Ás vezes eu me deparo com comentários sobre o estado de tal filme. Blade Runner é isso, é aquilo. E daí vem a pergunta final, o que Blade Runner realmente é?

Com essa separação talvez tola que existe pelo mundo do que é cult e do que não é, fica difícil saber e distinguir realmente o que cada obra representa. Blade Runner entra nesse debate e entra com força, visto pelos olhos do mundo em 1982 e baseado no romance psicótico e formidável do escritor Philip K. Dick, tudo se promoveu para a história do caçador de andróides ser um fracasso, má crítica, má bilheteria e má recepção.

E o tempo ajudou a obra de Ridley Scott, e como ajudou. A narrativa filosófica e lenta unida aos embargos de ação e uma questão de vida foram tragadas pelos críticos posteriores, foi criando um status conceitual, finalmente as pessoas estavam notando o que tinha nessa obra cinematográfica e por fim adquiriu o estado cult. A questão disso tudo é que Blade Runner não é necessariamente cult, é bom.

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Rick Deckard, por Harrisson Ford.

Só de falar a palavra “cult” o senso comum já pensa em obras longas, preto e branco, cansativas e com reflexões humanistas e filosóficas. Okay, isso pode existir (vide Bela Tárr), mas nem sempre é assim. A história de Rick Deckard, o caçador de andróides em uma Los Angeles futurista e tragada pela tecnologia não é só filosofia, não é só a questão da vida e sobre nossos dilemas da morte, essa história é única, é boa, é totalmente nerd e por fim é muito deleitosa.

A história do filme é até simples, Replicantes, criaturas geneticamente formadas que atendem a humanidade até serem proibidos na Terra e um grupo de Replicantes guiados por um líder reflexivo e insano chega a Terra futurista para seus planos diabólicos enquanto um Blade Runner chamado Rick Deckard tem a tarefa de “aposentar” esses Replicantes.

Talvez a maior qualidade do longa seja a sua imersão, o seu clima, a conexão que o telespectador cria ao ver aquela Los Angeles de 2019 perto de nós. Philip K. Dick, o escritor da história de início tinha um pé atrás com essa concepção, e então viu os primeiros esboços visuais do que viria a ser o longa, animado ele pensou “Reconheci aquilo no mesmo instante. Era meu próprio mundo interior. Eles captaram perfeitamente”, a Los Angeles futurista pós guerra nuclear, suja, tecnológica, totalmente tomada por imigrações asiáticas, úmida, brilhante e podre é uma doce visão do nosso mundo atual, a qualidade de seu clima e sua parte técnica é imperdível e embarca todos nós no que é esse filme.

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A fotografia de Douglas Trumbull é formidável.

Blade Runner tem um ritmo neo-noir, não é chato, mas também não é rápido, não é repleto de ação e nem planos sequências mirabolantes, considere-o cult quanto desejar, se pela reflexão de Roy Batty ou pelo crescimento de seu status, ou se divirta com um filme acima de tudo bom, captativo, interessante e único.

E o novo capítulo dessa história está aí, Blade Runner 2049 com o caçador de andróides K que procura Rick Deckard, um antigo Blade Runner desaparecido há 30 décadas. Dirigido pelo lustroso Denis Villeneuve. O teaser está em mãos, e está tudo lá, a fotografia, a trilha sonora, o nosso saudoso Rick…

E o clima. Que tanto acerta na Los Angeles podre. Blade Runner ainda tem muito a prometer. E vai continuar assim.

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