A internet não sabe falar de outra coisa a não ser a música “Só Surubinha de Leve“, do Mc Diguinho, que causou polêmica por conta da seguinte frase: Taca Bebida, depois taca a “pica”  e depois joga na rua. A música chegou a 14 milhões de visualizações no YouTube e chegou a aparecer na primeira posição das mais virais do Spotify, o que veio acompanhado de um enorme ódio das pessoas contra o Mc, e também contra a música, o que ocasionou na remoção dela do aplicativo de música.

Antes de tudo, eu sou contra a música e não apoio nem um pouco com a apologia de estupro que ela faz, e principalmente com a postura que o cantor teve no seu Twitter, mostrando apoio à sua “obra” e justificando com comentários homofóbicos. E eu também era a favor da remoção da música e dos comentários o atacando, até perceber que estava dentro de um episódio de Black Mirror.

Se você não assiste a série ou não chegou no final da terceira temporada, eu resumirei o porque. No episódio Hated in the Nation, a jornalista Jo Powers é condenada de todos os meios possíveis por conta de um artigo em que condenava um suicídio. A maioria das pessoas concordaram em fazer um abaixo-assinado para que ela fosse demitida e uma hashtag foi subida no Twitter pedindo a sua morte. Se você acha que os casos não parecidos por conta que não há pedidos para a extinção do Mc, procure Mc Diguinho morra, e olhe o que tem por lá.

Dado o fato, o que podemos dizer sobre o caso é: Nossa, isso é tão Brack Miuor meu. Charlie Brooker, nesse episódio, mostra que as pessoas não estão realmente interessadas em fazer justiça por aquilo que parece certo. Em uma das cenas, uma mulher é questionada do porque ter encomendado um bolo e ter postado uma mensagem ofensiva a Jo Powers, e ela simplesmente diz que a mensagem era um jogo, sem nada demais. Esse jogo depois ocasionaria na morte da jornalista, por uma abelha-drone que é ativadas com um determinado número de hashtags. Ao invés das pessoas se assustarem, elas se sentem incentivadas a continuar com esses ataques.

Trazendo isso para o contexto do nosso mundo, será que existe mesmo uma profunda insatisfação com a música, ou apenas estamos querendo reprimir alguém por conta do seu gênero musical ou popularidade? Afinal, convenhamos que apesar de hoje o Funk ser mais bem visto pela sociedade, existe muito preconceito com o gênero, sendo marginalizado e visto como o único entre todos contendo apologia a sexo e drogas. Atacar um cantor que não tem uma fama, seria uma das maneiras mais válidas de se sentir prazeroso por estar finalmente atacando o gênero que odeia.

Diguinho é nada mais que uma folha de um problema que possui uma raiz muito mais embaixo. Em um dos tweets, o Mc diz que aquela era “a realidade da favela“. Por mais que ele alegue ser falso, infelizmente, a realidade é essa mesmo. Dentro dessa sociedade, muitos garotos sentem a necessidade desde jovens de se provar serem “machos alfa”, porque caso contrário, eles acabariam sendo vistos como homossexuais, então a partir dessa necessidade, a mulher acaba se tornando objetificada. Ao passar dos anos, isso vai se tornando algo fora do controle e começa a se tornar algo normal fazer de tudo em troca de sexo. É uma realidade triste e sombria.

Mas estamos apenas olhando para a música. Remover do Spotify não fará com que ela seja removida da internet. Vá para uma comunidade e você verá alguém ouvindo e concordando com tudo que está sendo dito. Mas ai não é mais problema daquele que está vivendo em um bairro bom, desde que aquela música não esteja mais disponível para alguém da sua região ouvir, está tudo ótimo. Mas esteja preparado para que nos próximos anos, outros Mc’s surjam da favela, com letras parecidas e a mesma polêmica virá a tona novamente. Ignore o problema real e depois veja ele te atacando.

No final de Hated in The Nation, é descoberto que todos os tweets com a hashtag do jogo, estavam sendo arquivados para que depois, as abelhas-drone atacassem todos que fizeram o comentário, eliminando milhares de pessoas de uma só vez. Ninguém se preocupou com o motivo das mortes estarem acontecendo, elas queriam apenas ver uma justiça que se escondia atrás de um problema maior. Talvez se ninguém tivesse perdido o foco, nada disso teria acontecido.

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