Nós precisamos falar sobre a realidade, porque ela está sufocando tudo sobre os nossos filmes de super-heróis. Nós tivemos dois grandes fracassos em critica da DC Comics em sequencia e depois disso uma discussão se abriu: por que a Marvel consegue fazer um trabalho melhor que a DC em relação a levar seus personagens para as telonas?

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Tenho lido e relido por ai que os filmes da Marvel conseguem ser mais bem sucedidos porque são descontraídos e divertidos, enquanto os da DC são sérios e melódicos. Vamos acabar com todo esse argumento e entrar fundo nesse assunto, pois acredito que isso não conta todo o motivo.

Então me dê um minuto para voltar para o começo disso tudo.

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Os super-heróis ganharam vida à  muito tempo atrás, mais precisamente na década de 50 quando o Superman chegou a TV com George Reeves e uma década depois, em 60, Adam West ficou famoso por toda a sua vida como o Batman. Em 70, a moda pegou com adaptações da Mulher-Maravilha, Hulk e Homem-Aranha e o primeiro filme blockbuster de super-heróis, o Superman de Christopher Reeve. Em 80 porém, a franquia que havia rendido dois bons filmes, decaiu de qualidade e se encerrou.

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Em seguida, tivemos o Batman de Tim Burton em 1989, ironicamente o filme foi lançado em meio a um mar de pessoas reclamando que era uma versão muito sombria e violenta que se perguntavam onde estava o repelente de tubarão e a leveza da série de TV. E mais irônico ainda é que a sequencia Batman: O Retorno não mudou de tom e ainda foi mais sombrio e gótico que o primeiro filme. Mas alguns anos depois tudo mudou e os bat-mamilos apareceram, assim como o Bat-Cartão de Crédito. Depois de Batman & Robin, os filmes de super-heróis pareciam mortos e afogados, sem nenhum sinal de vida.

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Até menos de um ano depois, uma adaptação de um personagem dos quadrinhos da Marvel relativamente desconhecido é lançado, Blade. Sombrio, simples, sexy e completamente inesperado, Blade nos deixou muito empolgados com adaptações de quadrinhos novamente. 

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Essa relação de fracasso/sucesso entre Batman & Robin e Blade é muito importante porque dá um gostinho do que viria no futuro. Enquanto o filme da DC era bobo e cartunesco, o filme da Marvel fez sucesso porque era sério, sombrio e violento. Isto é mais que comprovado pelo sucesso de Matrix no ano seguinte, um filme que se parece com uma história de origem de super-herói, tanto quanto um sci-fi distópico, e tinha uma estética distintamente escura e realista. Ou seja, não é o tom do filme que define o seu sucesso e sim a forma que você trabalha o longa para ele ser aceito.

O problema com a tradução de personagens de 70 anos de idade nos quadrinhos para a tela do cinema não é com o grande numero de histórias para se adaptar, como a maioria pode acreditar, pois a essência desses super-heróis são geralmente muito fáceis de definir.

O problema da coisa é escolher o estilo.

Olha, os quadrinhos passaram por tantas mudanças de estilo ao longo dos anos que é difícil se manter em um. Você tem o otimismo de olhos brilhantes da Idade de Ouro. A loucura da Idade de Prata. A Alegoria e a emoção da Idade do Bronze. O cinismo e a desolação da Idade Moderna. E nós só pegamos as coisas até o ano de 1986, ainda há décadas de histórias dos quadrinhos para contar. Então você tem que pensar em todos os diferentes artistas e abordagens que esses personagens vem ganhando ao longo dos anos. Todos nós, enquanto fãs de quadrinhos,  temos os nossos favoritos. Às vezes é parte da diversão dos apaixonados por quadrinhos, discutir sobre quem é capaz de assumir um personagem e capturar sua essência de forma mais eficaz.

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Na página, estamos acostumados a ver as mudanças no estilo e no tom e isso não faz acabar com a nossa diversão. Então por que diabos tantos filmes serem forçados a serem do mesmo estilo? Por que não podemos ajustar o estilo à história, e não o contrário?

Eu entendo, queremos provar ao mundo que os super-heróis não são apenas para crianças. Eu não consigo imaginar alguém que está lendo isso que nunca foi perguntado quando que ele irá finalmente crescer e ler literatura “adequada” em algum momento. Portanto, a solução foi reinventar os nossos heróis favoritos de infância em versões mais sombrias, mais ásperas, mais mesquinhas, mais “adultas” de si mesmos… e basicamente espremer toda a diversão no processo.

E sabe de uma coisa? Alguns personagens se adequam a isso. O Batman em particular, porque há todo o passado sombrio com os pais e ele é moldado a partir disso (te amo, Bats), mas também heróis como o Wolverine, Demolidor, Hulk – E eu sei que todos nós estamos ansiosos para o Aquaman mal-humorado e bad-ass de Jason Mamoa, certo?

Você sabe quem não combina com isso? Superman, Mulher Maravilha, Lanterna Verde, esse carinha aqui:

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Foi comprovado por este ponto que as adaptações de quadrinhos são um sucesso quando elas são sinceras. Não quando eles vão para algo do tipo ‘realismo corajoso’ à custa de tudo. Uma adaptação de quadrinhos sincera está entrelaçada com seu material original. Sinceridade permite gracejos, momentos fora do padrão, nuances de caráter que pode parecer tolo para estranhos, mas são todas essas coisas bobas que nos fazem entrar no universo de quadrinhos e seus heróis.

Os super-heróis são irrealistas, e tentar força-los a um mundo “real” causa problemas. São alegorias, não fatos ou pontos fixos. Eles só têm de se sentir verdadeiros e não realistas. Meu Deus, a realidade é chata – se eu quisesse realismo, eu estaria assistindo um reality show.

O principal problema com os últimos três filmes de DC foi seu o tom excessivamente sombrio. O Homem de Aço era basicamente um outro filme do Batman que por acaso era sobre o Superman, tentando imitar a sensação dos filmes do Nolan sem realmente considerar se isso seria ou não adequado ao personagem. Em seguida, temos Batman vs Superman: A Origem da Justiça, onde em vez de ser um filme sobre o debate perpétuo entre pessimismo e otimismo que Bats e Super tem nas histórias em quadrinhos desde sempre, ficamos num preto no preto.

Nem me faça comentar sobre Esquadrão Suicida, porque você sabe – tendo gostado do filme ou não – que havia sérios problemas de tonalidade e uma completa incapacidade de considerar o que seria adequado para os personagens que estão sendo retratados. Se o Coringa de Leto não era um exemplo horrendo do que acontece quando você tenta mudar toda a essência dos personagens, eu não sei mais o que é; A forma para sair da sombra de Ledger não era para enviar para seus colegas de equipe presentes perversos só porque você é tão do método, era para procurar um novo angulo do personagem.

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A saída da Marvel não é ser toda leve e divertida, e vamos destruir essa ideia de uma vez por todas. O Homem de Ferro lida com transtorno de estresse pós traumático, Capitão América: O Soldado Invernal é um filme de guerra bem subversivo, Jessica Jones é sobre relações abusivas e Demolidor é maravilhosamente brutal. O que Marvel faz é garantir que haja uma variação no tom em suas coisas, para que você tenha alguma sensação de leveza com um pouco densidade em meio a toda violência. Isso, mais do que tudo, é algo que a DC não conseguiu alcançar.

Acontece que a ideia do sombrio acaba seduzindo muitas pessoas, fazendo com que a ideia de que colocar um pouco de leveza nos filmes seja absurdamente rejeitada. É como se fosse um adolescente rebelde que acha que usar preto é sinônimo de profundidade e inteligência. Está ficando chato e previsível, e mais importante, está ficando no caminho de boas opções de contar histórias.

Alcançar o MCU é algo que a DC não irá conseguir fazer neste momento em termos de construção de mundos. Esses caras estão fazendo ótimas decisões a muito tempo, com ótimos elencos, diretores certos para trabalhar com seus filmes e com a coragem de fazer um filme dos Guardiões da Galáxia e gerar um enorme sucesso. Fora o fator de não precisarmos conhecer o material de origem para poder entender o que está sendo contado no filme. A DC precisa parar de tomar decisões apressadas e começar a ser um pouco mais corajosa e começar a acertar no estilo de filme para os seus heróis para que finalmente tenha algum filme duradouro nas bilheterias, e não um filme que para de arrecadar um alto valor depois de uns dias.

Em contra-partida a Marvel precisa parar de imaginar humor em todos os seus personagens, a saturação alcança todos os gêneros e se os próximos filmes não fornecerem uma diversidade melhor como Capitão América O Soldado Invernal forneceu, talvez ela comece a caminhar para o declínio. 

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  • Izaias Viana Marinho

    Muito bom o texto, concordo com tudo! E acrescento: o problema da DC tb está nos fãs. Grande parte do público espera blockbusters em todos os filmes, isso nem a Marvel fez.
    Outra coisa q os fãs esperam é a representação exata do q está na HQ. Fidelidade em excesso não faz bilheteria, ser maleável pode sim ser uma opção.
    Voltando à editora, a Marvel usou dos personagens menos conhecidos para iniciar o Universo, Homem de Ferro, Capitão America e Hulk não eram a maior fonte de venda da editora, sempre foi Homem Aranha e X-men. Às vezes você pode mudar. A idéia da Marvel é ótima, curto ambas.

    • Asdrubal Wernick

      Esquadrão Suicida sem a China: 750 milhões

      Doutor Estranho sem a China: 550 milhões

      Beijos

      Ahh sim, os filmes da Disney são perda de tempo. A única qualidade é fazer rir. Filmes vazios e sem conteúdo. Mas Esquadrão Suicida também consegue isso. Então dá tudo na mesma.