Na sociologia existe uma palavra muito forte, ela é a socialização. Quando estudamos os primórdios da sociologia com Émile Durkheim, Max Weber e Karl Marx necessitamos estudar socialização, afinal esses estudiosos refletem demais sobre o que ela é em seus pontos de vista.  A socialização, definida por muitos são os processos sociais que passamos desde nosso nascimento até o fim de nossas vidas que passamos e nos modificamos, a socialização quando criança é a mais citada e a mais importante afinal é onde nós extraímos mais conceitos, aprendemos mais coisas e criamos uma visão do mundo. Embora com  decorrer da juventude e da vida adulta sempre aprendemos algo e vamos continuar com agentes sociais externos, é lá quando estamos no início de tudo, sem a total plenitude de nossas ações e opiniões que realmente nos transformamos em alguém, nos moldamos em algo. Outra maneira mais forte de estudarmos é analisando casos diversificados pelo mundo onde a socialização não entrou no padrão de raças, crianças criadas por animais selvagens e que tomaram práticas e hábitos idênticos aos mesmos. A garota russa que acreditava que era um cão, o garoto africano que foi criado por macacos e até mesmo nas obras de ficção o adorado Tarzan.

E nossos processos de socialização ditam muito quem vamos nos tornar, a escola, a família, tudo isso, desde criança, todo santo dia aprendemos coisas novas. Somos pequenos cientistas, sempre perguntando, o que é isso, o que é aquilo, e a partir da descoberta criamos uma ideia sobre aquilo. É claro que no futuro podemos quebrar esses pensamentos, para uma criança na escravatura americana podia ser normal ver seus pais chicoteando outros seres humanos, mas certas ideias podem e devem ser quebradas através do tempo. Socialização é importante, até hoje vivemos sendo abduzidos por ela. O Quarto de Jack, de 2015 é uma obra que reflete até demais como a socialização nos afeta e por fim dita o nosso lugar no mundo.

A história de O Quarto de Jack de certa forma pode soar perturbadora, uma mãe e um filho que vivem em um quarto isolado, em uma monotonia desgraçada, unida ao  medo de um homem misterioso que chega todas as noites para estuprar a mãe. O mais encantador de início em O Quarto de Jack é a doçura dos atos que vão ocorrendo.

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Um dos pontos iniciais e notáveis de O Quarto de Jack é exibir a atmosfera pelo ponto de vista da mãe e do filho. Não é uma investigação de um policial que sempre estudou esse caso, tampouco mostra a razão do sequestrador ter pegado essa mulher para uma prisão em um quarto (Embora não precise de razão, é óbvio que é loucura ou sadismo), nem mesmo chega a mostrar isso acontecendo. O longa inicia com Joy e seu filho Jack já acostumados com aqueles dias, acostumados com aquela rotina e aprofundados nessa insanidade fora do comum. Para nós que talvez tivemos um processo diferente, Jack tem um ponto de vista diferente do mundo e pode soar até estranho, epa, não fomos criados como Jack, não sabemos como é o mundo nem o quarto de Jack. Essas fagulhas iniciais no roteiro do filme são fantásticas e é por conta delas que toda a carga dramática e visual do filme embarca nessa enxurrada repleta de pequenos pontos belíssimos.

A história, que gira em torno desse quarto solitário com essas duas pessoas, não fica privada somente ás maneiras que eles vão fugir, afinal há 7 anos ela estava lá. A vida de Jack girava em torno do quarto, da maneira que ele aprendeu o que existe no mundo. Para ele não existe um mundo lá fora, a televisão é mágica, os domingos são dias especiais para presentes, e embora tenha certo conhecimento sobre o que as coisas são, ele não foge totalmente dos garotos e garotas criados com outros processo de socialização diferenciados do normativo, Jack ainda é uma criança que nada pela correnteza e certa hora ela pode vencer.

Quando acreditamos que somos alguém acreditamos exatamente no que vivemos. Nossas opiniões nascem de nossas criações, de nossas ajudas, de nossos agentes externos, esses agentes externos não são a única fonte nossa, mas afinal raramente pessoas tem ideias nascidas no dia a dia repentinamente criando novas ideologias e contextos de vida. Você pode optar estar fora dos padrões, estar fora de uma normalidade ligeira, mas Jack vive de uma maneira totalmente diferente da nossa realidade. O Quarto de Jack conversa demais com Capitão Fantástico quando nos entrem crianças criadas de maneira diferente e como elas devem reagir e serem reagidas pelo mundo “normal”, vivemos numa casca, é inevitável.

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O Quarto de Jack fora de sua história é um longa que funciona de forma grandiosa, é tocante, sua fotografia é belíssima em uma imersão e um ambiente muito agradáveis. O filme acerta em cheio e profundamente nesse quesito artístico, toda a paleta de cores optada em determinadas cenas, toda essa direção de arte e como o filme é levado visualmente é muito imersivo, é muito bonito em si e também é parelho a própria história, de vez em quando no longa vemos frio, cinza, desolação e depois raios de sol penetrando uma janela, sua arte é um renascimento, belíssima. A trilha sonora também é um ponto alto, comovente e extremamente chorosa, O Quarto de Jack é emocionante, não é filme de prantos, mas é bonito para se emocionar. E suas atuações são de uma autenticidade sem escalas, Brie Larson brilha, e brilha de maneira suja, arrebentando, gritando, se emocionando, tendo expressões de uma mãe de verdade, preocupada, triste, arrependida, desolada, tudo! Jacob Tremblay, a estrelinha de Hollywood também é extremamente bom, impressionante para um garoto daquela idade, com uma curvatura dramática forte, choro realístico, expressões únicas e a doçura infantil.  As atuações em torno do longa é algo maravilhoso e maluco ao mesmo tempo, até nisso a imersão acerta, nos encaramos junto a esses personagens, vivemos com eles.

O Quarto de Jack é uma obra prima em técnica e atuação, é comovente, emocionante e muito bem feito, sua mensagem sobre o mundo é transcendental, nosso lugar não é um quarto, não é uma casa, não é um prédio, nosso lugar é no mundo todo, nossa casa é o mundo. Pertencemos a essa pequeno planeta azul sob um véu de estrelas, e vamos morrer aqui também, entre esses anos por que não experimentar, por que não viver, por que não descobrir o que essa pequeno grão de poeira azul na imensidão do espaço realmente representa?

Os nossos mundos não são somente O Quarto do Jack ou  O Quarto de Joy.

O nosso mundo é a Terra, e essa frase é mais literal do que você imagina.

 

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