Geralmente, quando falamos de aceitação sexual, aquela famosa frase clichê surge: É preciso se aceitar primeiro para as outras pessoas te aceitarem. E de certa forma ela até tem algum caráter real, uma pessoa que não se aceita e não se identifica de certa forma não vai ser enxergada por outras, não vai ser significante para outras. Acima disso, é difícil se aceitar, e essa é a verdade.

Nem sempre as pessoas vão se aceitar, isso é um fato. Os problemas e os preconceitos da sociedade talvez influenciem isso, um adolescente LGBT cercado por pessoas preconceituosas tem grandes chances de não se aceitar, é uma questão de sobrevivência. E talvez pessoas envelheçam, reprimam seus desejos e infelizmente morram sem se aceitarem.

Le bleu est une couleur chaude de Julie Maroh trata de um relacionamento lésbico, mas de forma sutil nos traz reflexões sobre a aceitação, o quão árduo é se encontrar?

E essas reflexões são trazidas por meio de Clementine e Emma, a história vai ser contada ao ponto de vista de Clementine, uma jovem mulher que começa a ler os diários de sua antiga parceira Emma por um pedido da mesma e começa a entender a vida de Emma desde que começou a escrever, com um início de adolescência em uma França no início do novo milênio e tudo que houve durante esse tempo.

Azul é a cor mais quente não traz a sexualidade como foco, mas justamente o encontro e a descoberta, Emma vê uma garota de cabelos azuis (Clementine)  uma única vez e fica perdidamente apaixonada por ela, antes disso, Emma só tinha interesse em garotos, mas depois de sonhos, reencontros e conversas ela se vê perdidamente tragada  pelo anjo azul e a narrativa da história embarca em toda uma construção romântica sobre o casal.

E de certa forma é raro encontrar histórias como essa contada em um formato de quadrinhos, o que reforça como esse tipo de literatura vem trazendo diversidade e outras formas de escrita, divergindo de aspectos tradicionais de um texto padrão, através de uma arte fluída e bem feita, Julie narra uma história de forma sutil, sem encher a cabeça do leitor, sem diálogos forçados ou complexidades  desnecessárias, trazendo tudo o que um tipo de público sem tanta leitura poderia entender, sua história é fluída e talvez seja uma das maneiras mais importantes de reflexão, é através de uma história contada de certa forma que somos capazes de compreender melhor esses personagens e ao mesmo tempo seus dramas únicos.

 Emma está em um mundo novo, criada de uma certa forma, ambientada em outro mundo ela se depara com algo novo, uma paixão por uma garota, algo que estava fora de sua cabeça a vida toda. E a dor da aceitação chega aí, é fácil você aceitar isso de cara? E ainda mais com todos os aspectos ruins ao seu redor, pais preconceituosos, manifestações de cunho de liberdade reprimidas e o preconceito vindo de todos os cantos… Emma vive em uma prisão amorosa, política e social e arca com as consequências mais duras disso.

O roteiro do quadrinho não cai no clichê, embora em certo momento da trama algo pareça muito parecido com algo que já vimos antes, como se um casal que se conhece jovem e construísse sua história fosse algo padrão, mas não é o tipo de ponto da trama que atrapalha toda sua obra, que de certa maneira é um quadrinho esteticamente bem feito, com uma história pertinente e uma narrativa contada de forma delicada e ao mesmo tempo bruta.

A dor da aceitação é justamente a de Emma, eu, você, todos nós. Em algum momento algumas pessoas se aceitam, batem em seu peito e gritam que estão libertas, mas será que elas estão? E a partir disso acabam vivendo em mentiras, dores que vão surgir dessa aceitação forçada, mal arquitetada. Azul é a cor mais quente toca em nossas feridas e devasta a mais ínfima onda azul do fundo da nossa alma.

 

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