Quando vi Blade Runner de 1982 pela primeira vez, quem sabe três ou quatros anos atrás, uma das primeiras coisas que pensei foi como os personagens não humanos eram muito mais humanos que os humanos de verdade. Quando Blade Runner se tornou um expoente cultural imenso e começou a fazer parte da minha própria vida de fato, refletir e debater sobre uma obra tão rica se tornou rotineiro, e obviamente sua sequência Blade Runner 2049 carregava uma montanha de más pensamentos, será que o texto de Dick seria desprezado e esquecido, seria oportunismo retornar um filme único para arrecadar mais e mais?

Mesmo com o excelente Villeneuve que já carregava uma aura brilhante pelo seu último A Chegada de 2016, não tinha total certeza. A estética dos trailers era agradável, o misto do passado com um futuro mais “moderno” foi me agradando, mas obviamente havia uma névoa sobre o que o filme poderia ser, K é filho de Deckard? Cadê Rachel? O que aconteceu com o mundo de 2019…

Pois bem, a tela do cinema apagou, tudo ficou escuro e então pequenas palavras vermelhas tomaram forma. Uma trilha sonora distorcida e imunda tomou conta dos meus ouvidos e por pequenos segundos eu pensei “Eu estou vendo Blade Runner no cinema“.

E obviamente uma união de forças da natureza da atualidade, como Denis Villeneuve, Roger Deakins, Hans Zimmer e Ryan Gosling conjecturariam em uma tempestade deleitosa de como se fazer uma continuação e ao mesmo tempo abrir mais um universo. O futuro de 2049 não é tão distante do nosso, e na premissa de que mudanças políticas e econômicas aconteceram, nosso protagonista K que é um Blade Runner tem a contínua tarefa de caçar os replicantes antigos, das eras anteriores à empresa Wallace, a maior fabricante de replicantes da atualidade. Em uma ligação de roteiro chamativa e com um mistério evidente, a narrativa não lenta, mas bem contada do novo filme reverbera um retorno ao que conhecemos, mas ao mesmo tempo novidades. Claramente a abertura para cenários mais amplos e diferentes da Los Angeles de 2019 é uma evidência da base que tiveram no livro de Philip K. Dick agora os cenários partem para desertos afetados pela radioatividade, lixões de tecnologia, pequenas fazendas secas, mas sem esquecer da nebulosidade de uma cidade invadida pelas diferentes culturas e tecnologia. O eco de Blade Runner 2049 vai para nossa humanidade, a dúvida instigante desde o primeiro filme continua, como distinguir o que é ser humano ou não?

De certa forma a única distinção entre o homem e o replicante são suas condições sociais, um muro separa a sociedade, a tenente interpretada por Robin Wright diz, e obviamente é uma demonstração de como os replicantes naquele tempo infelizmente são excluídos muito mais por um medo irracional humano e por distinções sociais do que a própria biologia em si. É forte pensar que os vínculos emocionais que os personagens replicantes criam são imensamente fortes ou talvez mais fortes do que os seres humanos de fato, a humanidade verídica vai se perdendo em um futuro sombrio e nostálgico e abre as portas para um estágio mais profundo da humanidade: de uma humanidade nascida à partir da sinteticidade, os replicantes são imensamente mais humanos do que os próprios humanos.

Roy é um dos exemplos do mais humano que os próprios humanos

Tecnicamente impecável, desde sua trilha sonora, direção, fotografia, atuações e roteiro, Blade Runner 2049 nos invade novamente com as dúvidas instigantes de todo o sempre, pela sociedade, pela filosofia e por nossos embates morais do que é ser humano, a busca por vida, a necessidade ter algo a mais, memórias e a empatia pelo próximo são tentáculos de um fio único, o que segura e preenche totalmente os personagens para seu fim, Blade Runner 2049 depende do passado, ele necessita continuar, mas não é totalmente preso ao que já foi posto em 82, fazendo assim um casamento perfeito entre o passado e o futuro, chegamos enfim ao presente. 

facebook comments:

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here