O velho senhor pedia esmolas, na calçada ele sentia frio e fome. Seus agasalhos não eram fortes o bastante para nutrir sua necessidade de calor, seus cabelos esbranquiçados caíam em uma cascata abaixo de seu boné, era um homem faminto e ele se perguntava o por quê. Nascera em uma cidade extremamente pobre, sua infância foi baseada em uma alimentação escassa, muitas vezes passou fome. Seu ensino era precário, não teve educação, não teve nenhum tipo de aprendizado. Cresceu estúpido, procurou um emprego de carroceiro, passou muitos anos vivendo naquela maneira até sua mãe morrer, ele foi para a cidade grande, falavam de uma tal de Ditadura e ele pouco entendia ou queria saber sobre aquilo. Não conseguiu emprego, em todos os lugares pedia-se um tal de ensino superior, ele nem sabia o que era isso. O mais triste nas noites de fome era ouvir os cochichos em sua mente do que pensavam sobre ele.

“Vagabundo, não trabalha por que não quer…”

“Olha aquele preguiçoso. Qualquer um arruma emprego, isso aí é vitimismo”

“Quer dormir de barriga cheia e não trabalha?”

Vivendo por catar papelão ele passou longos anos com uma alimentação baixa, sem esposa, sem filhos, morando em albergues e quitinetes. Aos quarenta já estava cansado, às vezes caminhava longas estradas para encontrar uma cidade melhor, mas nunca a encontrara. Até ficar doente, passou alguns dias na rua por não poder mais catar papelão e ficou cada vez pior, seus cabelos cresceram, sua fraqueza era grande. Passava fome há vários dias, e ainda cismava em escutar as pessoas falarem.

“Se qualquer um tiver força de vontade pode vencer na vida”

E passou alguns meses, pedindo esmolas, tentando sobreviver. Até melhorar, foi a um hospital “público”, esperou longas horas e não aconteceu nada, por fim foi expulso por não poder pagar a despesa. Voltou ao carrinho de papelão, catou por mais anos até ficar velho, não poder andar tanto pelas ruas daquela cidade grande que agora marchava sob o ritmo de cisões.

“Você é vermelho ou azul?!” 

Ele se perguntava o que era aquilo. Até certo dia que ele não aguentou mais, deixou seu carrinho em um ferro velho e conseguiu alguns trocados, foi o primeiro café da manhã que ele pode comer manteiga há anos, e então ele passou a pedir esmola, deitado em um cobertor em uma calçada. Naquele dia ele estava com frio, era inverno, uma fina camada cinzenta estava sob o ar. Alguns executivos passavam, algumas crianças e então ele observou algo, uma figura única.

Um homem de terno, bem trajado, de pasta e segurando um telefone. Aquele homem era velho como ele, mas parecia tão bem, parecia tão forte… E então ele se perguntou o por quê, se aquele mundo era tão inteligente, tão sabido em tantas coisas que ele não compreendia, o por quê daquilo.

Ele iria morrer de fome, enquanto outros vomitavam dinheiro por todo buraco do corpo.

Era um mundo adorável, ele pensou.

Adorável para morrer.

 

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