Falar de Harry Potter depois de anos que os filmes bombaram já é por si só uma tarefa árdua, nada comparado a fazer uma crítica de um filme que começava realmente a galgar a escada do sucesso mundial com a sequência A Câmara Secreta (Harry Potter and The Chamber of Secrets), em 2002. Enquanto A Pedra Filosofal (2001) se encarregava de apresentar ao mundo o filho mais velho e também revelar boa parte daquele contexto mágico e surreal que Rowling tão majestosamente criou nos livros, a continuação da série se encarrega de focar principalmente nas aventuras de Harry Potter e de todos os perigos que envolvem a escola, sem muito nos focar em um cenário  conhecido, pré-estabelecido e de fácil entendimento. Em partes, porque somos lançados a uma nova exploração do Beco Diagonal, hábitos e cultura dos bruxos britânicos.

A história do longa acompanha Harry Potter (Daniel Radcliffe) após os acontecimentos em A Pedra Filosofal, com a ameaça iminente de Lord Voldemort tentando um retorno. Neste momento, temos um Harry que já consegue entender um pouco mais sobre o próprio universo ao qual foi inserido, lidando com os problemas de uma criança órfã de ter a esperança e um lugar para chamar de lar e depois vendo seus planos arruinados após a suposta barreira que o elfo doméstico, Dobby, coloca em seu retorno à Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Como quase sempre há um jeito na vida para tudo, é Rony Weasley (Rupert Grint) é quem salva o amigo, sequestrando-o de casa após Harry estar, basicamente, “em cárcere privado”.

Com duas horas e quarenta minutos de duração, há a mescla entre pontos positivos e negativos, o que pode fazer com que o longa se torne um “filme aceitável” nas adaptações. E aparentemente, Chris Columbus preocupa-se em ousar um pouquinho e elevar o roteiro a algo um pouco mais sombrio, em parceria com o roteirista Steven Kloves, obteve algum sucesso.  Contudo, mesmo sendo a franquia mágica que encantou multidões ao redor do mundo, nem mesmo um Protego poderia ser o suficiente para que Harry Potter a Câmara Secreta não fosse um pouco decepcionante se comparado com o antecessor e muito menos com o seu sucessor.

A trama segue com o núcleo entre as paredes de pedras de Hogwarts, onde Harry junto a Rony e Hermione Granger (Emma Watson) passam a enfrentar uma série de mistérios que passam a acontecer quando a Câmara Secreta é aberta. Levando-se em conta a suposta despreocupação em abordar mais do universo potteriano a ser explicado, é possível perceber como a trama de um filme “infantil” vai se tornando um pouco mais densa – mistérios entre ameaças de assassinatos, a possível chance da escola ser fechada, ataques que começam a acontecer àqueles que não possuem uma árvore genealógica pura. Tomado por um leve tom de humor no trio com Rony Weasley, vemos aqui um pouco mais de evolução da atuação infantil – tanto dos três principais quanto dos outros.

E se Harry Potter e a Pedra Filosofal foi um filme que certamente nos mostrou um pouquinho do preconceito, nada comparado já com o que nos é apresentado em A Câmara Secreta – visto que personagem Gilderoy Lockhart (Kenneth Branagh) são uma crítica à fama e beleza e Lucio Malfoy (Jason Isaacs) segue com o discurso elitista em relação aos bruxos mestiços e “sangue-ruins”, fazendo clara referência ao nazismo. E essas são questões tratadas de forma leve, mas que estão presentes e isso ganha por si só um ponto positivo, porque é desde cedo que devemos aprender que embora tenhamos diferenças, nenhuma forma de julgamento ou preconceito deve ser tolerada; inclusive, começar a apresentar isso em Harry Potter foi a cartada certeira para que tantas crianças hoje em dia não sejam tão alienadas e respeitem, em maioria, as diferenças.

Enfrentando o pré-julgamento de alguns, o medo que permeia a escola e munido de muita coragem e ajuda dos amigos, Harry Potter consegue embarcar na aventura de enfrentar o monstro que habita a tal Câmara, construída por ninguém menos que o bruxo Salazar Sonserina (fundador da casa verde e prata). Contudo, enquanto o livro aborda uma trama sólida e com maior dimensão a ser explorada, o filme peca com alguns furos no roteiro, com informações sendo jogadas por todos os lados e acumulando algumas partes sem real necessidade ou sentido, além de diálogos por vezes fracos.  Seria justo, talvez, que dentre todos os filmes, seja aquele que foca mais em uma aventura e mistério a ser resolvido do que no ponto do que isso poderia desencadear na vida do protagonista, uma vez que os acontecimentos em A Câmara Secreta têm algum plano de fundo envolvendo diretamente os últimos filmes da franquia, as pontas soltas demoram anos para serem amarradas e as dúvidas sanadas, mas isso na saga não é lá uma grande novidade.

Com efeitos especiais entre animais gigantes, carros voadores, árvores que se movem e vassouras no ar, o ponto realmente alto são os efeitos especiais e também a direção de arte. O cuidado para que a ambientação seja tão bem apresentada na tela reflete em um cenário bem construído, de uma simples sala de estar da família Dursley quanto a ambientação escura e sombria que encontramos na Câmara Secreta e até mesmo a diferença entre os salões comunais, como Grifinória e Sonserina. Os efeitos de cenas como o quadribol, o basilisco ou o elfo doméstico Dobby foram bem elogiados na época de lançamento justamente por terem sido bem apresentáveis na conclusão geral do filme.

Embora com um roteiro mediano e sendo sucesso mundial, Harry Potter e a Câmara Secreta foi uma fórmula que deu certo, mas de todos os sete filmes restantes, torna-se o mais chato a ser assistido. Isso porque a fórmula utilizada do “protagonista sendo assombrado pelo passado e deve solucionar o mistério que ronda o castelo” deu muito certo, o que faz com que quase fosse uma história tomada pelas repetições ocasionais.  Não que isso tudo tire o  mérito de uma das maiores franquias cinematográficas: têm a sua magia, o seu sucesso e a capacidade de fazer com que consigamos mesmo que por alguns segundos nos esquecermos da vida real e mergulhar em um universo que pertence à mente de uma mulher criativa. Harry Potter e a Câmara Secreta não é o melhor filme da franquia, de fato, mas certamente, desempenha o papel de nos revelar um pouco mais sobre Tom Riddle.  E muito embora elementos sejam presentes continuamente, tornando-o até arrastado, no fim, trata também do valor das amizades e até onde se vai por um amigo e por alguém que se gosta, mas nada “muito além” disso.

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