Afinal, o que é o Clube da Luta?

Há violência dentro deles. É uma sociedade construída a mercê de um pós guerra, todos estão encasulados. Estados Unidos, um dos grandes países na Segunda Guerra Mundial, membro dos Aliados, os heróis do mundo. Derrotaram a Alemanha Nazista, acabaram com nações e então reinaram soberanos, vieram os vermelhos e nesse período houve um desgaste de expansão científica, tecnológica e política, foi um tempo para viver em um conflito frio onde suas maiores desavenças era quem tinha a maior bomba. E então “acabou”, o mundo mudou muito, entrou em outro século. A liberdade de expressão, as minorias, as lutas sociais, a globalização e essa correria desenfreada surgiu, gerações suicidas nasceram, pessoas obrigadas a isso e aquilo, homens e mulheres que ganharam suas rotinas, seus postos, agora estavam no caos calmo, numa máquina grotesca e desenfreada que só chiava vapor em formato de calmaria.

O protagonista era esse símbolo, era uma geração nascida em um mundo globalizado, excessivo. As pessoas achavam que eram suas coisas, no maior estilo de Philip K. Dick, como exibir que temos algo? (Que no caso seria tendo um animal real, em Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas?) Comprando. É o mais óbvio. Era uma sociedade desgastada, ele mesmo comprava bens materiais para sentir-se normal, bem, ser alguém. Mas ele não era uma mesa, uma cama, um fogão ou uma bela poltrona. Era um espírito livre, sem o temor de um holocausto nuclear, sem o sabor de viver em um mundo bondoso, só um meio termo. Ele vivia em um limbo.

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Where is my mind.

Nem um inferno, nem o céu. O homem sem nome vivia daquela maneira a vida toda, ele fazia parte de uma geração que não iria presenciar grandes eventos, trabalharia sem fim e então morreria. Ele sofria insônia, não dormia bem e então começa a frequentar clubes de auto ajuda, egoísmo? Você sofre por vários problemas internos, se acha um total crápula, daí você vê pessoas piores que você. Sentir-se bem é um elogio, não?

Esse é o estado do homem sem nome, que não é só um homem, mas vários, toda uma geração, toda uma classe. E através da violência ele vê a fuga, ele se transforma. O Clube da Luta acima de tudo não fala sobre a criação de outra pessoa, ou de um pensamento anarquista, fala da libertação fascista do interior dessa geração. Não foram pras grandes guerras assassinar, e nem futuramente irão presenciar grandes eventos. Não nasceram na hora exata, e vão morrer na hora errada. São todos filhos de uma cúpula, estão presos, o ser humano é um animal encasulado num estado e aqueles homens sem nome buscaram nas lutas, nos combates e sobretudo no sabor da briga o que é ser um homem, o que é ser livre.

É o que vemos todos os dias, ainda estamos nesse limbo. Tyler Durden foi único, criado a mercê da mente psicótica de um homem só, mas somos os outros homens. O Clube da Luta acompanha nossos pensamentos, nossas ideias, o desejo de liberdade.

As questões sociais de Fight Club de David Fincher são tão amplas que poderiam servir de base para um artigo científico, tamanha é a grandiosidade artística do longa que promove toda uma geração de fãs da sétima arte. Comovidos pela narrativa, acesos pelos personagens e suas personalidades e levados considerar como o cinema era forte, Clube da Luta faz parte de todo um fenômeno artístico e cultural que levou tantas pessoas beirarem a loucura.

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Fight Club nos apresenta a temível história do homem comum, como Odisseia no Espaço trata o seu primórdio de humanidade como homem primitivo, vamos tratá-lo como homem comum. Esse personagem sem nome segue toda uma rotina extremamente similar ao que vivemos hoje em dia, você sentir-se familiarizado com aquele clima denso do início do filme é totalmente normal, é o costumeiro amanhecer, seguido por um ônibus, um dia no trabalho e por fim o  resto de uma semana ou mês preenchidos por compras ridículas.

É a vida de toda uma geração, de uma série de indivíduos que nasceram e vão morrer assim. O homem comum de Clube da Luta ainda tem insonia, medo, é uma figura que participa de grupos de auto ajuda para sentir-se alguém, até conhecer outra crápula como ele. Marla é um símbolo fundamental para compreender a jornada de auto ajuda do homem comum, ela significa como nossa vida modifica-se com a presença de outra pessoa. Nascemos solitários, em algum momento da nossa vida teremos alguém do nosso lado, se esse alguém é um amigo ou faz parte de um relacionamento amoroso, não importa. Marla é um ícone de necessidade do homem comum, como vários homens comuns tomam.

E então o homem comum como na jornada do herói conhece seu guia, um patrono. Tyler Durden é tudo que o homem comum queria ser, não se importar com seu emprego, ser autônomo, fazer coisas fora das regras e leis que o Estado impõe e além disso ser uma figura totalmente despretensiosa, sem medos. O homem comum nunca dormira tão bem sabendo que estava acompanhando Tyler para algo grande, eles iriam libertar toda uma geração.

Criar homens. Era isso que iriam fazer. Aquela geração iria morrer triste e ridícula sem Tyler e aquele homem comum, todos com seus empregos ridículos e vidas monótonas. O Clube da Luta significou algo, por qual razão não podemos falar do Clube da Luta? Por que ele é um conceito, é lá onde as capas se perdem. No Clube da Luta não existe rico, pobre, preto ou branco, hétero ou gay, não existe segregação de gostos. São só homens, que buscam por sua selvageria, pelo fascismo interno, pela loucura que o ser humano tem e em toda essa carnalidade a ânsia de virar algo a mais, de socar, de ver o sangue. Acima de tudo de se ver derrotando algo, de se ver importante.

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E o homem comum então se viu em um plano de acabar com visões do capital, com um mundo globalizado. E Marla vivia em sua jornada mortuária, para o fim de tudo. São pessoas modificadas, aberrações nascidas de medos do mundo. Marla representa a queda de muitos, desde o não cuidado, as drogas e  o suicídio. O homem comum se viu como Tyler, ele mesmo era ele. Essa figura icônica fora criada por ele, nada mais sensato para fugir de seus problemas internos, ele se livra de Tyler com um tiro e então Marla reaparece. Como um sinal de esperança.

Ele esta a mercê das janelas de um prédio, com Marla. É um elo que se liga tocando sua mão, Marla é o fenômeno mais forte de como pessoas mudam nossas vidas, como a esperança ainda pode estar nas nossas vidas em momentos mais nefastos e ruins, prédios explodem como fogos de artifício e eles observam a dança anárquica e brilhante.

O filme Clube da Luta não é fascista, tampouco violento. Mas exalta a loucura do homem, do sabor que nós temos pelo grotesco desejo da violência, das pessoas de nossas vidas e da esperança.

Fala de nossas vidas, desse nosso eterno conflito, todo santo dia.

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Cadê minha mente?