É quase sempre muito difícil transmitir ao leitor a bagagem emocional que um drama trás para o autor do artigo, eu poderia escrever uma série de reviews sobre cada episódio da atual temporada de Orange Is The New Black e ficaria por isso mesmo, mais uma série analisada no site. Mas dessa vez eu não consigo, a comédia dramática da Netflix me destruiu. É preciso falar sobre a quarta temporada de Orange Is The New Black, ela é cruel.

ALERTA DE SPOILERS 

A quarta temporada de Orange Is The New Black é traiçoeira, ela te manipula durante dez episódios e te destrói nos capítulos seguintes, você é pego de surpresa imerso na trama cuidadosamente trabalhada para te enganar enquanto te conquista. Os primeiros episódios encerram alguns plots deixados pela temporada passada e até desiste de alguns possíveis caminhos que poderiam ter sido tomados. Crazy Eyes não desenvolve um romance, longe disso, Alex não desaparece, mas rende uma ótima história com Lolly, enquanto Piper se torna cada vez mais insuportável. Cada trama cuidadosamente trabalhada, os flashbacks desviando a atenção do espectador da verdadeira história da temporada, o protagonista de Orange Is The New Black nesse ano foi o Diretor Caputo, um homem bom em um mundo de pessoas ruins.

Caputo sempre se doou para Litchfield mais do que qualquer outro funcionário, seja por interesse ou não. O crescimento do personagem nas duas ultimas temporadas é visível e seu desespero ao se imaginar falhando com a prisão é digno de pena, em um momento de desespero o personagem contrata novos guardas e dispensa quase todos os anteriores e é ai que Orange Is The New Black começa a brincar com os sentimentos de quem a acompanha. Os novos guardas são abusivos e criam todo um clima pesado na prisão, o roteiro então separa as detentas em gangues tribais e para cada uma há um guarda tornando tudo em Litchfield mais difícil.

O abuso sexual que foi tratado na temporada passado é colocado de lado e assim a trama se desenvolve indo mais fundo na mente doentia dos guardas sob o comando de Piscatella com “S”. Entre os abusos que foram retratados pelo show se destacam o filhote de rato vivo que foi ingerido por Maritza, Blanca sendo humilhada perante todo o presídio tendo que ficar de pé no refeitório suja com a própria urina, Red sendo obrigada a trabalhar em excesso, a série induz seu o público a despertar em si próprio o ódio que cresce em suas personagens. O espectador quer se rebelar, certos episódios dessa temporada deixaram um gosto ruim na minha boca e essa era a intenção.

Tanto ódio acumulado prepara terreno para um grande finale, com direito a cliffhanger digno das séries dos anos 90, mas antes disso e propositalmente em meio ao ódio existe o amor. Orange Is The New Black reaproxima Alex e Piper e trabalha um lindo romance entre Poussey e Soso, um casal improvável que funcionou muito bem durante a temporada. O perdão também foi um tema da temporada, Tiffany “Pennsatucky” Doggett perdoou o abuso que sofreu na temporada anterior, é a Netflix ensinando que ainda existe amor em Litchfield. O amor de uma mãe ao tentar recomeçar sua vida fora da prisão, o amor de uma Morello tão carente que se apega a loucuras de uma mente fraca para anular sua triste realidade, amor de um misógino como Sam Healy que se encontra em uma frágil e vulnerável Lolly, Orange Is The New Black alimentou seu público com diversas formas de amar e sem pena alguma tirou isso em sua reta final. Todo o amor cai por terra em questão de minutos, o final do episódio 12 da quarta temporada te destrói, te joga no chão ao lado do corpo frágil de Poussey.

Ela pesava 41kg, estava em Litchfield com uma pena branda, era filha de um militar. Ele era um guarda novo, praticamente um menino, era bom demais para Litchfield e o próprio Caputo sabia disso, ele a matou. Foi aplicado cerca de 25kg de pressão sobre o seu peito enquanto uma descontrolada Crazy Eyes estava sobre o guarda Bayley, Poussey estava morta. O episódio seguinte, Toast Can’t Never Be Bread te faz passar uma noite em Nova Iorque com Poussey como companhia, a cidade das luzes ofuscantes dava mais brilho a personagem que tinha toda uma vida pela frente. Toast Can’t Never Be Bread é um divisor de águas para a série, ele busca a justiça que não existe em Litchfield, ao final do episódio Taystee liberta em todas as detentas a raiva acumulada por cada guarda sob o comando de Piscatella, culpa de um Caputo desnorteado e derrotado por um sistema que só visa o lucro.

Eles nem citaram o nome dela, Poussey agora é o símbolo de uma Litchfield em guerra. E as luzes de Nova Iorque refletem no sorriso do último frame da temporada, a despedida de Poussey, Orange Is The New Black é cruel. A série te prepara, te agrada e te derrota no final de sua espetacular quarta temporada, talvez a premiere fosse uma aviso. Crazy Eyes cita João e Maria e a casa de doces que os atraíram para a Bruxa, que os alimenta antes de os assar, o fatídico final da temporada de Orange Is The New Black se opõe ao final do conto, ele não é um final de temporada feliz.

Treze episódios que comprovam a qualidade de Orange Is The New Black como comédia e drama, muito mais madura e complexa a série prova que tem muito o que mostrar nos próximos anos, são no minimo mais três, e a Netflix não tem pressa, talvez nem precise ter.

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REVIEW OVERVIEW
ROTEIRO
ELENCO
DIREÇÃO
TRILHA SONORA
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