Minissérie da HBO toca em tema que pode ser acompanhado ao vivo na TV aberta brasileira. 

Sempre observei com muito cuidado tudo que a internet apóia, nunca olhei com bons olhos para nenhum tipo de militância e nesses quase vinte e um anos de idade formei minhas opiniões buscando ignorar uma provável tentativa de coação. Me perguntam se sou de direita ou esquerda —digo que não— e nunca vesti a camisa do feminismo porque considero o movimento ficcional (não tão presente na realidade).

Sou uma grande fã de reality shows e admiro o entretenimento cru que não precisa de mensagem alguma e só diverte quem o assiste, o Big Brother Brasil é um programa assim. Pessoas bonitas com uma boa vida se suportando por 90 dias, essa fórmula NUNCA vai ficar ultrapassada. Mas aonde Big Little Lies, minissérie da HBO dividida em 7 episódios entra nisso? E a questão do abuso? Esse texto tem algum sentido? É do interesse do Retalho Club falar sobre tudo isso?

Big Little Lies

Big Little Lies é uma minissérie feita por mulheres para mulheres. Na trama a personagem vivida pela excelente Nicole Kidman está presa em um casamento abusivo aonde ela é constantemente estuprada e agredida pelo marido interpretado pelo ator Alexander Skargad. Celeste e Perry são bem sucedidos, pais de dois filhos e sem muitas preocupações na vida; Celeste abriu mão do emprego pelo marido —é ai que começam os abusos— e agora vive por ele, Perry tem total controle sobre a mulher e a enxerga como uma propriedade pertencente a ele. Celeste é abusada física e psicologicamente por um homem que a priva de uma vida e de uma carreira, que controla o nível das suas amizades e a faz se render aos seus caprichos doentios se culpando por tudo que sofre. Durante os sete episódios de Big Little Lies o relacionamento de Perry e Celeste é cuidadosamente construído, mesclando momentos de amor profundo com cenas de violência física e mental pesadas. Celeste se arruma para o marido que a viola constantemente, a mulher vai para a terapeuta e se culpa colocando N motivos que em sua mente já ferida justificam os murros, os estupros, os puxões de cabelo e o sufocamento constante em sua própria casa.

Big Brother Brasil 2017

Em outro canal um outro casal passa pelas mesmas situações que os personagens do livro de Liane Moriarty e o público acompanha tudo ao vivo, o entretenimento é uma dádiva milenar que ganhou o mundo com as batalhas de gladiadores realizadas no magnifico Coliseu em Roma. No anfiteatro as apresentações variavam entre simulações de batalhas clássicas até reais batalhas de vida ou morte de prisioneiros do Império, coincidentemente como a situação retratada nesse texto a ficção e realidade estavam lado a lado, como no Coliseu televisivo que temos hoje. Emilly é uma garota insuportável de 20 anos que vai ganhar o Big Brother Brasil-2017 e Marcos é um cirurgião plástico já na casa dos 37 que abusa diariamente da namorada em rede nacional para qualquer pessoa ver, eles são mais um casal de Perry e Celeste da vida real.

O abuso é constante como na série produzida por Reese Witherspoon. Marcos aponta o dedo na cara de Emilly dizendo que ela não vai ser ninguém sem ele e vai perder tudo que tem porque não é a vítima na situação, o cirurgião aperta seu braço e a sufoca em abraços não consentidos para evitar uma possível retaliação levando a discussão para um lado emocional ao qual ela não pertence. Ele a agride e chora, diz que a ama e por isso a sufoca, aperta seu braço a impedindo de ir embora e a seduz porque o sexo é o melhor remédio nessas horas. E em reconciliações calorosas o médico —que é especialista em cirurgia plastica que é uma área que afeta diretamente a auto estima das pessoas, em sua maioria mulheres— diz que Emilly desperta o pior que está presente nele. O resultado desses quase 90 dias de confinamento é o isolamento de uma garota de 20 anos que está sozinha presa em um relacionamento abusivo aonde ela é a culpada por tentar ser minimamente independente. Assim como a Celeste de Nicole Kidman, Emilly é uma vitima que por estar muito debilitada acaba por consentir com todo abuso que sofre assim como o Perry de Alexander Skargad é na ficção o Marcos da vida real que manipula e exige o controle sobre tudo “aquilo” que lhe pertence, afinal, são propriedades e não mulheres.

Big Little Lies

O mais doentio dessa infeliz realidade é observar a reação do público a tudo isso, no twitter o casal do BBB17 é amado e todo o abuso é romantizado. Para o público casais ficcionais como Perry e Celeste são o choque de realidade necessário nessa geração que protesta sobre tudo que é errado, mas Emilly e Marcos são apenas amantes que sofrem muita pressão num reality show cruel que transforma a personalidade de seus participantes. É preciso entender que o assunto que a HBO brilhou ao retratar é o mesmo do horário nobre da Rede Globo —que inclusive se absteve e deixou toda a responsabilidade da denuncia de abuso nas mãos de Emilly, a vítima emocionalmente ferida— que o público insiste em gostar, insiste em shippar e romantizar.

Big Brother Brasil 2017

Crítica de Big Little Lies.

Disque 180 e denuncie a violência contra a mulher. 

PS: No inicio do programa eu mesma defendi o Marcos, vergonha define.

Tweets sobre o casal Emilly e Marcos, a sociedade está doente. 

Discussão

 

facebook comments:

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here