Em 1998 foi lançado Blade, o primeiro da leva de filmes baseados em personagens da Marvel. O filme protagonizado por Wesley Snipes foi barato e proporcionou um bom lucro para a New Line Cinema e para própria Marvel. Ciente dessa forma de obter lucros e passando por uma grande crise financeira a Marvel vendeu o direito de adaptações dos seus personagens para diversos estúdios: o Homem Aranha foi pra Sony, os X-men foram para a Fox junto com o Quarteto Fantástico e seu gigantesco universo. A Marvel se recuperou e com a compra da Disney em 2008 começou seu universo compartilhado com o que sobrou, é graças a essa divisão de direitos de adaptações que o filme do Homem Formiga saiu do papel assim como o do Doutor Estranho.

Em 1999 a Sony já pensava no primeiro filme do Homem Aranha, na época James Cameron iria assumir o projeto, depois nomes como Ang Lee e David Fincher foram sondados, Fincher até chegou a pensar em um filme não contando a história de origem de Peter Parker, mas sim relatando os eventos que levaram a morte de Gwen Stacy, o primeiro amor do Homem Aranha. A Sony negou roteiros e um ano depois, já em 2000, Sam Raimi assumiria o projeto e tomaria para si a responsabilidade de contar a história do maior herói da Marvel Comics.

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Ao assumir o projeto Sam Raimi, como um grande fã do personagem pensou em tudo. Raimi queria criar algo que deixasse clara a identidade que ele queria dar ao personagem e foi assim que a melancolia tomou conta da trilogia que se tornaria o melhor trabalho do diretor (e sim, eu estou considerando o terceiro filme).

O Peter Parker de Sam Raimi é melancólico. Tudo em sua volta se resume em seu abatimento social, Peter é um nerd derrotado que tira fotos para a escola em que estuda e tem um amor platônico por sua vizinha Mary Jane, Peter passaria horas a admirando sem dizer uma palavra. Em contraste com o melancólico Peter Parker somos apresentados a família Osborn, pai e filho sendo retratados de maneira cliché e funcional. Tudo no universo criado por Sam Raimi funciona, todos os fragmentos do roteiro inicial de James Cameron e David Koepp que foram aproveitados por Scott Rosenberg se encaixa na ideia de Sam Raimi para o Homem Aranha.

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O primeiro filme (2002) descobre o herói interior de Peter Parker, muito antes de se estabelecer como o Homem Aranha ele é apresentado ao significado do que é ser um herói. Com grandes poderes vem grandes responsabilidades, a metáfora usada no diálogo com o Tio Ben pouco antes de sua morte redefiniria todo o futuro do garoto tímido que ao ser picado por uma aranha adquire características que o tornam excepcional. E Peter falha, conhece o gosto da vingança e fica ainda mais melancólico, o melhor amigo saindo com a mulher que ele ama e o mundo desabando em suas costas quando o Duende Verde resolve aterrorizar Nova Iorque. Tudo isso acontecendo enquanto Peter sofre, carrega o peso de seu segredo e a culpa por ter abrido caminho para o assassino do tio, isso é o Homem Aranha do Sam Raimi que mesmo com toda responsabilidade ainda brinca enquanto salva J. Jonah Jameson no jornal. Homem Aranha é um clássico do cinema, sua proposta foi tão bem aceita que abriu caminho para a liberdade criativa de Sam Raimi na sequencia, Homem Aranha 2 (2004).

Homem Aranha 2 só é O MELHOR FILME DE SUPER HERÓIS JÁ FEITO, não existe e dificilmente vai existir algum filme do gênero que supere essa obra de arte. O mais próximo de Homem Aranha 2 é Batman: O Cavaleiro das Trevas, mas é necessário dizer que Nolan aplicou no seu Batman tudo o que Sam Raimi aplicou no Homem Aranha, são duas franquias imaginadas e pensadas para funcionarem em seus universos, franquias tão similares que decepcionam justamente no terceiro filme. Mas isso é assunto de outro parágrafo.

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Homem Aranha 2 explora o íntimo de seu protagonista e a importância de seus poderes. Peter ama Mary Jane, e isso constrói toda a narrativa do segundo filme, a importância desse amor é tanta que Peter abdica de viver esse amor para proteger a donzela de Sam Raimi. Kirsten Dunst interpreta a maior donzela dos filmes de super heróis e é excelente na proposta do filme, seus questionamentos e sua eterna insatisfação com Peter movem toda a narrativa da sequencia. Peter acorda todos os dias para proteger o amor que tem a Mary jane, ele está com ela todos os dias. Eles estão incrivelmente próximos e extremamente distantes. Mary Jane não entende isso e culpa Peter por não poder viver esse amor, ela não procura saber o porque desse afastamento e questiona o protagonista com desdém. Ela é uma donzela em perigo.

Em paralelo ao romance muito bem desenvolvido temos Harry Osborn que precisa se provar e coloca todas as suas fichas em Otto Gunther Octavius, um homem fiel demais a ciência que se perde em meio ao desejo de concretizar o seu sonho, Homem Aranha 2 é também um filme da ascensão e redenção de um grande vilão. Octopus enfrenta um Homem Aranha cheio de duvidas, receios, anseios e que ainda sofre com a falha de seus poderes e é ai que Sam Raimi repete sem escancarar na cara do público o que foi ensinado no filme anterior: com grandes poderes vem grandes responsabilidades. 

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Peter fica livre do Homem Aranha, ele acompanha a carreira de Mary Jane, não está mais atrasado e se imagina com um futuro promissor, ele volta a ser o aluno Nº 1. Mas as responsabilidades são grandes demais, Mary Jane continua como uma donzela em perigo, mas agora sem o companheiro de sempre para a salvar. O grande poeta brasileiro Paulo Leminski diz que problemas não se resolvem sozinhos, problemas tem família grande. E é exatamente isso que Homem Aranha 2 mostra, Nova Iorque precisa do cabeça de teia, ele é um simbolo e é o único protetor da cidade.

E o filme passeia pelos céus de Nova Iorque enquanto Octopus e Homem Aranha se enfrentam, o amigo da vizinhança daria sua vida, digo, abdicaria de sua vida por Nova Iorque. Ele morreria na MAIOR CENA DE HEROÍSMO DA HISTÓRIA DO CINEMA, ele daria sua vida por cada pessoa no trem, são as grandes responsabilidades de um herói. E o filme caminha com a revelação que abriria caminho para um grande terceiro filme, Harry descobrindo a identidade do Homem Aranha, com Mary jane entendendo o porque dos atrasos. E Octopus se redimindo em uma das cenas mais lindas de um filme do gênero. Homem Aranha 2 é uma obra de arte.

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Sam Raimi tinha idéias excelentes para o terceiro filme da sua trilogia, idéias que seriam adequadas para o seu Homem Aranha. Esse filme nunca saiu do papel, a Sony interferiu em toda a pré produção do filme e para não abandonar a sua franquia, seu universo e seu trabalho, Sam Raimi deu a cara a tapa e dirigiu Homem Aranha 3. É um filme avulso, não se encaixa no contexto apresentado pelos filmes anteriores, mas ainda sim diverte e se despede de Tobey Maguire, Kirsten Dunst e James Franco. Homem Aranha 3 não tem poder suficiente para me fazer odiar o Homem Aranha de Sam Raimi, pelo contrario, eu amo esse Homem Aranha e seu conceito. Amo sua melancolia e agradeço sempre que vejo os filmes, obrigada Sam Raimi. Eu os entendi.

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