Quando a Marvel anunciou o filme solo do rei de Wakanda eu confesso que tive receio do resultado. Não por ser algo muito difícil de se fazer, mas pelo histórico de Hollywood de “desrespeitar” outras culturas em prol de tornar palpável e mastigável para o publico majoritariamente branco e ocidental que consome a indústria de cinema. Eu poderia fazer uma lista gigantesca de produções que passaram pelo processo chamado de “Whitewashing” nas mãos dos produtores norte-americanos e você certamente deve conhecer algum filme assim ou conhecer alguma polêmica do gênero. Por mais que Pantera Negra seja uma criação de quadrinistas norte-americanos, toda sua essência é africana e embora tenha sido isso que atraiu o público aos quadrinhos, na hora de produzir um filme de milhões de dólares, o receio dos produtores e da Disney em se jogar de cara na cultura africana e afastar o público norte-americano poderia atrapalhar o longa. Felizmente, saí da sessão aliviado.

Após ver T’challa em ação em Guerra Civil eu não tinha dúvidas da capacidade da Marvel em explorar bem o personagem em cenas de ação. Chadwick Boseman se provou desde então digno de carregar o manto de Pantera Negra e, ao menos, com relação a isso eu estava despreocupado.

Aos poucos as notícias sobre Pantera Negra foram surgindo. Diretor anunciado, chamada de elenco, produtores e declarações. Tudo tão positivo, tudo caminhando da forma como deveria ser. O diretor? Negro! 95% do elenco? Negro! Produtores e funcionários trabalhando no filme? A maioria deles negros!  Pantera Negra não seria apenas um símbolo de representatividade para quem assiste, mas sim um marco de como a representatividade e a inclusão deveriam funcionar em Hollywood.

Em dias como os de hoje, onde as questões raciais e discussões de igualdade estão em alta, era meio óbvio que Pantera Negra carregaria um peso gigantesco em suas costas. Afinal, o mundo ainda não é o ideal. O negro precisa ser realmente excelente para ser elogiado, caso contrário é uma falha. Pantera Negra não falhou!

Uma das primeiras coisas que gostaria de ressaltar sobre a obra é que Ryan Coogler fez o que qualquer negro socialmente engajado gostaria de fazer. Ele deu voz à cor, deu música à cor, deu estilo à cor e tem a chance de mostrar ao mundo que as raízes africanas são belas e riquíssimas. Pantera Negra não tem medo de se enraizar nos elementos que definem a África para o ocidente. O filme tem cores, tem batuque, tem rituais, tem sotaque, tem design e tudo isso de uma forma tão bem colocada, tão bonita que te fará querer mais e mais.

Desde a trilha sonora ao design de produção, o filme mostra a que veio e logo de cara deixa bem clara sua originalidade e distanciamento do que dizem ser a “fórmula Marvel” de filmes de super heróis. Aliás, Pantera Negra não é simplesmente um super herói, toda a atmosfera do filme carrega no nome do personagem a tradição, o miticismo, a herança e as responsabilidades de se governar.

Um filme sério, centrado, com noção de onde está e muita propriedade de onde quer chegar. Embora exista uma ou outra cena leve para descontração, esse talvez seja o filme mais sério da Marvel, com níveis de debates muito mais altos dos que os já produzidos anteriormente pelo estúdio.

Esqueça a sina de vilões superficiais e sem ideais convincentes, Michael B. Jordan consegue nos entregar um vilão tão bem fundamentado que em diversos momentos você poderá se ver concordando com ele. Embora não possa não concordar com seus métodos, mas seus ideais possuem um ponto de vista realmente convincente.

Ryan Coogler teve liberdade para criar, para fazer e também se desfazer do necessário para que sua história caminhe. Há plot-twists na história, há viradas de jogo e coisas que irão te pegar de surpresa. Durante todo o longa a sensação maior é a de “O que vem agora?”. Ao mesmo tempo que você anseia pelo próximo passo, o momento atual é ambientado em algo tão diferente e fascinante que nos faz querer mais.

A Wakanda africana é muito bem representada desde os batuques da trilha, aos rituais e em diversos momentos a forma de comunicação dos personagens e a relação entre esse universo novo com o nosso mundo é muito bem construída desde os primeiros momentos do longa.

As cenas de ação são primorosas e aquilo que você viu nos trailers é apenas um aperitivo para o que te aguarda nos cinemas. A mescla entre a tecnologia e o tribal é tão fascinante que se torna triste algo assim não existir de verdade.

Todo o elenco principal tem seu momento de brilhar, desde os vilões aos personagens que cercam o rei T´challa e o diretor Ryan Coogler consegue nos apresentar um universo totalmente novo, com personagens interessantes e ambíguos, motivações convincentes e ao mesmo tempo arrancar suspiros de ansiedade do público.

Não há como ser modesto, em Pantera Negra temos o melhor vilão da Marvel, um dos melhores roteiros, a melhor trilha sonora original desde Vingadores, cenas de tirar o fôlego e uma trama tão intrigante e tão madura quanto Capitão América: O Soldado Invernal.

Eu preciso assistir esse filme novamente, afinal de contas não se assiste o melhor filme de origem de um personagem em quadrinhos tão magnífico quanto o Pantera Negra somente uma vez.

Wakanda Forever e que venha Guerra Infinita!

 

Um pedido para a Marvel: entregue mais filmes nas mãos competentes de Ryan Coogler, por favor!

 

facebook comments:

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here