Baseada na distopia de Margaret Atwood, The Handmaid’s Tale é uma das gratas surpresas do ano e uma das provas que a televisão continua se renovando.

Poster da primeira temporada.

Ficção científica, distopias e ficções sugestivas são um prato cheio para críticas da nossa sociedade. Como um pensamento de senso comum desgastado (mas ainda permanente) esses ramos do cinema, da literatura e da televisão servem prontamente para a fuga, somos levados para naves espaciais, viagens no tempo ou o encontro com o desconhecido, mas muitas das vezes essas narrativas transmutam isso que é considerado o além para uma metáfora, o uso da ficção para denunciar, debater e explicar, Ursula K. LeGuin se considera uma mentirosa, uma das maiores autoras de ficção científica de todos os tempos toma a ficção científica como uma metáfora, uma descrição, The Handmaid’s Tale não é necessariamente uma previsão de um futuro próximo, não condena plenamente que nossos próximos anos serão assim, mas nos alerta dos perigos imensos que as sociedades sofrem e que poderão sofrer ainda mais.

Na nossa sociedade é assim: surge um grupo A para lutar por um algo, ao contrário disso vai surgir um grupo B para lutar contra o que foi posto pelo A, se chama democracia, mas muitas das vezes essa luta interminável não vai para lugar algum e só gera mais conflitos. Quando o feminismo se tornou uma pauta mais discutida em redes sociais e foi se tornando um tópico para conversa diária, também foi adquirindo ódio, inúmeras pessoas  que por manchetes, grupos ou supostos representantes do movimento começaram a criar um ódio imenso por um movimento inteiro e gigantesco, criando-se um embate extremamente negativo e mal qualificado. É mais ou menos assim que eu vejo a história apresentada na série, mas é claro que de forma bem mais abrupta, em um mundo que já tivemos grandes avanços, com mulheres na política, na ciência, no trabalho (no lugar onde ela quiser!) surge uma doença que causa a esterilização em grande parte das mulheres, ao mesmo tempo um golpe de estado dá fim a democracia e modifica os EUA para uma nação intitulada de Gilead, que teria a fé religiosa como principal fundamento para leis e modo de viver.

Nesse futuro bizarro, senão demoníaco, as poucas mulheres ainda férteis são intituladas de Aias, sequestradas, passadas por um treinamento (que é mais uma lavagem cerebral) e dadas para Comandantes, homens no poder, muita das vezes casados com mulheres inférteis, mas que planejam ter filhos, assim as Aias são estupradas constantemente em cerimônias com a presença do comandante e de sua esposa dita “oficial” e quando grávida e posteriormente dado a luz a criança vai para o casal, e a Aia é enviada para outra família. Respira fundo, sim, é horrível.

É possível destrinchar muita coisa de The Handmaid’s Tale, não só a maneira que as mulheres vão ser vistas naquela sociedade, mas também problemas políticos sérios, desastres ambientais, estado e religião, mas como foco principal da série as mulheres e a falta de direito delas começa a tomar forma. June é uma mulher comum, casada, tem uma filha e que trabalha normalmente até todas essas mudanças acontecerem, por ainda ser fértil, é tomada para o treinamento e a série inicia quando é enviada para sua primeira família. Se há um ponto crucial e alto da série é como contar a história de uma protagonista tão interessante como June em uma narrativa lúcida, mas ao mesmo tempo pessoal.

Esse contexto do pessoal toma forma quando acompanhamos vários momentos, a vida normal de June, sua tentativa de fugir do que acontecia, já sendo treinada e no presente, quando está se acostumando com a nova vida, as Aias não podem ler, falar alto, usam até mesmo um chapéu que cobre suas visões para seus mundos serem só elas mesmas e assim o vínculo emocional com a protagonista ganha força logo no primeiro episódio. Para qualquer SER HUMANO ver o sofrimento de um alguém naquela situação é arrebatador, e a narrativa visual da série auxilia bastante no quesito de vínculo com as personagens, além de ser uma história dolorosa a maneira como ela é contada é muito própria para isso, close-up bastante bem utilizados nas expressões, nos rostos das personagens, narrações in off da personagem, sempre acompanhando seus sentimentos, anseios, pensamentos, e obviamente sua história sendo contada desde o passado até para o presente, sua própria narrativa visual toma essa identidade, nós somos June.

E os outros aspectos técnicos são impecáveis, o roteiro embora seja comum se discorre de maneira muito interessante em construção de mundo e diversidades, sintetizando muito bem até mesmo nossa atualidade: personagens femininas que lutam por seus direitos, ao mesmo tempo mulheres que pretendem manter esse conservadorismo de suas posições, Aias que aceitam totalmente o que é posto para elas, há uma forte alusão com nossa realidade de maneira muito inteligente. Obviamente o roteiro é muito bem colocado com uma identidade visual estupenda, fotografia, paleta de cores, tudo é fantástico. E claro que as personagens não deixam a desejar, suas construções e humanidades (ou a falta delas) são muito bem trabalhados e atuados, Elizabeth Moss é uma protagonista única de forma tão forte que o vínculo emocional dito antes é instantâneo e sua atuação é um forte alicerce para isso, enfim, The Handmaid’s Tale é uma série dolorosa, mas ao mesmo tempo belíssima de se ver, por seus aspectos mais técnicos, empíricos, sensitivos e políticos, é uma série importante, para todos nós, não um alerta imediato, mas uma descrição: não só de um futuro hipotético, mas também de nossa atualidade.

NOLITE TE BASTARDES CARBORUNDORUM, BITCH!

OBS: O elenco é impecável, sério, uma atuação melhor que a outra

OBS1: A série é exibida por um serviço chamado Hulu, que vem produzindo umas boas séries

OBS2: Grande parte das atuações do episódios (a primeira temporada conta com dez) foram dirigidos por mulheres

OBS3: A série está sendo indicada para inúmeros Emmys, entre eles melhor série dramática, melhor atriz, melhor atriz coadjuvante, etc

OBS4: A escolha da trilha sonora da série é uma coisa de se chorar de tão boa, vai ter muuuuuitos hinos!

PISA MENOS!

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