Lá em 2015, quando eu estava assistindo a Quinta Temporada de Game Of Thrones, eu cheguei a comentar no twitter sobre como eu estava desgostando do rumo que a série estava tomando, principalmente com todo o caso do estupro da Sansa, e como a série simplesmente estava inventando coisas somente para tentar emular as decisões de George R.R. Martin em seus livros. E nossa, como hoje em dia eu queria que eles tivessem continuado assim. Voltei a assistir a série depois do episódio da Batalha dos Bastardos, por que em meu coração, eu aceitei que a série era um universo paralelo aos livros, porém atualmente, nem ser um Universo Paralelo salva Game Of Thrones do seu pior vilão. A relação Série/Público.

Mesmo com um roteiro questionável, Game Of Thrones continua ganhando cada vez mais audiência e se pavimentando como a maior série de todos os tempos. Porém, em seu Sétimo Ano, a série, como eu mencionei em meu último texto que eu fiz aqui no Retalho, a série sofre duras críticas de quem se preocupa em estudar sobre os conceitos de uma série, sobre como funciona roteiro, e tudo mais, quem se dispõe a ter um olho crítico a fazer um review da série. Porém, o principal inimigo disso, são a legião de fãs que não aceitam que sua obra seja criticada, tal qual um fã de Walking Dead ou de algum filme da DC ou da Marvel, as pessoas atualmente aceitam qualquer migalha vindo de Game Of Thrones, que se transformou em mais um blockbuster sem cor, somente focando no fator “diversão” e sem se preocupar em trazer uma trama envolvente e que te faça sentir tensão pelos personagens como em seus últimos anos.

Tudo bem, a história está caminhando para seu final na série, porém ainda assim fica difícil de não esperar que os produtores tenham um feeling do Martin e consigam nos pegar de surpresa. Nos últimos episódios, a única morte realmente impactante foi do já muito esperado Mindinho, que mais uma vez, soou como uma “recompensa” para os fãs, dando a eles algo que eles sempre quiseram ver. E é isso que Game Of Thrones faz nessa temporada. Servir seus fãs e não servir a sua própria história. É sempre mais interessante para nós, vermos o que nós “queremos” assistir. Se as pessoas querem Jon Snow e Daenerys Targaryen juntos, vamos dar isso a eles, não? E é nisso que a série se rende aos caprichos dos fãs (e dos produtores), em transformar tudo em uma grande novela, um grande espetáculo que caminha para seu final feliz sem se preocupar mais em entregar intrigas, reviravoltas, esquemas e articulações como na maioria dos seus anos. E agora, com a morte de Mindinho, o único que parecia ainda tentar jogar um jogo dos tronos, a série caminha para o final de contos de fadas que todos esperam. Jon Snow, o preferido da galera, ganhando a legitimidade Targaryen, inventada pela série, para dar ao queridinho dos fãs o Trono de Ferro quando sua verdadeira origem for revelada por Samwell Tarly e Bran Stark, que o farão com toda certeza no próximo ano. E é nisso que a série se tornou. Simplesmente um monte de momentos para agradar o público inteiro da série. O mesmo público que ficou chocado e revoltado com o Casamento Vermelho, agora defende Game Of Thrones por entregar a solução mais simples, a situação mais confortável para os fãs. Os mesmos fãs que não se importavam em ficar desconfortáveis caso seu personagem preferido morre, e faziam piadas sobre isso, afinal, é Game Of Thrones.

Acredite, eu não acho que o fator diversão tenha que ser negado a todos nós, muito pelo o contrário. Eu até gostei bastante de ver a morte do Mindinho e finalmente ver aquele filho da mãe pagando pelo o que ele merecia. Porém, infelizmente, quando paramos para pensar em um todo, a morte dele é só uma no mar de marasmo que a série se tornou no momento. Quando em momentos de tensão no último episódio, achamos que Jaime Lannister ou Tyrion morreriam pelas mãos de Gregor Clegane, A Montanha, para satisfazer as tiranias da cada vez mais louca Cersei Lannister, a série hesita, é claro, pois nós não podemos matar os personagens preferidos da galera. E é isso que me frustra na série.

Eu não ligo da série nos entregar o que nós queremos, acredite. Talvez se não soasse tão forçado e tão roteiro água com açúcar, eu relevaria o romance em Jon e Daenerys. Porém, a forma como tudo está sendo levado na série, mostra que os produtores só querem simplesmente entregar o final mais ok possível, com medo de transformar Game Of Thrones na nova Lost dessa geração. Porém, é nesse medo de decepcionar os fãs, que a série perde sua identidade. E não tem nada mais triste que ver uma série perdendo sua essência simplesmente para poder agradar seu público. Imagine, se no final de Breaking Bad, Walter White sobrevivesse e milagrosamente não tivesse mais câncer, e então partisse para uma vida feliz ao lado de Skyler. É esse tipo de sentimento que Game Of Thrones está colocando em todos nós, e começou aos poucos, não só nessa sétima temporada, mas desde a Quinta, quando a série começou a se desvirtuar dos trilhos do que Martin traçou para ela (e coincidentemente, depois que ele brigou com os produtores acerca do retorno de Catelyn Stark como Lady Stonehearth) e só prova que sem o idealizador do Universo, muitas vezes a obra perde sua essência e acaba virando um espelho vazio do que ela era. Diferente de Star Wars, por exemplo, aonde a ausência da influência de George Lucas fez com que O Despertar da Força fosse espetacular, principalmente por se agarrar (até demais) nas obras originais em vez de ousar como foram nos Episódios I, II e III e acabar perdendo a magia do que era Star Wars. Game Of Thrones trilha o mesmo caminho, cada vez mais se tornando um produto comum de fantasia, e não a série que nos fazia sentir medo a cada segundo pelos nossos personagens favoritos.

Martin uma vez disse que não gosta de colocar vilões ou heróis em suas obras, por que isso faz com que as pessoas não se apeguem aos seus personagens, sabendo que se o herói corre perigo, ele irá se safar, afinal, é o herói. E é isso que a série agora nos proporciona. Jon Snow virou o herói da moçada, tendo cada vez mais Deuses Ex-Machinas o salvando do perigo, afinal que baita GPS o Uncle Benjen possui para sentir quando o Jon está em perigo e correr para salvá-lo, não? E é esse tipo de coisa, apesar de na hora, qualquer fã pule e vibre, não condiz com a história em nenhum ponto. Além disso, perdemos um puta personagem bacana por que alguém precisava salvar Jon de bancar mais uma vez, o herói da galera. E é nisso que a série está se tornando, um blockbuster, uma história de mocinho contra o grande vilão. E é nisso que a série se perde na sua premissa original, e acaba por me fazer sentir um gosto amargo quando eu assisto a série.

Você pode vir pra mim e dizer “Faz melhor, seu lixo! Então para de assistir, seu merda! Mimi, eu gostei, eu achei bom então é BOM!” beleza, você pode achar a série boa. Tem gente que ama Esquadrão Suicida e o Coringa do Jared Leto. Gosto é que nem bunda, cada um tem a sua. E acredite, de coração, eu não ligo se você gosta do rumo que a série tomou, eu só sinto pena que algo que eu gostava tanto, tenha se tornado mais um tipo de entretenimento genérico que temos por aí. Essa semana, eu comecei a assistir Rick and Morty (que inclusive se quiserem posso escrever sobre) e vi o quão genial um roteiro pode ser, mesmo de uma série animada. E me entristece ver que Game Of Thrones não me cativa mais quanto as aventuras que Rick e Morty passam. É como ver aquela pessoa que você amava se tornando alguém diferente, e ao mesmo tempo que você enxerga as falhas dela, você não deixa de tentar defendê-la de tudo o que a criticam. E é assim que eu enxergo a maioria das pessoas que assistem GoT atualmente. E acredite, eu entendo vocês com todo o meu coração.

E acreditem, eu não vou entrar nas minuciosidades como a série validando o casamento de Rhaegar Targaryen e Lyanna Stark como se fosse algo fofinho e digno de um conto de fadas, se esquecendo que Elia Martell fora deixada para morrer por Rhaegar com seus dois filhos, Rhaenys e Aegon (Sim, a série fez questão de usar o mesmo nome no Jon. Meu deus.) Targaryen para morrer e sua “ex mulher” ser estuprada pelo Montanha logo após ser morta. Ou vocês esqueceram as palavras de Oberyn Martell ao lutar contra Gregor Clegane? Transformar uma relação ultra complicada em algo digno de final de um conto de fadas me soa estranho, sendo dentro do universo violento e cheio de sangue e intrigas que temos. Mas infelizmente, como eu falei no título do texto. Game Of Thrones virou um blockbuster. Fácil de compreender, de visual incrível e cheio de espetáculo, porém sem nenhuma polidez além disso. De uma joia da cultura pop/nerd/geek, Game Of Thrones virou aquela bijuteria folheada a ouro, que até é bonita, mas não tem o mesmo brilho do ouro verdadeiro.

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