Quando a trilha sonora de Jóhann Jóhannsson embarcou a expressão chorosa de Amy Adams e o roteiro do filme dava uma inversão total nos conceitos apresentados em um desfecho memorável, eu só podia pensar em duas coisas: Os fundadores do Sci Fi estariam satisfeitos com Denis Villeneuve e Arrival é uma ponte.

Ficção Científica nunca foi somente histórias pra boi dormir, recheadas com uma ciência meio figurada em conceitos para o roteiro. Nunca foi somente  invasão alienígena como Independence Day e nunca foi Alienígenas que descem a Terra para se reproduzir com garotas no celeiro. A ficção científica matriz nasceu com o simples desejo de usar conceitos científicos em proposta ao nosso mundo. Simples.

E através da literatura, principalmente formada por Júlio Verne em seus conceitos iniciais em Viagem ao Centro da Terra e outros clássicos, a ficção científica criou uma rota pela linha do tempo do mundo. O que era famoso nos anos de 1816 e 1817 quando Mary Shelly escreveu Frankestein? Ciência Galvânica. E o que era famoso na década de 40 e 50 quando as revistas pulps e histórias de ficção científica simplistas começaram a nascer? O avanço espacial, a temível ideia de que não estávamos sozinhos e a derradeira questão do ser humano estudar outros lugares no espaço.

E em Arrival, Villeneuve só conduz uma ficção científica formidável ao ponto dramático mais perfeito capaz. Sem piegas, sem demonstrações e reforços de seus ideais e com um abalo cósmico de como nós, seres humanos, simples e com nossas vidas ligeiras podemos nos conectar com esse além. A Chegada faz jus aos antigos escritores e só abre um patamar maior para o futuro.

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Fotografia belíssima.

Literatura e Cinema  é tempo e história. Com o decorrer do tempo, fomos aprendendo novas coisas, Arthur C. Clarke, um dos maiores escritores de ficção científica da história, era um grande fã da presença extraterrestre no passado, o famoso alienígenas do passado nas suas raízes mais primevas, e esses conceitos se passaram para sua magnum opus, 2001:Uma Odisséia no Espaço. Asimov com seus robôs, H.G. Wells com suas invasões marcianas e viagens no tempo, tudo isso exaltou conceitos da época, mudanças daquela época. Hoje em dia temos Black Mirror, uma série de ficção científica e que fala justamente da nossa atualidade, tecnologia.

A Chegada nos transmite uma ponte entre esses dois mundos: a ficção do passado e um dramatismo presencial. Desde Contato (1997), baseado no livro de Carl Sagan, é raro encontrar uma história tão crua, fiel a nossa realidade, ao mesmo tempo fictícia e tão romântica e dramática. Arthur C. Clarke, Asimov, Philip K. Dick e até mesmo a viva Ursula K. Le Guin devem estar felizes com Arrival, é tudo que a ficção científica sempre quis provar, conceitos que não precisam totalmente de explicações, uma história humana levada a ciência e ficção e, por fim, todo um clima que eles sempre transmitiram em suas histórias mirabolantes.

Arrival é uma ficção científica que faz jus ao seus autores antigos, diretores antigos e histórias do passado. Finalmente é uma ponte entre o passado tão lustroso, com histórias tão grandiosas e fantásticas; com o presente, sentimental, forte, bruto, humano e muito temporal. É uma ponte que eu quero caminhar, e eu espero que você também.