Ao apresentar minha ideia de fazer um texto de introdução as resenhas das obras de Clive Staples Lewis e John Ronald Reuel Tolkien, no conselho do Retalho, surgiu em meio a discussão a ideia de criar uma coluna, o Retalhando Autores, onde sempre traremos mais informações sobre dois autores que possuem alguma ligação, desvendando a história por trás de gênios da literatura, quando a ideia se desenvolveu já havia começado a escrever o texto portanto se fez necessário essa pequena apresentação.

Decidi me impor um grande desafio: resenhar Tolkien e C. S. Lewis, começando pelo último, pois com ele me sinto mais confortável. As Crônicas de Nárnia são, sem sombra de dúvida, uma das maiores obras de fantasia de todos os tempos. Escritas, inegavelmente, para educar as crianças, encontramos nas obras de C. S. Lewis lições valorosas e inquestionáveis.

Mas precisamos falar sobre Nárnia e seu significado, como também precisamos falar da genialidade do autor e também do desafio de resenhar clássicos, este é um post de explicação e, sobretudo, antecipação.

Verdade é que Tolkien e Lewis eram amigos muito próximos e que faziam parte do Inklings, um clube de escritores que funcionava informalmente. Formado por escritores apaixonados por histórias antigas, pelo mundo medieval e pela fantasia, as reuniões aconteciam em um pub. Deste clube surgiram duas terras fantásticas que até hoje fascinam milhões de leitores de todo mundo em razão de sua genialidade: a Terra-Média e Nárnia.

Sobre C. S. Lewis:

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Cabe falar primeiro de C. S. Lewis, aquele a quem me dispus resenhar antes, criado nas tradições cristãs se rebelou durante a adolescência tornando-se ateu. Por influência e persistência do amigo Tolkien, voltou a professar a fé cristã, mas continuando na religião anglicana, que defendeu arduamente, até sua morte.

Foi professor universitário na Faculdade de Língua Inglesa da Universidade de Oxford, dedicou-se ao estudo da literatura medieval e renascentista, em 1950 publicou o primeiro livro da série As Crônicas de Nárnia: O leão, a feiticeira e o guarda-roupa.  Ele não parou em Nárnia, quase 40 livros publicados e todos eles apresentando uma forte ligação com sua fé cristã, como a Trilogia Espacial. Inclusive, foi um dos primeiros a ler por completo O Hobbit e teve grande influência para que Tolkien escrevesse a trilogia O Senhor dos Anéis.

O que mais fascina em Nárnia, é a gritante alusão ao cristianismo, inclusive na figura de Aslam, que seria nada menos que Jesus, o leão da tribo de Judá. Os ensinamentos de Aslam e a importância das crianças humanas intituladas de filhos de Adão e filhas de Eva, trazem a mente passagens bíblicas como: Jesus, porém, chamando as crianças para junto de si, ordenou: “Deixai vir a mim os pequeninos e não os impeçais; pois o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a eles” (Lucas 18:16). O sacrifício de Aslam no livro O leão, a feiticeira e o guarda-roupa, para salvar o traidor Edmundo, fazem alusão ao sacrifico de Jesus por toda a humanidade.

As alusões ao cristianismo são para engradecer a mitologia por trás do mundo de Nárnia, verdade é que se você foi criado em um berço cristão, manteve ou não a fé, ou nem sequer chegou a conhecê-la, não se sentirá confuso com as alusões. Estas demonstram que Lewis se esforçou para passar o ensino mais importante e profundo do Cristianismo, que por vezes tem sido deturpado pelas organizações que dizem professar tal fé, ele ensina o amor, aquele que Jesus pregou, de amar ao próximo como a ti mesmo.

Apesar de não ser cristã senti certa emoção ao identificar essas e outras referências nos livros, pois elas demonstram que o autor se preocupou em ensinar as crianças deixando lições para os adultos e acabou criando um universo de alusões sutis que permitem que leitores despercebidos não se atentem para tais ensinamentos.

Sobre Tolkien:

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O mais renomado e cultuado escritor da cultura geek mundial, foi filólogo, professor universitário, estudioso da linga anglo-saxã. Seus trabalhos com linguística contribuiu para que criasse o venerado universo da Terra-Média.

O primeiro livro a apresentar esse universo fantástico foi O Hobbit, que teve grande sucesso e recorde de vendas, de acordo com o escritor “um dos alunos deixou uma das páginas em branco – possivelmente a melhor coisa que poderia ocorrer a um examinador – e eu escrevi nela: Em um buraco no chão vivia um hobbit, não sabia e não sei por quê”. Após dois anos e meio o escritor voltou a trabalhar na obra, mas a abandonou na metade, após a leitura desta por uma amiga foi encorajado a termina-la.

O livro se tornou um sucesso e foi pressionado a escrever mais, através disto nasceu O Silmarillion, o que o autor considerou sua obra prima, mas até hoje é a menos famosa, porém seu editor não queria somente mais obras sobre a Terra-Média e sim sobre os Hobbits, recusando-se a publicar, apesar disso Tolkien continuou a escrever.

Perfeccionista, Tolkien levou 12 anos para concluir a aclamada trilogia O Senhor dos Anéis, que na verdade seria um único volume, mas por questão de custos foi dividida, somente após os anos 1960 que sua obra de fato alcançou grande sucesso, quando foi conhecida por universitários norte-americanos.

Sobre os livros de Tolkien cabe relatar que, apesar das comparações e do exposto sobre Nárnia, o universo criado por seu amigo e já mencionado anteriormente, ele se esforçou durante muito tempo e em muitos escritos para afastar as alegorias e alusões de sua obra com sua fé cristã. Ele era católico devoto, em razão das circunstâncias da morte da mãe, vitima da intolerância e do conflito religioso entre católicos e anglicanos na Inglaterra. Apesar de tratar de conflitos como a luta do bem contra o mal, da luz contra as trevas, o autor sempre negou que se tratasse de alusões aos ensinamentos cristãos, na verdade, na gostava das alusões e alegorias, motivo pelo qual foi um grande crítico da obra As Crônicas de Nárnia de seu amigo C. S. Lewis.

Apesar do Condado (Shire), ter sido inspirado em Sarehole, zona rural de Brimingham e a própria Birmingham, onde começou seus estudos, relatos do autor demonstram seu desinteresse por alusões, ele explica que apesar de ter lutado na Primeira Guerra Mundial, a guerra que ocorre no Senhor dos Anéis não tem nenhuma semelhança com a guerra que lutou e que não colocou em suas obras nenhuma de suas inclinações pessoais.

A importância de Tolkien, a maior delas, mas não a única, foi sem dúvida o fato de inaugurar um novo tipo de literatura de ficção, a literatura fantástica, abrindo caminhos para que novos autores também criassem seus mundos fantásticos como J. K Rowling, C. S. Lewis e outros.

Meus agradecimentos a Lorena Schveper.

Fontes Consultadas sobre C. S. Lewis:

C. S Lewis – DRZEUS – C. S. Lewis Site – Explore Faith – C. S. Lewis Org – Biography – C. S. Lewis – BBC – UK

Fontes Consultadas sobre Tolkien:

Tolkien Library –Tolkien Society – Biography – J. R. R. Tolkien – Britannica

 

  • Adelber

    Que legal ! Gostei bastante da coluna. Eu particularmente tenho mais contato do mundo Tolkien, porém o que conheço de Nárnia já é possível para compreender o quanto impressionantemente mágica é a série. Um autor criar uma ótima história a ponto de resgatar os verdadeiros valores cristãos em analogia das figuras de Jesus Cristo, Deus e Aslam é louvável. Conforme salientado por seu texto é uma pena que tais valores tenham se perdido ao longo do tempo e grande parte do que é passado pelos “profetas” hoje mais ofusca esses valores do que os prosperam. É por isso que Nárnia deve ser para sempre admirado, ainda que a pessoa não tenha acesso, ligação ou até mesmo interesse para com o cristianismo, o leitor de Nárnia irá extrair princípios de amor ao próximo que deveriam ser ensinados para a massa pelas instituições religiosas. Como vemos que isso não acontece hoje, apenas uma obra fantástica desta consegue conquistar tantos leitores (de diferentes idades e culturas) e ensinar lições tão importantes ao mesmo tempo.

    • HortenciaD

      Referências sutis que podem as vezes passarem despercebidas, mas são muito valiosas, obrigada pelo comentário 🙂