De acordo com Jeanne Marie Gagnebin, quando trata do conceito de crítica com o qual Walter Benjamin trabalha, diz que “se a obra é um ponto de partida da crítica, ela é também o seu fim”, referindo-se ao trabalho de Benjamin e sua metodologia de crítica ao barroco alemão. A crítica na concepção de Benjamin, deve ser muito além do significado imediato daquela obra, mas também de sua contextualização histórica, de seu significado enquanto produção histórica e diretamente ligada ao subjetivo de seu autor, carregando assim não apenas sua ideia principal, caso seja ficcional, mas também a visão de mundo, ideologias e ideias de seu autor, além de em certos casos carregarem metáforas ou críticas à sociedade vigente durante a sua produção, sendo esse um dos principais motivos pelos quais a crítica deve resgatar os valores contemporâneos à obra que será analisada, de forma a compreender todos os significados, tanto os óbvios quanto os ocultos.

Ao longo do tempo, com a revolução nos meios de comunicação, vários gêneros de ficção surgiram, especialmente com o advento do surgimento do cinema, rádio e a propagação dos meios de comunicação de massa, como a televisão e um pouco depois, a internet. No entanto, um dos gêneros ficcionais, que surgiu em meados do século XIX, foi o das histórias em quadrinhos. A princípio apenas com finalidades humorísticas e/ou satíricas, as histórias em quadrinhos tiveram um destaque em jornais, tendo depois revistas especializadas, principalmente nos Estados Unidos, onde o pioneirismo é dado a Richard Felton Outcault, com seu “the yellow kid”, de 1896, e em alguns anos, foi-se criando um novo gênero ficcional, que mais tarde viria a cair no gosto infantil, e depois seria alvo de diversas controvérsias. Tais conflitos à parte, é inegável que tais histórias, embora possuíssem o intuito de apenas divertir, carregavam uma bagagem histórico-cultural muito forte, além de um leve posicionamento político, sobretudo durante os períodos da Segunda Guerra Mundial e da Guerra Fria. Após a segunda metade do século XX, as histórias passaram a ser mais diversificadas, e diversos autores de HQs consagraram-se com histórias intrínsecas e complexas (a exemplo de Neil Gailman com seu Sandman), ou com personagens populares e que se tornaram ícones extremamente populares que continuam em voga até hoje, embora sejam sempre reinventados (como o Superman de Jerry Siegel, o Batman de Bob Kane ou o Homem Aranha de Stan Lee).

Dentro do universo de um dos mais famosos super-heróis de HQs, o Batman, esse trabalho busca fazer uma análise crítica da trajetória de uma das personagens, Harley Quinn, relacionando sua história e desenvolvimento como personagem à teoria da loucura de Michel Foucault, na ótica da crítica benjaminiana.

 

No universo das Histórias em Quadrinhos, um dos países que já possui esse gênero literário quase como uma tradição são os Estados Unidos, cujo mercado de HQs atualmente é dominado por várias grandes empresas, sendo uma das mais famosas, a DC comics, com personagens emblemáticos como Superman, Batman, Lanterna Verde e Mulher Maravilha. Cada super-herói possui um universo próprio, geralmente cidades fictícias, com vilões (superpoderosos ou não). Dentro da DC, um dos universos mais conhecidos e com vilões mais complexos talvez seja o universo Batman, e um de seus vilões mais famosos é o Joker (coringa, na adaptação para o português), criado em 1940 por Bob Kane, como um bandido fracassado, que após cair num tanque de ácido enlouquece e assume a identidade do “palhaço do crime” como torna-se conhecido, revelando-se um bom estrategista e de ações imprevisíveis, que executa catástrofes na fictícia cidade de Gotham, embora sempre com um toque de humor sarcástico. Em 1992, Paul Dini inspirou-se em uma atriz para criar uma personagem que serviria como amante do Joker, e assim nasceu a primeira versão da Harley Quinn (Arlequina na adaptação para o português).

Paul Dini teria se inspirado na personagem da atriz Arleen Sorkin (que futuramente veio a dublar Harley Quinn numa série animada do Batman), na novela Days of our lives, onde a mesma representaria um bobo da corte, fazendo com que Dini relacionasse-a ao Joker e criasse o primeiro traje da personagem, além da personalidade da mesma. Várias teorias dentro do Universo DC explicam o surgimento de Harley Quinn, no entanto será apresentada aqui a teoria ilustrada em forma de flahsback nas revistas Esquadrão Suicida #06 e Esquadrão Suicida #07, escritas por Adam Glass e Clayton Henry, em 2011. Após ser presa e posta em uma prisão de segurança máxima, Harley recebe uma proposta de se unir a um grupo de vilões como ela, e fazer missões secretas de alto risco, com o intuito de ter alguns anos diminuídos de sua pena. Ao término de uma dessas missões, ela descobre que o Joker havia sido supostamente morto e a única lembrança dele seria seu rosto, que havia sido arrancado e estava trancafiado dentro do departamento de polícia de Gotham City. Após um surto, ela foge para lá, e um time do Esquadrão Suicida é designado para trazê-la de volta à prisão, na tentativa de evitar que ela causasse problemas à cidade ou que revelasse informações sobre o esquadrão. Em Gotham, Harley tem flashbacks rememorando seus primeiros encontros com o Coringa, até tornar-se criminosa.

Seu nome verdadeiro é Harleen Frances Quinzel, psiquiatra recém formada, e que chega ao Asilo Arkham, instituição psiquiátrica que tenta recuperar vilões e criminosos altamente perigosos, com a missão de tratar o Joker e ressocializá-lo. A princípio, seu método de abordagem é o método Freudiano de retroceder e buscar no passado do Joker os motivos que o levaram à sua situação atual, no entanto esse método não parece surtir efeito, então ela analisa sua carreira criminológica e teoriza que todos os crimes bem arquitetados e com um toque extremamente sarcástico e caótico são maneiras que o Joker encontra de exercer o controle sobre uma determinada situação. Joker a percebe como alguém diferente da maioria dos outros psiquiatras, além de decidida, e a Dra. Harleen por sua vez vê nele um paciente excepcional. No entanto, a relação médico-paciente acaba se intensificando, e na décima sessão de tratamento, Joker acaba por revelar que pesquisou a vida de Quinzel, incluindo a morte de seu pai em um acidente de trânsito, que ele acaba por “vingar”, de certa forma.

Com o passar do tempo, a Dra Harleen vai desenvolvendo sentimentos amorosos pelo Joker, o que é transcrito em seus relatórios sobre o paciente. Sua supervisora a repreende, e revela que usava suas anotações com a intenção de escrever um livro. Nesse momento, Harleen surta e agride a doutora com tapas e cacos de vidro, chegando até a atirar num policial que ouviu o barulho da briga. Após esse surto, ela liberta o Joker e os dois seguem em direção à indústria química onde o Joker caíra num tanque de ácido e se tornara ensandecido. Harleen, levemente arrependida de suas ações no Arkham, pensa em voltar e assumir a culpa pelo crime, mas acaba sendo jogada no tanque de ácido em que ele havia sido, anos antes, transformado no palhaço do crime. Como consequência, Harleen se transforma, tanto fisicamente, quanto mentalmente, torna-se insana e intensa, e essa é sua mudança de Harleen Quinzel para Harley Quinn, que embora insana, violenta e extremamente devotada ao Joker, possui uma inteligência e raciocínio impressionantes, chegando a ser um gênio, além da enorme desenvoltura física enquanto ginasta.

Analisando-se a obra sob a ótica de Foucault, podemos perceber que o tanque  poderia ser uma alegoria à ideia de um marco entre o rompimento com as regras sociais e a explicitação da loucura como válvula de escape e de controle. “A loucura era o teatro do mundo” (Foucault, 1972, p. 147), é uma citação que pode ilustrar essa metamorfose. A loucura tanto da Harley quanto do Joker, pode ainda ser compreendida como uma recusa a se impor em padrões pressupostos pela sociedade, uma negação aos fatos sociais que se impunham aos indivíduos, a busca pelo poder por meio da negação do poder preexistente, como citado pelo próprio Joker: “uma vez que eu não me importasse com as regras, eu tinha todo o poder”.

Ainda em relação à transformação de Harleen em Harley, pode-se fazer uma ponte com um conto de terror do século XIX, o médico e o monstro, no qual as duas figuras (Dr. Hyde e o monstro) se alternam e coexistem dentro de um só corpo, assim como Harleen e Harley, o que se torna compreensível quando ela ataca a supervisora, num acesso de loucura que ainda segundo Foucault, pode-se dizer “foi absorvida numa presença difusa, sem signos manifestos, fora do mundo sensível e no reino secreto de uma razão universal”(Foucault, 1978, cap 6). Conclui-se então que não é o Joker que transforma Harleen, mas sim lhe abre os caminhos e a leva a libertar a própria loucura por meio do desligamento das amarras sociais.

 

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