Division Bell: sino parlamentar inglês que ressoa quando as discussões e as argumentações e as opiniões se divergem entre os parlamentares, culminado em uma votação. The Division Bell é também o nome de um dos vários consagrados álbuns do Pink Floyd que encontra sua força matriz na comunicação (ou na falta dela). No disco, lançado em 1994, os toques pontualizados do sino se refletem na ideia de que a conversação é o melhor modo de resolver qualquer tipo de objeção. Com letras e ritmos progressivos banhados em psicodelia, o Pink Floyd alcançou a perfilhação mundial através de um experimentalismo autêntico levado ao pé da letra desde seus primórdios. Um dos nomes mais pesados da história do rock, a louca genialidade de suas composições ecoa pelo mundo até hoje, estourando em milhares de tímpanos todos os dias.

Marooned, um dos mais belos instrumentais já feitos pela banda e um dos vários apogeus de The Division Bell, é um convite à reflexão, que nos chega através de acordes melancólicos e nos mostra com perfeita dicção a solidão de quem vive distante e sozinho em uma ilha. Retrata de forma visceral e quase visível o proveito de uma vida recolhida em uma dessas ilhotas, as mesmas nas quais, muitas vezes, nos vemos à contra gosto. Traçada pelo cantas das gaivotas e pelo som das ondas se arrebentando, ela nos inquieta. Afinal, como sobrevivemos nesses pedaços de terra imersos em lugar nenhum?

Sua composição é feita por um entristecido David Gilmour com sua guitarra enérgica, tocando a solidão de quem está preso, distante e sozinho em uma ilha cercada por um mar de dúvidas, complementado pela tristeza de morte teclada por um cansado Richard Wright. Quantos de nós, nesse exato momento, não estão sozinhos pelo puro desejo? A compreensão da solidão como um sofrimento, seja por escolha, consequente ou mesmo penitente, aos olhos societários é uma análise que vem fundamentada quase que inteiramente em Freud. Essa sensação é também um ato quase calculado de refúgio próprio, um encolhimento em nome de uma salvação ao mundo próprio. Está alinhado ao conceito de solidão uma compreensão freudiana sobre o desamparo, condição inata ao ser humano. A propensão ao desejo e ao olhar do outro faz do prazer um perigo quando a própria vontade é anulada com base no julgamento alheio. Não sabendo viver sem aprovação dos demais, a solidão se torna impossível.

Assim, irrompe a tristeza sufocante e a angústia infindável da própria companhia, com o “eu” desacoplado de sua idealização de grupo ou mesmo de relacionamento. Aquele incapaz de lidar com a desafiante natureza humana, tomando forma através da solidão e do desamparo, acaba se unindo a pessoas e ambientes apenas para sentir o calor humano outra vez. Porém, o frio de uma nevasca atinge mesmo as manadas. Sentir-se só em meio a multidão também acontece. Somos seres solitários, afinal, incapazes de partilhar sensações e experiencias com tantos outros. A partir do instante estalido que vêm de nossas vivências e percepções que percebemos o mundo. É uma visão tão singular que jamais poderá ser dividida.

Do peso de nos sentirmos como em uma cidade abandonada podemos aprender a carregar nosso existencialismo, testar a flexibilidade dos limites e assumir algumas responsabilidades pela falta que nós fazemos a nós mesmos. Perceber, em meio a um exílio, a densidade do ser é um caminho rumado ou a uma balsa que nos tira da condição de náufragos ou a um afogamento evocativo de eventual ponto final. O universo interior é fortalecido quando, sozinhos, nos damos conta de que a companhia alheia é mero complemento, pois já somos inteiros, e mesmo que feitos de retalhos, estamos cheios de metades.

Só se encontra o “amar alguém” quando a própria solidão deixa de ser um encosto. Como é possível, afinal, cuidar e respeitar o companheiro se antes não há o cuidado e o respeito com si mesmo? Surge a falta de auto aceitação. E como não culpar o outro por nosso próprio desamparo se apostamos nela toda a felicidade da qual dispomos? A busca incessante pelo preenchimento dos vários e variados vazios encontra-se em um eco sussurrado por toda a existência, encontrando um possível apogeu na tecnologia e sua romântica promessa de acabar com toda e qualquer distância. Com um deslizar de dedos, entramos em contato com um amigo, um parente e com a falsa ideia de que a solidão nunca mais nos encontrará. Assim tomam forma os reféns dos meios de comunicação, viciados na falha tentativa de viver em uma conexão com quem nos ama, nos aprova e nos acolhe. É como ver um avião e correr pra garranchar um “S.O.S” na areia que jamais será visitada por qualquer um dos passageiros à bordo.

Como é possível escolher ser um à parte e seguir à parte em meio a globalização que discursa veemente que andar em bando é ter sucesso? Como permitir ao outro ter seu espaço em um mundo que cumpre as profecias de George Orwell de uma sociedade vigiada por um onipresente Grande Irmão? O respiro em uma vida temporariamente isolada é fundamental à uma condição de recuperação de traumas e mesmo de um conhecimento pessoal maior. Tal qual o universo que nos serve de cenário à existência, o universo que existe e coexiste em nós é igualmente infinito, com uma montagem espiral que espera pra ser recuperada em memórias e descoberta em pensamentos. É uma vivência que não pode ser explicada, pois qualquer frase é limitada.

É necessário convívio com o ser em si para, depois, aprender a conviver com a própria solidão. O vazio é inevitável. Afastá-lo nos tornaria desconhecidos de nós mesmos e, me valendo dos versos de Kauffman em sua mente sem lembranças, é um desperdício passar tanto tempo com uma pessoa apenas para descobrir que ela é uma estranha. Majoritariamente, o vazio toma completude quando se perde algo que pode ser chamado de amado e que abala nossos alicerces. Assim começam as crises e as duvidas recheadas de existencialismo com doses de indagações remetentes a filosofia de bar, que só podem ser superadas com um auto investimento de cuidado consigo mesmo, que se convertem no chamado e tão comentado “amor-próprio”.

É ele também a origem de todos os outros amores, pois a única companhia que não podemos perder é a de nós mesmos. Se não há o apoio que vem de fora ou a externalização de divisivas importantes, podemos sempre celebrar a nossa capacidade de decisão ao invés de sucumbir às necessidades de tudo aquilo que vem de fora.

Atravessar as avessas cortinas de sermos um é o marco zero de qualquer jornada de autoconhecimento, fundamental para a evolução desde a criação do universo. Existir sendo um desconhecido de si é um fardo pesado demais. Clamar na discrição pela aceitação implica em muito na rejeição, pois na falta de um acolhimento exponencial, que com o tempo se mostrará insuficiente, o enfraquecido fio de amor próprio é incapaz de gritar mais alto e fechar os buracos ainda abertos.

Estudar e compreender a si mesmo é estabelecer de forma estável e poderosa uma conexão constante com quem somos, quem éramos e quem seremos. Assumir o controle emocional, assumir limites e as dissonâncias com o mundo é são alguns dos vários os módulos da aprendizagem solitária e serena. Serenidade que nos traz contentamento, completude e segurança, mesmo em uma ilha de solidões, cujo único som que se ouve é o de uma gaivota cantando enquanto faz seu passeio matutino buscando respostas em um mar de dúvidas.

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