A terceira temporada de Black Mirror talvez tenha sido o maior impacto tanto visual como histórico que simples seis episódios de áudio visual possam ter sido feitos em uma série de televisão. Lançados hoje pelo serviço de streaming Netflix, a série prossegue sua linha de qualidade e suas histórias totalmente diferentes, em tempos e universos diversos e com toda certeza continua criando suas reflexões e críticas do mundo ao redor. Enquanto suas duas temporadas anteriores davam um enfoque sobre o perigo da tecnologia em relação a sociedade e ao ser humano, essa terceira temporada inova em trazer a humanidade ao bel prazer para a tela. A tecnologia ao excesso é um perigo, mas e o ser humano?

Felicidade, Decisões, Vidas Pessoais, Realidades, Mentiras e Lições. Cada aspecto desse é abordado especialmente em cada episódio e todos eles estão em ambos os seis. É difícil falar algo sobre Black Mirror diante a grandiosidade que seu roteiro expressa e como suas histórias não devem de forma alguma serem estragadas por comentários prévios, mas através de pequenos comentários podemos tecer toda uma linha de pensamento em torno do que essa terceira temporada trouxe de novo. A felicidade de seu primeiro episódio gira em torno de nossas vidas, dos momentos que perdemos, da necessidade grotesca que talvez nós ou os outros tem de criar uma carcaça tecnológica em relação a sua vida. Seu primeiro episódio que acompanha uma sociedade que vive a mercê de pontuações criadas por outras pessoas e qualquer tipo de compra ou relações que se nutre na sociedade vive em base daquelas pontuações só forma a visão deturpada do que temos por hoje em dia de popularidade, de bens, de ser alguém. Afinal, o que é ser um alguém? No maior estilo de Philip K. Dick no seu futuro distópico onde ter um animal real (não sintético) era ser um socialite, Nosedive é gentil até demais, segue o que Black Mirror quer e ao mesmo tempo relaciona a humanidade naquelas engrenagens.

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Enquanto Nosedive fala sobre felicidade, Playtest investe na megalomania de suas decisões, um viajante americano vai em um chamado de emprego onde ele testaria um novo videogame. Essas decisões da vida podem causar dinheiro, fama ou o pior dia da sua vida, traumas e futuras percas de sanidade, decisões feitas de necessidade são assim e Playtest ainda por cima só embarca na canoa das realidades simuladas, dos problemas que vivemos em enxergar muito mais o que está entre nossos óculos e celulares do que o nosso mundo real.

Shut up and Dance só desafia nossos sensos de vidas pessoais quando nos presenteia a visão de um adolescente que é gravado em momentos pessoais e é espancado com as mensagens de um anônimo ameaçando-o com que se o mesmo não fizesse tudo que a figura misteriosa ditasse, seu momento pessoal seria lançado ao mundo. Não em fofocas, debates e afins, mas em registros em vídeo. É assim que um dos maiores ápices de Black Mirror chega ao telespectador, é nesse ponto que a terceira temporada embarca a fundo das relações humanas com a tecnologia. O computador sozinho, o celular sozinho, eles não fazem mal algum. As pontuações, o videogame… Nada disso. Armas não matam pessoas sozinhas, nem computadores. Pessoas fazem isso. BM embriaga todos nós com esses três episódios que conversam entre si e protegem-se do famoso comentário que Charlie Brooker odeia a tecnologia e sempre colocou que ela é um mal.

Em ficções científicas  o computador se revolta, a internet, a tecnologia, ela é maldosa.

Em Black Mirror, nós somos e o mal.

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E então em meio a tantos debates filosóficos e sociais, San Junipero finalmente nos dá uma história repleta do tema, mas acima de tudo algo lindo. É uma história emocionante e extremamente meticulosa, sem nenhuma fraqueza e que poderia ser expandida para um longa, desafia nossos sensos de percepções e chega a um nível nunca visto de Black Mirror. Talvez San Junipero e White Bear estejam juntos nessa grandiosidade televisiva que a série nos presenteia, mas afinal o que falar desse episódio? Uma história de amizade, simples assim. Uma garota tímida que conhece uma garota extravagante em pleno anos 80, é só isso que você precisa saber.

Men Against Fire é uma das “sutilidades” mais fortes que os produtores de BM puderam fazer nessa terceira temporada, se situa em torno da vida de um soldado pertencente a um grupo que agem contra as Baratas. Insetos voadores? Não. Com toda certeza não. Essas Baratas são espécies de seres humanos com doenças modificatórias, quase como zumbis e esses soldados viajam por aquela região para acabar com as criaturas. Em certa missão esse protagonista que acompanhamos é surpreendido por algo de um dos Baratas e mergulha numa mudança. A opressão vivida nos quarteis, a doutrinação de certos pensamentos e acima de tudo as mentiras que as nossas vidas ou grandes homens e nações nos dão estão presentes naquele episódio e grandiosamente filmado com uma ambientação monstruosa. Ás vezes em meio a aquela maneira de expor a história podemos ver um soldado nazista, investigando uma casa com seu rifle a procura de um judeu escondido. Mas aquele soldado não estava ali por querer. É isso que esse episódio nos traz. Reflexão.

E finaliza com uma hora e meia de Hated in the Nation. Que junto com o especial de natal fecham suas respectivas temporadas de uma maneira grande tanto em período como em história, mas acima de tudo nos pensamentos que temos. Séries são feitas para nos impactar, se positivamente ou negativamente. Se Game of Thrones nos faz gritar, Lost nos faz chorar ou Breaking Bad vibrar, Black Mirror nos faz pensar. Refletir sobre nossas vidas, seu último episódio gira em torno das mídias sociais, de como julgamos, gritamos, apedrejamos e acima de tudo falamos. Como vivemos nelas. É arte pura, sobretudo é uma história única, realista e grandiosamente feita. Suas temporadas anteriores eram chocantes por si, eram tristes e davam um impacto enorme no telespectador, sua terceira temporada encanta e ao mesmo tempo nos choca em perceber questões que não estão distantes e como o problema não é o Pokemon GO, o problema somos nós mesmos.

Sua terceira temporada dá uma reflexão sobre tudo, como precisamos tirar fotos de nossas comidas antes de comê-las. Talvez nem vamos comer, mas precisamos mostrar que estamos comendo, ou nosso bilhete de um filme, informar que estamos vendo tal filme, sorrindo das mentiras contadas, vivendo em mentiras e tomando decisões erradas. Criando vidas mentirosas, o mundo virtual é repleto disso. A reflexão da humanidade em torno desses seis episódios excedeu qualquer limite que a ficção científica possa ter feito. Black Mirror está em um patamar totalmente diferente agora.

Mas por qual razão Black Mirror? É um espelho, escuro, repleto de maldades, sujeira, dor, tristeza, más pensamentos, é repleto de violência, caos, morte. É o espelho que está em todo lugar. É o espelho da humanidade.

 

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