Escrever sobre o polêmico longa de Fabrício Bittar e estrelado por Danilo Gentilli e Carlos Villagrán se tornou um desafio. Ser demitido ou sofrer retaliação virtual está incluso no pacote de “prêmios” por criticar o longa.

É de conhecimento geral que Gentilli se tornou, abertamente, um defensor do politicamente incorreto e caminha em direção contrária aos, chamados, “Social Justice Warriors”.

Utilizando seu humor ácido, apelativo e camuflado de liberdade de expressão, o artista e seus seguidores adquiriram o hábito de zombar e atacar qualquer um que pense de maneira contrária e critique seu comportamento – não obstante, e não sejamos hipócritas do que os opositores também praticam com o uso de uma retórica repetitiva e bordões decorados.

Mas a crítica aqui ultrapassa as barreiras do que é ou não politicamente correto ou qualquer ideologia política, e passamos a lidar com a responsabilidade artística.

Como se Tornar o Pior Aluno da Escola conta a história de Bernardo e Pedro, dois alunos exemplares que encontram um “manual” com ensinamentos sobre como aterrorizar o colégio e serem aprovados, sem consequências. À primeira vista, parece se tratar de uma comédia simples e besteirol, dignas de um filme do Adam Sandler ou Eddie Murphy – guardadas as devidas proporções – mas isso é um mero engano.

O longa faz uso de um enredo pouco útil, imoral e que não é corrigida ao longo da narrativa, como de costume em diversas obras do gênero – incluo aí filmes mais apelativos, como Projeto X, American Pie e Superbad.

Um dos desserviços sociais do filme, se encontra na ideia de que não é preciso estudar e que independente de tudo, a vida adulta será sempre alegre e cheia de “zoeiras”. Um discurso que, na prática, é extremamente problemático e envolve uma série de questões que estão além do nosso alcance e que podem ser frustradas, sim, por uma má formação acadêmica e pelas circunstâncias que a vida nos impõe. Se frustar, sentir ódio, tristeza e melancolia é comum em uma vida adulta tanto quanto no período jovial.

Além de questões materiais, profissionais e financeiras que uma formação acadêmica mal executada podem causar, temos também, como consequência, uma vida política e social deficientes, e então entramos em um âmbito politicamente incoerente com os discursos da classe social representada, onde há uma Direita – ou Liberais –  que esbraveja pela falta de senso político dos opositores como consequência de um analfabetismo político.

Carregado de “humor” sexual e violento, Como se Tornar o Pior Aluno da Escola ainda consegue tratar o bullying como algo extremamente banal, ao lado da Paris Filmes e seu departamento de Marketing, que realizaram uma campanha para o filme no Twitter: “Bullying existe para ser praticado”.

 

Ora, sofrer com bullying é uma das maiores causas de depressão e ansiedade nos jovens do mundo. Pra se ter uma idéia, 1/3 dos jovens que são vítimas de Bullying, desenvolvem depressão no início da vida adulta. De 2005 a 2015, esse número cresceu 18,4%.

A prevalência do transtorno na população mundial é de 4,4%. No Brasil, o total é de 5,8% de pessoas depressivas. A depressão pode levar ao suicídio, sendo a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. A cada ano, aproximadamente 1 milhão de pessoas tira a própria vida, o que representa uma morte a cada 40 segundos. O Brasil tem cerca de 10 mil registros anuais.Como se tornar um adulto feliz em uma realidade assim? 

Um em cada dez estudantes no Brasil é vítima frequente de bullying, de acordo com o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). Dados do relatório mostram que 17,5% dos alunos brasileiros, na faixa dos 15 anos, sofreram algum tipo de bullying “pelo menos algumas vezes no mês”.

Questões como essas são propostas ao público – que em sua maioria é composta por crianças e adolescentes em idade de risco – e não há qualquer menção de consequências para as pessoas que praticam ou sofrem esse tipo de violência ou que não levam a rotina acadêmica com seriedade.

Um filme ou qualquer tipo de arte não tem a obrigação, propriamente dita, de educar o espectador, mas é completamente irresponsável e prejudicial para a sociedade que atitudes como essa sejam perpetuadas. Atitudes essas que levam ao declínio moral e à ignorância social.

Se, para adultos, filmes e programas de TV são apenas entretenimento, para crianças e adolescentes, em processo de desenvolvimento intelectual e social, esses conteúdos podem assumir outro sentido e se tornar um problema, principalmente quando lhes faltam limites e orientação da família. Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos aponta possíveis relações entre a incidência da agressividade no início da fase adulta e a demasiada exposição a programas violentos durante a infância (matéria publicada pela Tribuna de Minas, em 2015).

Não é justo colocar a responsabilidade pelo futuro dos jovens em obras de arte, independente de sua mídia, mas exatamente por serem arte, tem um papel crítico e influenciador em qualquer camada social e faixa etária.

Para a tristeza do cinema brasileiro, ainda temos o desperdício de nomes como Carlos Villagrán (em uma oportunidade, talvez única, de vermos o artista no cenário nacional), Fábio Porchat e, principalmente, Moacyr Franco.

Você pode conferir a crítica completa do filme aqui.

 

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