Não é fácil ler quadrinhos, essa é a verdade. Centenas de revistas mensais de vários heróis, várias sagas, vários acontecimentos, opa, ele morreu, droga, ele voltou. Não é fácil começar desde a Era de Ouro dos quadrinhos e chegar até as atuais, ou seja, boas histórias precisam se destacar, fechadas, prontas. Preacher de Garth Ennis e Steve Dillon é um prato cheio de destacamentos, primeiro por pertencer a linha Vertigo e ter uma história extremamente original (ênfase no original), é um retrato perfeito da doentia mente do escritor, e tentando sintetizar tudo de forma resumida, por que não descrever Preacher com uma citação?

Memoravelmente descrita pelo velho infame Dave Gibons como “desnecessária” e pelo editor-chefe da Marvel, Joe Quesada, como “uma boa leitura pra uma cagada”.

E eles não estão errados, Preacher não é nenhum Victor Hugo, Shakespeare ou Jane Austen, nem precisa ser, tampouco está perto dos grandes renomados escritores de quadrinhos, não tem blocos repletos de falas e filosofias de seus personagens, Preacher é aquilo mesmo, uma boa leitura para uma cagada, é simples, é inovador, é original e tem um roteiro tão grosso e difuso que nos transporta para um realismo sem escalas.

Cassidy.

A Caminho do Texas é o primeiro volume dos nove publicados pela Panini e que compõem o que Preacher é, esses nove volumes englobam todas as edições publicadas alguns anos atrás e giram em torno de Jesse Custer, como o nome o denuncia, Jesse é o protagonista e é um pastor. É em A Caminho do Texas que tudo começa, logo de início percebemos que Jesse não é um pastor comum, mas um homem que aparenta que nunca foi realmente um pastor, ele de cara fala todos os pecados e segredos das pessoas em um bar da sua cidade e é surrado, com isso Jesse na Igreja emite um sermão poderoso e edificante e de repente, uma entidade mística invade o corpo de Jesse em pleno sermão e a igreja explode,  causando com que todos os seus devotos morram e Jesse é o único a sobreviver.

E ao mesmo tempo disso, uma figura do passado de Jesse também estava por perto, Tulip uma assassina de aluguel tenta fazer mais um dos trabalhos até tudo dar errado e ser auxiliada por uma  certa figura de óculos chamada de Cassidy, que dorme pelo dia e não morre com balas na cabeça. É tudo tão rápido, estranho, cômico e ao mesmo tempo dramático que Preacher fica até singular, talvez todos esses acontecimentos girem em torno da primeira dezena de páginas do volume um, Preacher é imprevisível, e se eu continuar a contar com toda certeza vocês futuros leitores vão perder a incrível experiência de como é desvendar cada detalhe.

Jesse Custer.

A trama geral gira em torno disso, Jesse Custer após ser atacado por essa entidade mística nomeada de Gênesis adquiri certos poderes, enquanto Tulip e Cassidy também entram nessa jornada totalmente sanguinária e repleta de referências a cultura pop.

O roteiro de Garth Ennis é original, essa é a verdade, uma entidade mística que se apossa de um pastor com um passado estranho enquanto várias outras tramas surge não se vê todos os dias, mas sua narrativa em si é bastante lúcida e simples, Preacher tem um palavreado simples, tem bastante xingamentos, bastante conotações sexuais e tudo isso deixa a leitura mais leve, é como se fosse um grande pulp dos anos 60, repleta de sacanagens e histórias mirabolantes, talvez Preacher seja mais ou menos isso, e de certa forma não desmerece de forma alguma o trabalho de Garth, é interessante, é estranho, mas ao mesmo tempo corrido. Preacher é completamente maluca, só assim para conseguirmos descrever.

Steve Dillon faz um bom trabalho, e fica aí, bom, minha relação com Dillon é um tanto estranha, mas ao todo Preacher segue muito bem com sua arte, certos momentos são marcantes, os personagens tem um visual bastante humano e suas presenças são extremamente singulares durante o quadrinho, como se tivesse uma equipe de criação de figurinos para todos eles, Jesse com sua batina, Cassidy com sua roupa de um irlandês beberrão, um atirador do faroeste com um misto do morto e do vivo e uma coloração muito agradável, talvez o maior problema de Dillon seja as repetições de face, o mesmo uso de rostos em diferentes personagens o que satura e cria certa confusão, como se ele não fosse capaz de criar novos rostos, fora isso o trabalho é excelente.

A Caminho do Texas em si é um volume inicial prazeroso e uma entrada perfeita para Preacher, ou para até mesmo novos leitores de quadrinhos, é bastante humana e suja, é  adulta e ao mesmo tempo cria um clima narrativo muito peculiar, é original e um tanto nostálgica, Preacher é um quadrinho muito estranho, e só assim que eu posso descrevê-la.

A estranheza de Preacher é seu melhor aspecto.