PS: se você não assistiu Lost esse texto vai ser confuso. 

Tony Soprano, Walter White e Don Draper, os três maiores protagonistas da TV. Personagens fortes e de caráter duvidoso, simpáticos e carismáticos ao máximo, eles modelaram a televisão como é hoje (Leia mais), mas em meio aos grandes existe um protagonista falho que é tão complexo quanto os reis da TV, Jack Shepard, o homem sem fé.

Lost é um marco para a televisão, a sci fi mais complexa que o mundo teve o prazer de acompanhar, mérito de JJ Abrams e Damon Lindelof. Lost é a morada de dois dos maiores personagens da ficção cientifica contemporânea, John Locke e Jack Shepard. Fé e razão. Os dois personagens em questão são a chave para o entendimento de toda a mitologia que envolve a misteriosa Ilha em que o Oceanic 815 caiu; Locke é o homem de fé que diz que a Ilha é um lugar especial; enquanto Jack é o homem da razão que procura na lógica a explicação para o inexplicável.

E é sobre Jack que vou falar, o homem que quer salvar a si mesmo usando o manto de um herói. O lobo vestido de cordeiro. Logo no Pilot é Jack que salva a todos, ele tira uma grávida do meio dos escombros e ajuda todo mundo, Jack é um médico excelente. Em meio a um desastre é ele que toma a liderança, ele dá a cara a tapa e não aceita não cumprir esse papel, mas ele só quer salvar a si mesmo. Em meio a três episódios conturbados é em Walkabout que surge o primeiro embate entre a razão de Jack e a fé de Locke, o episódio é marcado por duas frases que guiam Lost até o seu séries finale. John quer caçar javalis, ele quer alimentar o povo enquanto Jack pede um racionamento de comida que nunca vai dar certo, Locke quer uma solução imediata enquanto Jack pensa a longo prazo.

Não me diga o que eu não posso fazer. É John Locke ficando diante ao milagre de poder andar, sua fé o salvou quando o avião caiu. Viva junto, morra sozinho. Jack quer sair da ilha, mas não vai conseguir isso sozinho, ele precisa de pessoas em que não confia, ele crê na unidade em vida para o seu bem maior. Jack estava errado, muito errado. Walkabout é o episódio chave para compreender a tão complicada Lost, foi nesse episódio que a fé de John Locke derrotou a razão de Jack Shepard.

Ao final de Walkabout, John chega com um javali morto e alimenta os sobreviventes do voo 815, alimentados eles fazem uma cerimonia para os mortos e Jack faz seu discurso, um líder nato, o salvador. Após o quarto episódio a série se desenvolve e descobrimos que Jack vem de uma família nobre, seu pai é um alcoólatra que comanda um hospital e muito intocável o filho de Christian Shepard repudia as atitudes do pai, mas é Christian que leva Jack a Austrália e consequentemente o leva até a Ilha. É com a visão do pai que Jack encontra uma nascente de água, ele acreditou na visão que deu de beber ao seu povo. Faltava Fé, Fé essa que os salvou. Ao final da primeira temporada enquanto Jack estava preocupado em salvar Boone, Locke procurava uma resposta, e o homem de fé grita para para a Ilha. O que você quer de mim! Eu não entendo! E a Ilha responde, a escotilha se ilumina, era a fé de Locke e a razão de Jack encerrando a genial primeira temporada.

As temporadas seguintes seguem esse embate, o sobrenatural não convencia o filho de Christian Shepard de que onde ele estava era um lugar especial, o inexplicável não era o suficiente para um homem refém da razão. E só na terceira temporada vemos o homem sem fé padecendo em meio ao mundo exterior, Jack conseguiu pela razão sair da Ilha, mas precisou de fé para conseguir voltar. NÓS TEMOS QUE VOLTAR! Jack esbraveja no sensacional final da terceira temporada, desolado e desacreditado, mas agora como um homem de fé. E é só no voo de volta para a Ilha que Jack se rende ao arrependimento por ter falhado com John Locke, o homem que morreu pela sua fé.

E nas duas temporadas finais Lost nos entrega um Jack que morreria pela Ilha, um Jack que morreria por aqueles que deixou para trás, o filho de Cristian Shepard presencia o que Locke presenciou na primeira temporada assim que acordou na praia, e se dá conta de que é lindo. Em White Rabbit John, o homem de fé diz:

Eu olhei dentro dos olhos dessa ilha. E o que eu vi era lindo.

A fé de John o salvou logo no pilot, enquanto a razão de Jack retardou sua vida, o fazendo presenciar sacrifícios não necessários. Tudo que foi vivenciado em Lost é o efeito dominó da falta de fé de Jack Shepard, o homem que acreditava morrer sozinho, mas em The End é confirmado aquilo que Walkabout já havia ensinado há muito tempo, pelas palavras de Christian Shepard:

Todo mundo morre, algum dia, filho. Alguns antes de você, outros muito depois de você. Este é o lugar que vocês todos fizeram juntos para que pudessem encontrar uns aos outros. A parte mais importante da sua vida foi a parte que você passou com essas pessoas. É por isso que todos vocês estão aqui. Ninguém morre sozinho, Jack. Você precisava deles e eles precisavam de você.

E o sorriso de Jack Shepard ao encontrar John Locke na igreja diz tudo, o caminho percorrido, os embates intensos que terminaram no mesmo lugar. Locke abriu o caminho para que Jack pudesse ter fé, a fé de Locke o salvou. É Lost sendo incrível, e principalmente, sendo simplista. Lost é uma série sobre fé.

Todas as temporadas de Lost estão disponíveis na Netflix