Há cento e cinquenta mil anos a humanidade surgia. Uns primatas imaturos lascando pedra em galho ou correndo por pastagens na África. E desde os primatas tudo nasceu, tudo surgiu e aqui eu estou escrevendo um texto, em um quarto pequeno, em um notebook quebrado e apoiado em uma cadeira que se pressionar suas costas demais ela despenca e machuca sua lombar. Tudo bem, pensar que toda a história da humanidade se voltou para eu escrever esse texto ou ter minha lombar machucada é enaltecer meu ego, mas foi por isso sim, eu estou deixando uma marca.

Não uma marca grande, aliás eu ainda estou nos quinze anos da minha vida (que pode acabar no exato instante) mas é uma marca, pode ser um pontinho no oceano, mas é algo. Na história deve ser. É óbvio que quando raças extraterrestres invadirem a Terra e nos aniquilarem, elas vão se indagar “Quem foi a raça humana?” e se pesquisarem a fundo podem encontrar sobre George Washington, Gandhi, Beethoven, Newton, Marlon Brando e Meryl Streep. Não vão se perguntar sobre o Carlos, mas de certa forma eu ainda vou ter minha marquinha deixada na internet, a não ser que isso seja apagado, eu ainda vou ter o artigo sobre Birdman no maravilhoso mundo da internet.

Como uma inesperada jornada na ignorância embargadora, Birdman do Iñárritu é uma jornada  nas nossas marcas, na ânsia, no medo, no desejo e nos sentimentos mais profundos de o que precisamos fazer, acima de tudo, o que artistas precisam fazer. Na história da humanidade, quando desenvolveu-se a arte, o maldito primata que riscou a parede criou algo mal, cru, destruidor e deleitoso, aquele maldito primata não pensou que hoje teríamos Birdman, mas pensou que aquilo era importante, como Riggan Thomson pensa. Ele precisa de sua marca, ele precisa renovar.

Riggan Thomson  é o primata da história, mas acima de tudo, ele é o primata que já foi ultrapassado. Riggan era um herói, um macaco que conseguia caçar de maneira mais bruta, conseguia ter mais carne, por um longo tempo ele teve isso. Mas os outros primatas tinham um ideal diferente dele, era um primata caçador, sim, mas quando isso iria acabar? O primata Riggan então deixa a caça, e embarca na busca, nos encontros da floresta, em como ele vai desbravar o mundo.

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Riggan vive em uma megalomania imersa em um sentimento de um diretor. Ele controla, e pode tudo.

O Riggan humano, da Brodway e ex-super herói vive no dilema do reencontro, quem produz arte necessita produzir algo bom, coisa que ele não fez. Ele vestiu uma roupa, teve asas e como no terceiro ato do longa exibe, Thomson fez coisa ruim, e como! Como uma ópera aos ilustres Michael Bay e Zack Snyder, o alter ego sombrio e retumbante de Riggan fala de todas as formas capazes, que mesmo fazendo coisa ruim ele tinha fama e tinha vida. Esse era o preço em uma nova Hollywood.

É evidente a crítica tanto ás nossas marcas e essa necessidade de sermos preenchidos por títulos ou ser alguém como a uma nova Hollywood, que embarcou nos arrasa quarteirões e embarcou forte. Quando esses dois temas se encontram, Iñárritu e toda a qualidade técnica do longa nos brindam em um desfecho memorável, é um preço a se pagar, Riggan quer deixar uma marca artística real, ele era infeliz quando tinha fama, porém produzia coisa ruim e agora tinha que cair, o abismo estava á sua frente.

E Birdman reforça quando nos deparamos com nossas marcas e títulos, até mesmo o garotinho hippie, que embarca em carros coloridos com sua esposa alegando que o dinheiro ou a fama não traz sucesso, quer aparecer e ter um título. “Olha, aquele rapaz não gosta de ser padrão” “Olha, aquele casal é diferente”. Quem crítica, faz por querer aparecer, faz pelo título.

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E vive com seu alter ego o inflando e o criticando, é Birdman, tampouco Riggan. É arte.

E é essa a necessidade de nos provarmos a alguma coisa, o empenho, a coragem, eu posso estar escrevendo esse texto pra provar a minha pessoa que eu posso escrever bem (coisa que discordo), que eu entendi algo do longa ou quem sabe mostrar a meus amigos e ao mundo como eu sou alguém. Você aí também, está lendo pra absorver algo, ou deve estar pensando que só é mais um texto simplista (como eu acho), o fundamental de tudo é que precisamos de marca, precisamos de títulos, precisamos de nos renovar. E Birdman faz isso. Talvez eu machucar minha lombar seja minha próxima marca.

Consegui.

E o que você queria?

Me chamar de querido. Me sentir querido na Terra.

Raymond Carver, Fragmento Tardio.

 

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