que o Vader espalhava pela galáxia. É visível o desespero no olhar dos soldados, tendo plena certeza de nada iria salvá-los naquele momento. Nos outros filmes da trilogia clássica é possível perceber também esse medo na relação dos soldados imperiais com o Vader, mas para as novas gerações que começarem a ver Star Wars a partir do Rogue One, eles terão outra ideia a respeito da princesa Leia, basta ver que no início do episódio IV ela enfrenta o Lorde Vader sem o menor medo, enquanto os soldados do filme anterior quase não tiveram reação. Só esse pequeno diálogo entre cenas aponta para o que a Lucasfilm e a Disney planejavam para o futuro da franquia, e para a reconstrução da figura da Leia. Não mais como princesa e sim como general.

Claro que reconstruir essa figura seria uma tarefa difícil, ainda mais quando se tinha 40 anos de canon construído, e não só isso, 40 anos de imaginário cristalizado na cabeça dos fãs. A General trazida no episódio VII e VIII demonstra algo muito mais lógico dentro do que foi a experiência da personagem, ela foi criada por Bail Organa, um dos senadores mais influentes durantes as guerras clônicas, além de ser filha do sith que ajudou a exterminar a Ordem Jedi, assistiu seu planeta natal explodir, participou das missões de campo como militar, além do diálogo do Luke afirmando que a força era forte em sua família, ao dizer que a Leia também conseguia lidar com a força por ser uma Skywalker. Não há cabimento em pensar a personagem fora do que ela é. Pior, não há sentido em deturpar seu desenvolvimento para algo que não condiz com ela. Manter um olhar crítico a respeito de como ela usa a força no episódio VIII, ao dizer que não tem sentido ou qualquer coisa do tipo é reforçar essa deturpação do que deveria ter sido a personagem, atrelando ela ao estereótipo de princesa restrita aos assuntos políticos e à dependência dos heróis.

Sem falar que há uma cristalização a respeito do uso da força na mente dos fãs, parece que usar a Força é algo restrito a quem faz o vestibular da Ordem Jedi ou dos Sith. Basta lembrar aos colegas que as ordens são caminhos de quem já estudou sobre como manipular a Força, e que isso em nenhum momento quer dizer que são os únicos caminhos para se aprender a lidar com a mesma. Lembremos apenas do Chirrut, que usa o mantra como catalisador da Força, e do menino ao final do episódio VIII, que naturalmente consegue usá-la nas pequenas ações do cotidiano. Outro exemplo excelente dessa dualidade é o apresentado em Clone Wars, a partir da percepção da Ahsoka Tano e da Asajj Ventress, personagens que buscaram outros caminhos para o uso da Força. Por mais que existam caminhos bem definidos para conhecer a Força eles não são os únicos, além da variação da afinidade de acordo com cada usuário.

O que me parece é que o hate na cena da Leia usando a Força de uma forma “única” aguça os fãs e alguns críticos pelo fato da construção dessa imagem e desse papel desempenhado pela Leia ao longo desses 40 anos, o que também demonstra a sutileza do machismo na forma como certas coisas são criticadas. Luke se transportar através da galáxia, por meio da Força, criar uma ilusão sua e lutar contra o Kylo Ren é ok, mesmo o Luke tendo feito um supletivo do treinamento Jedi, mas a Leia usar duas técnicas simples como o estado de preservação usado pelo Luke na trilogia Thrawn e um simples force pull, torna-se a coisa mais impossível do universo de Star Wars, mas por que é impossível? O que impediria a filha de Darth Vader e uma herdeira Skywalker de usar algo assim? É mais aceitável o Luke controlar um poder totalmente novo e overpower em pouquíssimos anos enquanto nem mesmo o Yoda no auge de seus 900 anos de conhecimento da força conseguiu, enquanto a Leia não pode usar dois poderes simples?

É natural que personagens de qualquer narrativa desempenhem papeis além de sua construção, esse é um dos fatores que tornam personagens mais humanos, basta lembrar que nós não somos a mesma pessoa para todo mundo. Alguém sempre irá nos enxergar de uma forma diferente. Sinceramente, que bom que a Disney, Rian Johnson e a Kathleen Kennedy resolveram olhar para a Leia de maneira diferente e trazer à tona uma nova figura, com um novo papel a desempenhar, e principalmente com o devido respeito que a personagem merece, assim como a atriz que lhe deu vida. E que os fãs não se deixem levar pelo ódio e pelas aparências e percebam que existe bem mais do que o aparente nos chamados “críticos” de cinema.

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