O retalho que é Quentin Tarantino merece ser descosturada até aquele último arranjo de linhas, entre retalhos e mais retalhos. Diretor de longas memoráveis, cenas fantásticas e momentos marcantes, Tarantino é (ouso em dizer) um dos  maiores cineastas vivos, não por suas facetas de estado “cult” entre uma massa de cinéfilos, mas por seu estilo revigorante de fazer arte, em cinema, e assim criar um estado naturalmente popular e artístico.

Nascido em 27 de Março de 1963, Tarantino diferente de outros diretores de cinema não exerceu qualquer tipo de curso ou estudos sobre o cinema, e isso é notável visto que a arte do cinema não é só teoria, mas também se envolve na prática de fazer determinada obra, e conhecer outras produções, Tarantino trabalhava em uma locadora e o que um jovem faria em uma locadora o dia todo? Via filmes, é dessa maneira tão rústica e singela que ele adquiri todo esse sentimento do cinema, do estudo da cinematografia antiga, com os western, filmes de artes marciais orientais, spaghetti italianos e os famosos filmes trash. Tarantino é um homem popular, ele não precisa trazer para suas obras, referências á diretores tão renomados, Bergman, Kubrick, Godard… Ele não precisa tomar toda a genialidade artística desses grande nomes e trazê-las para essa concepção atual, ele compreende o cinema antigo com um ponto de vista totalmente popular, que é bom da mesma maneira, que tal pegar todo o tipo de cinema asiático, misturado aos western e estuprar seus longas com referências e modos de produção daqueles longas do passado? É isso que Tarantino exatamente faz com a breguice que é sua carreira, de forma bastante pop e simples.

Iniciando sua carreira com o estrondoso Reservoir Dogs (Cães de Aluguel), Tarantino surpreende o mercado cinematográfico pelo baixo orçamento, além de um estilo diferente, ousado em fazer cinema, o roteiro inicia com um grupo de homens de terno debatendo sobre a letra de uma música da Madonna, ou seja, nada foi visto antes. E é isso que Tarantino faz com que seja tão banal e popular, são diálogos cotidianos, textos do dia a dia que você com certeza fala ou escuta, postos em um filme sobre assalto, gangsters, pessoas horríveis e tudo isso com a presença de grandes nomes da atuação. Junto a tudo isso, ainda somos apresentados a uma das facetas mais notáveis do diretor quem além de seguir com a  direção, ainda restam os trabalhos da produção de roteiro, que são ambos da autoria de Quentin, e o que diferencia os roteiros de Quentin dos outros roteiros? Bem… A ignorância do simplista, e bem, é um roteiro de Quentin Tarantino, isso só já diz o que ele pode ser.

“C’mon, say “what” again! I dare ya, i double dare ya motherfucker, say “what” one more goddamn time!”

A próximo obra prima de Quentin é talvez o mais ilustre trabalho do diretor, “Pulp Fiction” é um dos melhores filmes da década de 90 e um dos mais famosos entre a cultura pop. Sua não linearidade unidas a uma compreensão do mundo criminalizado, além da trilha sonora impecável, momentos impagáveis e uma história tão insanamente louca, movida a personagens tão loucos quanto e diálogos grandiosamente bem construídos, tudo propicia para a criação de toda uma magia em torno dessa obra. É Pulp Fiction que carrega Uma Thurman e John Travolta dançando, é ele que carrega John Travolta confuso, procurando o desconhecido, é ele que ostenta a famosa frase de Julius “I double dare ya motherfucker!” e todos esses momentos, memes, cenas e personagens deixam Pulp Fiction mais especial, mais sádico, esquisito e brega, deixa melhor, torna o filme um símbolo até esquisito em diversos aspectos da cinematografia, mas o que não podem negar é sua total e merecedora capacidade de ser um vetor de cinema artístico, de ser um longa memorável em diversos aspectos, tanto ao público em geral, quando aos críticos mais cultos.

Você já os viu em algum lugar, eu tenho certeza.

Agora movido á um desejo esquisito de unir vários gêneros cinematográficos, e a mente produtiva da atriz Uma Thurman (Recorrente ás gravações de Pulp Fiction), Tarantino cria Kill Bill, uma história que beira ao brilhantismo do século passado. A história nos transporta a uma compreensão totalmente brega, é um western misturado á tons orientais e recheado de momentos de puro spaghetti. Como falei logo acima e outras críticas deixam explícito, Kill Bill não é normal, é um asilo para loucos, e é charmoso por isso, é totalmente aprazível em roteiro, que é baseado na vingança da figura da Noiva, uma mulher que só tem o desejo de assassinar o tal Bill. A ação de Tarantino nunca é falha, e esse é seu projeto mais belo em interpretação, as cenas de lutas marciais, além de atores que foram escavados novamente das tumbas mais profundas dos filmes Trash-Orientais dos anos 70-80 são colocados na trama de uma maneira grandiosa, eloquente e poderosíssima.

Quentin desafiou o cinema, desafia os gêneros, e aí parte para desafiar a história. Após seu trabalho em Jackie Brown, como uma adaptação de um livro, Tarantino chega na Segunda Guerra, desembarcando de cabeça nos Bastardos Inglórios. Você deve estar pensando “E Jackie Brown?” Bem, Jackie Brown não é Tarantino, todos os elementos cinematográficos pertencem a ele e outra gama de pessoas, mas a história de JB não gira em torno de Tarantino, e se há algo que todos sabemos é que ele trabalha muito melhor se TUDO pertencer a ele. Bastardos Inglórios é um grito da loucura sanguinário e violenta do diretor, não é novidade dizer que Tarantino é um amante de sangue de violência, todos os filmes são excessivos nesse contexto, e é afável, visto que a humanidade realmente mata por nada, mas Bastardos Inglórios é uma exceção total, o roteiro é fenomenal, e agora com violência excessiva fica melhor ainda. Clássicos da segunda guerra dão uma perspectiva do holocausto e da segunda guerra de uma maneira totalmente penosa aos judeus, e Tarantino desafia esse contexto, fodendo com os alemães e os nazistas, criando um esquadrão de judeus que só tem uma razão.

Matar Nazistas.

Os Oito Odiados (Achou que tudo seria na ordem? Hey, estamos em um artigo sobre o cara da não linearidade) é seu mais novo trabalho e seu oitavo longa, dirigindo e roteirizando. O western é impecável de diversas maneiras é só reforça como o cinema artístico do diretor necessita ser visto diversas vezes, com a fantástica trilha sonora de Ennio Morricone, ele nos traz oito personagens principais presos em uma espécie de última parada para a próximo cidade por uma nevasca, gravado em uma perspectiva totalmente interna na cabana, Tarantino dá um show de cultura visual, interpretativa e diálogos, de uma maneira mais ampla, Os Oito Odiados atrás de Pulp Fiction é um de seus melhores trabalhos e como falado anteriormente é cheio disso, das peculiaridades Tarantinescas.

 

Django de 2013 é outro western de Tarantino, seu penúltimo mais novo trabalho e também é cheio de suas manias, mas é carregado de um sentimento mais forte vingativo que ele sempre traz em suas obras. É um grito sanguinário que o diretor merece e sempre exerce, como Judeus matando Nazistas, agora acompanhamos um Ex- Escravo negro que assassina Brancos e Barões, isso não é novo, mas é repetitivo e talvez por essa violência psicótica interna possa a ser palco de discussões, negativas ou positivas.

Ou seja, Quentin Tarantino é um diretor louco, é megalomaníaco, sanguinário, vingativo e totalmente fora da casinha, seu cinema é pura arte, ele cria seus roteiros e os dirige com seu imenso foda-se ligado. E isso  de certa forma é arte, é quando ele não tem direção externa, ele quer mostrar aquele seu interior e o faz, É o melhor diretor de todos os tempos? Nunca. Tarantino não é o maior diretor vivo, e Pulp Fiction não é o melhor filme de todos os tempos, mas também não são vertentes da arte ruins, não merecem ser menosprezadas. Ele é excessivo, é insano e suas obras são recheadas de referências ao passado, e nem por isso são originais, todas as construções do diretor, seus roteiros e produções são únicas, são raramente primitivas e compreendem um visual falatório belíssimo, atuações belíssimas e um trabalho simplesmente épico.

Tarantino é cheio de manias, suas obras são importantíssimas para a Cultura Pop, o diretor é um nerd em si e com toda a certeza um amante de cinema, de cultura pop, ou de gêneros diversificados iria gostar de sua filmografia completa, de suas manias, toques, referências e é claro seu sangue.

É, meus amigos, Quentin Tarantino realmente é uma figura única.

Beijinho pra quem não gosta.