Precisamos falar sobre Kevin, ainda mais depois de acompanhar a incrível adaptação cinematográfica do livro de Lionel Shriver, por Lynne Ramsay. 

2Eva (Tilda Swinton) é uma escritora de livros sobre viagens, que conhece o amor da sua vida ainda jovem. Logo na primeira cena, somos apresentados à personagem, mergulhada em um vermelho vivo de polpa de tomate, em uma comemoração tradicional de colheita na Itália. Um flashforward, e nos deparamos com a mesma Eva, dessa vez desolada e depressiva, com um olhar distante e solitária. Vivendo um drama, espera que suas impressões sobre seu filho, fruto de uma gravidez indesejada sejam equivocadas.

we-need-to-talk-about-kevinzsbdgwo
Nessa cena, Eva limpa a tinta vermelha que foi jogada em sua casa. Figurativamente, representa a mãe que precisa conviver com o erro do filho, e tenta “limpar a bagunça”

Tilda novamente dá um show em sua performance. Impossível não sentir a tensão que a atriz mostra durante o filme. Swinton consegue nos transmitir o mesmo peso e a mesma angústia que é vivida pela personagem durante a trama, e isso torna a experiência bem perturbadora e tensa, como deve ser.

Em meio a flashbacks e flashforwards, vemos no início do filme, Eva vivendo marginalizada e culpabilizada pela sociedade e por si mesma, por uma tragédia que só é esclarecida ao desenrolar do filme, onde Kevin (Ezra Miller) comete um massacre na escola em que estudava e assassina seu pai e sua irmã.

O filme deixa sempre um mistério durante a trama, começando com várias perguntas que o espectador se faz, até que ao final, a única que resta é: por quê?

A1o2ob5CYAAoGye_largeEva não desejava um filho em uma fase de sua vida, diferente de seu marido. O nascimento do primogênito leva a personagem a depressão, já mostrada logo após o parto, onde a personagem se encontra sentada na cama do hospital, com uma expressão de angustia, enquanto seu marido, Franklin (John C. Reilly), brinca com Kevin em seus braços.

O fardo que Eva parece sentir de sua gravidez se estende durante a criação de seu filho, desde bebê, quando não parava de chorar e a deixava a ponto de sentir conforto com o barulho infernal de uma britadeira, passando pelo sorriso forçado ao tentar uma brincadeira com o pequeno, até quando o garoto começa a crescer e a ouve dizer que era mais feliz antes de seu nascimento.

maxresdefault (2)Mas estamos tratando de algo muito mais complexo do que só uma depressão pós-parto. Durante uma hora e cinquenta e dois minutos, lidamos com a criação de um jovem não desejado pela mãe, em um ambiente tenso e com a negligência de seu pai diante dos atos de violência que cometia, incentivando-o até a prática de arco e flecha. Até porque “é o que os meninos fazem”.

Kevin, de personalidade forte durante os quatro estágios mostrados de sua vida, se torna cínico e dissimulado, sem empatia pelo mundo à sua volta, revelando sua verdadeira face somente para a mãe, que tenta alertar Franklin todo o tempo sem sucesso, deixando-a também violenta com seu filho. Chegamos ao ponto de Kevin ser o responsável por sua irmã perder um olho e matar o animal de estimação da mesma, somente pelo prazer de ver a reação de sua mãe. Eva e Franklin realmente precisavam falar sobre Kevin, desesperadamente. Eles estão presentes, mas não conseguem perceber as necessidades emocionais de seu filho. Predomina em nós a sensação de que o garoto só desejava o sofrimento da mãe, mas na verdade não ficam claros os motivos que o levaram a ter um comportamento tão doentio e sádico, que levam à complexidade da situação, com o relapso e inépcia dos pais.

precisamos-falar-sobre-o-kevin_capa
Para os médicos e psicólogos, Kevin era um garoto normal

É sabido que a presença da mãe na criação do filho é importante para sua formação, mas será que esse é o verdadeiro motivo para ele ter se tornado um sociopata? A rejeição de Eva durante a infância do garoto foi a responsável pelo rumo que ele tomou, mesmo com as incessantes tentativas da mesma de se reaproximar? A negligência paterna teve influência, mesmo com a falsidade de Kevin para com o pai? A dimensão dos traumas sofridos são diferentes para cada pessoa? Porque Kevin aparentemente não passou por nenhuma experiência tão traumática.

Percebemos a gravidade da tragédia que Kevin provocou, na medida em que quem passa pela sofrimento e exclusão social é sua mãe, que se culpa por uma suposta incapacidade materna. Mas é ela que se mantém ao lado do garoto, até a cena final, onde Kevin diz que já não consegue entender os motivos que o levaram à cometer tamanha atrocidade.

Ao final do filme, é impossível não sentir um peso enorme sobre o corpo. Somos expostos a uma carga emocional e uma tensão gigantesca, que reflete em nosso físico, mas nos leva a reflexão da importância de falar sobre nossos Kevins.


facebook comments:

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here