Nas últimas semanas, os portais de comunicação e notícias relacionados ao mundo geek divulgaram uma notícia polêmica: a confirmação de um spin off da personagem Harley Quinn, que brilhou na adaptação cinematográfica do Esquadrão Suicida em agosto desse ano, e que há um bom tempo vem alcançando uma popularidade imensa entre os fãs, principalmente a nova geração feminina que pouco a pouco vem se inserindo massivamente no público consumidor de quadrinhos, criando uma nova demanda por uma maior representatividade feminina nesse nicho, seja pela criação de novas personagens com as quais o público iria se identificar, ou com a “reforma” de personagens já existentes, de forma a se adaptar a esse público.

No entanto, a notícia acerca do filme da Harley certamente dividiu opiniões, gerando comentários diversos, desde fãs da personagem animados com a notícia e as possibilidades trazidas por esse filme, a fãs do DCEU “indignados” com a ideia de um spin off focado na Harley, com a “justificativa” de que é uma proposta inútil ou que vai ocupar o lugar de um spin off ou filme de um personagem “muito mais interessante” para o DCEU. Mas qual a necessidade de todo esse hate? É sobre isso que esse texto busca elucidar um pouco e dar uma opinião acerca da situação.

Criada em 1992 por Paul Dini e Bruce Timm exclusivamente para Batman: Animated Series, fez sua primeira aparição no episódio intitulado “Joker’s Favor”. Rapidamente aceita entre o público, a psiquiatra maluca logo foi transferida para os quadrinhos, onde esteve sempre ligada à imagem do Coringa, como brinquedinho numa relação violenta e romantizada por muitos fãs. Mas é a partir de suas participações na série de jogos Arkham, que ela teve o visual quase totalmente remasterizado, fixando assim a sua dualidade de cores nos uniformes e no cabelo (com algumas exceções em que ela se encontra totalmente loira) como marca característica da personagem. Com sua popularidade cada vez mais em alta, a DC Comics resolve dar à personagem uma certa “independência”, desvinculando-a cada vez mais da imagem de submissa ao Coringa e mostrando-a como uma personagem forte, independente, extremamente inteligente, e igualmente insana e violenta. Nos reboot dos Novos 52, ela entra como membro integrante do Esquadrão Suicida, o que alavanca ainda mais sua popularidade e lhe rende finalmente uma HQ própria, com histórias mais leves e divertidas, com um tom ridiculamente insano, e no reboot mais recente da DC Comics, o Rebirth, a revista Arlequina #1 foi a mais vendida do mês de agosto, e o top 10 contou também com Esquadrão Suicida #1 em terceiro lugar, e Arlequina #2 em nono lugar. Mesmo sendo tão popular assim, por que a personagem tem recebido tanto ódio dos fãs regulares do universo das HQs?

A resposta talvez esteja na imagem vinculada a ela por tantos anos, de uma personagem ligada ao Coringa e de certa forma submisssa, o que leva muitos fãs a acreditar que seria uma personagem “inútil” ou um simples “capacho do Coringa”, ignorando toda a ligação da Harley com outras personagens do Universo DC, como as Aves de Rapina, ou dentro do próprio Universo Batman, com as Sereias de Gotham, ligações essas que poderiam tranquilamente ser exploradas dentro de um filme solo da Harley, expandindo ainda mais o DCEU (seria uma excelente oportunidade para vermos uma Canário Negro nas Aves de Rapina, o que daria margem à existência de um Oliver Queen, talvez?). Outro possível motivo para a rejeição desses fãs regulares à Harley poderia ser o teor ácido e escrachado presente nas HQs solo da personagem, feitas para um público-alvo específico, e mesclando comédia nonsense, enredos simples sem muita profundidade e com bastante violência, levando a personagem a levar alcunhas como a de “Deadpool da DC”.

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Será que é realmente necessário esse desprezo todo por parte dessa parcela de fãs da DC pela personagem e pelo spin off anunciado nos cinemas? No mais recente filme do DCEU, Esquadrão Suicida, Harley Quinn, vivida pela atriz Margot Robbie,  foi indubitavelmente a personagem mais popular e mais rentável, tanto em relação ao marketing promocional do filme, quanto à venda de produtos relacionados ao longa. E a despeito da recepção da crítica ao filme ter sido bastante severa, foi inegável a forma como a personagem foi bastante elogiada, fato que se repete se levarmos em conta a opinião do público leigo em relação a HQs. Considerando então a popularidade da personagem, a excelente interpretação feita por Margot Robbie e a premissa (às vezes esquecida por muitos) de que o DCEU só pode continuar caso seja rentável, por que seria de se estranhar o anúncio do filme solo da Harley? Ademais, um filme dela não exclui a possibilidade de um filme focado em outro personagem da DC comics, uma vez que dadas as possíveis aparições de novos personagens nesse spin off, o leque de opções de personagens para novos spin-offs se torna ainda mais amplo.

Logo, o anúncio do spin-off deveria ser celebrado, ou pelo menos bem aceito entre o meio DCnauta, uma vez que só prova a boa vontade da Warner em tentar expandir o DCEU, em vez dar ouvido à enxurrada de críticas negativas que seus filmes receberam até agora e abandonar o projeto do universo cinematográfico da DC Comics. Podemos acreditar então que a Warner ouviu as críticas, selecionou aquelas realmente pertinentes e vai tentar usá-las para aprimorar seus próximos longas, o que inclui o spin-off da Harley, do qual poderemos esperar uma boa contextualização, uma série de referências aos quadrinhos, além da excelente atuação da Margot Robbie.

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