Caros leitores, o dia 5 de novembro tomou uma proporção enorme para a cultura geek e nerd. Tornou-se impossível não lembrar da graphic novel V de vingança. Concluída em 1988, por Alan Moore e David Lloyd, a novel  iniciada e publicada entre os anos 1982 e 1983, lançava ao mundo uma distopia, retratada numa Inglaterra ditatorial no ano de 1998. A história tem como foco a trajetória de três personagens: O codinome V, homem com uma sede de vingança contra o Estado inglês, Evey Hammond, uma adolescente que terá sua história mudada profundamente pelo contato com o codinome V; e por fim o Estado inglês, personificado na figura do Alto Chanceler Adam Sutler. A trama de Moore e Lloyd tornou-se um fenômeno na cultura pop, por inúmeros motivos. No Brasil, alguns grupos utilizaram a máscara do Guy Fawkes como símbolo de luta e resistência ao governo durante as manifestações de 2014, contra o aumento das passagens, e as manifestações de 2016, contra o governo da presidenta Dilma Rousseff. O fato é que a repercussão do personagem “V”, permitiu essa reinterpretação histórica da máscara do Guy Fawkes, o Judas britânico, em Codinome V, o revolucionário.

Existem diversos elementos na HQ que ajudaram a popularizá-la, seja o debate político a respeito da liberdade do indivíduo, o limite do poder do estado ou o sujeito como ser ativo na história. Seja pela quantidade de referências que são trazidas ao longo da trama como George Orwell, William Shakespeare, Alexandre Dumas, Johann Wolfgang von Goethe entre tantos outros. Talvez o grande catalisador do sucesso de V de vingança seja a forma como toda a trama é movida e sustentada por todas essas referências.

Não seria possível falar da forma, sem tocar um pouco na obra. No primeiro capítulo, muito pequeno, mas nem um pouco simples, o leitor é inserido em uma espécie de teatro representado em uma HQ. Os primeiros diálogos e cenas parecem um plano de fundo para o momento em que os personagens centrais da trama possam entrar em cena. Tanto que os personagens estão se maquiando e se aprontando frente ao espelho para tomarem seu papel na vida, ou na trama. Esse conceito é bastante emblemático, pois carrega a ideia de que todos que fazem parte desse teatro têm força e poder para alterar a realidade, ou a trama da vida. As pessoas não são obrigadas a seguir cegamente a estrutura narrativa de suas realidades.


O título desse capítulo é outra das sutilezas da trama. Chamado de “O vilão”, essa primeira parte traz consigo a ambiguidade sobre o conceito de vilão, tendo em vista que esse texto discorre sobre a ideia de vilão como algo mau e sórdido em relação ao herói. Três situações de vilania são apresentadas ao leitor. A primeira situação é a prostituição de uma menor, que vive em um Estado onde as condições de vida acabaram forçando ela a buscar outros meios para sobreviver, mas o caro leitor pode se perguntar agora o por quê isso seria considerado uma vilania? A prostituição, historicamente, sempre existiu sobre o espectro da marginalidade social, por mais que sempre seja uma prática comum. A questão é que um dos mecanismos de marginalização da prostituição é que ela, vista pelo discurso da família tradicional, é uma ofensa à moral, aos bons costumes e a própria família, assim como é responsável também pelo descaminho dos homens. Nesse sentido a prostituição é a vilã de uma sociedade conservadora, sendo necessário que haja uma postura mais agressiva e punitiva frente ao ato, não importando quem seja o indivíduo, a idade ou a história de quem vive assim. Toda cena leva ao eterno questionamento de ação social: Julgar e punir ou compreender e solucionar? Ou seja, continuar punindo mulheres por caírem na necessidade de se prostituir ou criar condições de dignidade humana para que nunca seja necessário objetificar seus corpos?

A segunda situação apresentada sobre o aspecto da vilania são as pessoas a serviço do Estado, ou melhor, pessoas que fazem o uso deliberado do poder concedido pelo Estado. A primeira tentativa da Evey de realizar um programa acaba sendo frustrada, pois o primeiro cliente dela é um homem-dedo. A cena posterior deixa bem claro que a intenção desse homem-dedo não é apenas prendê-la, ele poderia fazer o que quisesse com ela, a expressão de horror da Evey dá a dimensão dos males que aconteceriam a ela. Um pouco antes disso, na primeira página, são mostrados cenários sempre com policiais orientando a população, cercas de arame farpado em meios urbanos e placas com os seguintes dizeres “é para sua proteção”.

Esse é o grande problema, o Estado ao conceder poderes a membros pontuais de uma sociedade a transforma em uma hierarquia, limitando os poderes de outros membros. Essa relação, por muitas vezes, acaba por fortalecer o poder de quem já tem, tornando outros membros dependentes desse poder ao mesmo tempo em que se tornam indefesos nessa relação. Em outras palavras, as ações que o homem dedo resolvesse usar como medidas punitivas contra a Evey seriam inquestionáveis, devido ao poder concedido pelo estado, ele é um micro cérebro da vontade do Estado. Nesse sentido o Estado torna-se o vilão, por submeter grande parte da sociedade a um jogo de poder no qual a “segurança” é pervertida em necessidades individuais de controle, em necessidades de manutenção dessa hierarquia, pelo exercício desregrado da repressão e da punição para com a população.

Por fim, a terceira situação de vilania é apresentada pelo personagem “V”. Saindo de seu esconderijo, usando a máscara de Guy Fawkes e vestes pretas, ele intervém nas ações do homem dedo, salva Evey e dá continuidade ao plano do personagem histórico de sua máscara, o conspirador (como retratado pela historiografia inglesa), explodindo o parlamento inglês. O plano do personagem histórico era explodir o parlamento junto com o Rei Jaime I no dia 5 de novembro de 1605. O plano foi abortado e Guy Fawkes tornou-se um elemento de consolidação do Reino Unido e também de escárnio, ao ponto que é pensado como um Judas, que visava entregar a Coroa aos espanhóis e a Roma. A retomada desse elemento subversivo à ordem das coisas, tem um peso enorme no questionamento sobre o que vem a ser um vilão. O “V”, nesse sentido, representa a contraposição a um determinado regime político e ideológico. Essa contraposição fará dele um elemento de caos, desordem, baderna e terrorismo. E que fará o possível para destruir a paz, a ordem e a segurança que o Estado dessa narrativa propõe. De uma forma muito sutil, o Moore e o Lloyd questionam o leitor, se somos dotados seres dotados de ação, essa capaz de alterar nossa realidade, se somos capazes de perceber os pontos que precisam ser mudados, por que intervir na realidade é algo digno de julgo e punição? Talvez a grande questão desse capítulo seja fazer o leitor perceber o que ele considera vilanesco, como ele percebe a relação entre a ação, a ideologia, perspectiva de presente e futuro. Por qual realidade vale a pena pensar a ação? E qual realidade é opressora e em que medida se é oprimido e por quem?

Esses são alguns dos convites de abertura em V de vingança, aproveitem esse dia para mergulhar em todo esse universo incrível criado pelo Alan Moore e pelo David Lloyd, que transitam entre o teatral, o histórico e o real de maneira impecável.

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