O advento dos filmes nos abriu uma porta para um mundo diferente e, com a chegada dos aparelhos televisores nas casas, o mercado audiovisual começou a crescer a uma velocidade exponencial. Hoje em dia, quase todos têm acesso a estes meios de comunicação que se tornaram o meio de vida de muitas pessoas.

Nessa tentativa de ganhar nossa atenção, o que acontece nos bastidores? Diferentes pessoas têm diferentes teorias, mas, um filme em especial se destaca ao tratar desse assunto: O Show de Truman.

O filme é uma comédia dramática que se passa em um futuro não tão distante onde, em uma busca para retratar a vida com fidelidade, um show de TV pretende acompanhar toda a vida de um ser humano, desde o nascimento até seus últimos dias. Um verdadeiro reality show.

A ideia, então, cativa os telespectadores ao redor do mundo e o show de Truman se torna um sucesso. O filme se passa durante o trigésimo ano do programa e levanta o questionamento sobre o quão real é o que vemos através de nossas telas.

Um dos grandes pontos fortes do filme é a equipe envolvida, contando com uma direção de cena primorosa realizada por Peter Weir que aliada ao roteiro bem trabalhado cria uma produção fascinante. Além disso, o elenco conta com o carismático Jim Carrey, rosto conhecido que se sobressai tanto na comédia quanto no drama, representando o protagonista.

O filme se divide em 3 partes principais; A primeira acontece durante início do filme, que mostra a opinião do público sobre o programa e seus personagens, apresentando a visão externa que o mundo tem.

A segunda parte do filme mostra a vida pela visão de Truman, que não faz ideia de que está sendo transmitida. A verdade é que, esse show da vida não tem nada de real. Tudo se passa em uma cidade cinematográfica isolada do mundo exterior, completamente povoada por atores e membros da equipe de filmagem. Tudo isso localizado no interior de uma cúpula na qual o diretor do show observa e controla a vida de seu personagem.

A terceira e maior parte é talvez o corpo que sustenta o filme. A busca de Truman por uma mudança de vida o leva a desconfiar do que acontece a sua volta. Assim sua paranoia cresce e o show chega ao seu ápice. Assim como eu, qualquer pessoa que assista o filme ficará na ponta das suas cadeiras junto com os telespectadores do programa enquanto seu querido personagem põe seu plano de fuga em ação.

A comédia dar lugar ao drama quando Truman percebe que sua vida foi inteiramente forjada; desde a morte de seu pai, sua esposa e até seu melhor amigo de infância, que em uma cena emocionante chora ao dizer que nunca mentiria para ele.

Quando Truman levanta velas de sua jangada e enfrenta seu medo do mar, o diretor do programa, em sua posição elevada, cria cada vez mais empecilhos para o personagem de Carrey, que consegue chegar, por fim, á saída do set de filmagens.

Em uma aparição quase divina, o diretor fala em voz paternal para Truman que sua vida é real até que ele decida renegá-la e que o mundo da TV é perfeito, diferente do mundo real, no qual não temos controle sobre as dificuldades que nos acometem.

Truman decide pela verdade e em uma emocionante cena final repete seu bordão enquanto os espectadores vibram em alegria por vê-lo finalmente livre.

O filme não só é divertido de assistir, como também cria uma série de questões a se pensar. Como por exemplo, o relacionamento do diretor com Truman é realmente paternal? Ele realmente tenta protegê-lo ou apenas tenta proteger seu programa? O quão real é a realidade mostrada na TV? Será que os grandes produtores de conteúdo mostram apenas a realidade que querem que vejamos? O quão real é a própria realidade em que vivemos?

A psicologia social acredita ter a resposta. No conceito de gerenciamento de impressões, defendido por Erving Goffman, a vida é uma grande representação dramática. Nela, quando passamos a conviver em sociedade entramos em um grande palco, que de acordo com a situação nos leva a assumir um personagem.

Figurino, roteiro, falas ensaiadas. Tudo está presente na vida real. Quantas vezes não nos pegamos ensaiando o que falar na frente do espelho? Decidindo qual roupa é mais adequada para determinada ocasião? Quando saímos da nossa zona de conforto saímos dos bastidores e nos deparamos com uma platéia selvagem pronta para nos julgar.

Então, o quão real é a vida de Truman? Se ele não tivesse descoberto a verdade, poderia ele ter uma existência plena? Talvez, afinal, como sentimos falta de algo que não sabemos que existe? No filme, entretanto, no personagem do diretor que brinca de Deus temos a resposta.

Ao remover os fatores externos, o acaso e ao ignorar a aleatoriedade natural das coisas e principalmente ignorar o livre arbítrio de seu personagem, cria-se uma vida plástica e dessa forma, uma hora ou outra, Truman precisa libertar-se. Afinal, a graça da vida está no desconhecido.

Nenhuma mídia tem a capacidade de ocultar a verdade pra sempre. A verdade está fora das óticas de terceiros e devemos buscá-la por nós mesmos. Além disso, a vida é mais ampla do que as paredes que nós mesmos construímos para nos restringir. 

O show de Truman é um ótimo filme que eu recomendaria para qualquer um que queira ter uma tarde divertida e quem sabe uma noite de discussões. Seu sucesso é merecido e reconhecimento amplo, afinal não é todo dia que temos uma síndrome nomeada em homenagem a um trabalho cinematográfico. 

E respondendo sua pergunta: Sim, tem na Netflix.

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