O que é essa nova era? 

Acima de tudo, o que é esse mundo? 

Todas essas questões são tão bem abordadas, mas tão perfeitamente complexas e profundas nos dez episódios de Mr. Robot que toda essa loucura em torno dessa série é louvável. Essa primeira temporada que gira em torno de Elliot, um jovem hacker que vive com seus medos e dramas interiores em um mundo atual, totalmente tragado por uma corporação global nos traz uma concepção do que é uma série de maneira muito brusca e violenta. Séries vem e vão, mas Mr. Robot é um fenômeno para ficar. Mr. R não fala só de Elliot, que vive em sua vida monótona no maior estilo do protagonista de Clube da Luta, fala da globalização, fala desse mundo que a gente vive, que todos os dias temos que aturar. E que mundo horrível.

Elliot é um personagem para se identificar. De cara somos apresentados aquela figura esquisita, Elliot usa capuz todas as vezes que anda na rua, parece deslocado em qualquer lugar, ele não aparenta estar se sentindo bem em lugar algum. E Elliot é um hacker, um feiticeiro dessa nova época. No passado, principalmente em eras mais bárbaras, feiticeiros eram vistos como figuras que praticavam a magia, faziam feitiços… E Elliot é um feiticeiro da globalização, um feiticeiro capitalista. Hoje em dia a tecnologia comanda tudo, desde nossas contas bancárias até nossos dados pessoais, corporações, metrópoles vigiadas por drones, vigílias 24 horas através de webcams e celulares e outros milhões de modos de observação, como se vivêssemos em um Big Brother de uma distopia estatal. Elliot é um feiticeiro todo bagunçado, destruído por dentro e acabado por fora, trabalha na Allsafe, uma empresa de segurança de dados e também tem uma psicologia complexa, o contraste de sua não humanidade metafórica e essa ânsia de desvendar e invadir a vida das pessoas é muito bem abordada na série. A internet acima de tudo é uma ferramenta muito grotesca, é através dela que há comunicação, mas quem garante que é real? Quem garante que a pessoa atrás daquela tela é a mesma na vida real, ou se aquela pessoa ao menos existe? Mr. Robot desvenda isso, Elliot é o guerreiro que nos leva para essa cruzada. Uma cruzada cibernética extremamente excessiva.

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Elliot pega metrô. E narra sua vida para nós. Esse recurso é grandioso, Mr. Robot acerta de cheio nessa programação. Elliot se refere ao telespectador como um amigo imaginário, durante toda a série ele está conversando conosco, é impossível destacar como Elliot é um personagem com quem se identificar ou admirar. Ele é reflexivo, anti-social, é uma figura única nessa nova era, vivemos em um mundo de empresas gigantescas que controlam as eleições, o estado e enquanto distopias tratam do futuro opressor, Mr. Robot nos dá um tapa na cara do presente, não é “Veja o que acontece no futuro…” é o “Olha o que tá acontecendo agora!”, Elliot é um guia grandioso nessa jornada, e essa jornada começa em um metrô. Elliot sempre acredita estar sendo vigiado por agentes, e então ele conhece um homem, simples, um homem. Afinal hoje em dia não conseguimos distinguir tanto, não é? Trabalhador, Operário… Ele é um homem, que leva Elliot para um fliperama e lá junto com figuras diferentes e iguais a Elliot nesse conhecimento computacional formam uma sociedade hacker, que planeja dar um golpe na Evil Corp, a maior corporação mundial e livrar o mundo das dívidas. Livrar o mundo de homens e mulheres que tomaram as rédeas do mundo e instalar finalmente uma distopia regida a um grupo anárquico.

Mr. Robot então desse ponto cai como um trenó em um imenso monte de neve. Os personagens vão aparecendo, pontos vão se amarrando e os roteiros dos episódios são deleite puro, diálogos dos personagens e acima de tudo as falas do ponto de vista de Elliot são muito fortes, a reflexão do personagem, as suas mudanças e esses medos internos direcionam-se realmente para você, a vida de Elliot gira em torno de você e ela está em perigo, em movimento, ou está feliz… São esses bugs que tornam Mr. Robot tão pura e melancólica, pessimista e infeliz, Mr. Robot é uma série de reflexão que te espanta e espanca. Sobretudo Mr. Robot fala sobre existência.

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Você acorda todos os dias, cansado, mas vive uma razão, estudar, termina seus estudos e talvez vive sobre a pressão de como prosseguir com a vida. Estuda mais, faz faculdade, trabalha, ônibus, metros, são somente polos de pessoas assim, conjuntos de jovens que se matam todos os dias por problemas assim. Para viver assim até a velhice, até o momento que nossas pernas cansarem e tombarem. As corporações e grandes empresas ainda estarão lá, organismos globais também, Mr. Robot traz uma filosofia psicológica dessa razão anti mercadológica, não é uma crítica da sociedade capitalista, mas do excesso dessas corporações, Mr. Robot passa em um veículo assim, é uma contradição? Talvez. Mr. R é extremamente maluca. Sua direção é grandiosa, a fotografia é um dos aspectos mais bonitos com todo um clima meio morto e cinzento e uma habitação extremamente fácil e atuações dignas de Emmy, com personagens cativantes, uma história muito fluída e pragmatizada e episódios recheados de plot twists e momentos marcantes.

Séries são feitas disso, momentos marcantes e uma história esplendorosa. A primeira temporada de Mr. Robot não peca em nenhum episódio, essa história tem um começo, um meio… E bem, não sei bem se é um fim. Afinal Mr. Robot traz uma inovação animalesca em sua reta final, é mais similar a fenômenos extremamente quebra cabeças da indústria cinematográfica e com isso encanta e de uma forma visionária cria algo forte, concreto. Sua primeira temporada acerta de uma maneira estupenda, impecavelmente traz um sucesso estrondoso para a televisão. O Senhor Robô ainda tem muito para dar, com sua segunda temporada finalizada e planos futuros vindo aí. Elliot está entre nós, os feiticeiros do dia a dia, que nos vigiam, que nos escutam e podem estar atrás dessas telas.

Quem garante se eu não sou um deles?

 

REVIEW OVERVIEW
ROTEIRO
10
ELENCO
10
DIREÇÃO
10
TRILHA SONORA
9
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15 anos, apaixonado por cinema, séries de TV, documentários, tudo e qualquer obra áudio visual. Facebook: https://www.facebook.com/henriquesidle