É um sambismo melancólico que preludia a voz chorosa de Chico Buarque, cantando o desamor assassino de Rita. Declama sobre a angústia e a dor do abandono. Sobre a rejeição de uma mulher que, ao deixar aberta a porta ao sair, leva tudo que a vida possa representar para um novo velho apaixonado. “O que é meu de direito arrancou-me do peito“, ele versa. Mesmo que narrada com uma poesia cavalar, não é difícil se encontrar nos sentimentos exprimidos na canção. Não é necessário um épico romântico shakesperiano ou um amor pintado por Picasso.

Nas paixões, em qualquer uma, é possível beber do cálice sensitivo intensamente, onde o fel amargo representa o peso abismal de uma rocha presa ao pescoço, de modo que a redenção para a dor se esconde onde o céu encontra o mar, e quanto mais você caminha, maior o peso que carrega e mais distante a sensação de alívio parece ficar. É a já experimentada angústia que faz com que deixemos de ser meros ouvintes. É quando nos tornamos solidários à dor de um Chico abandonado. É a dor sentida em nossa pele que nos aproxima da canção, do compositor e da própria Rita, marasmo vocativo para tantas outras personagens da vida real que dilaceram os corações alheios e transformam grandes histórias de amor em tristes sambas.

chico_buarqueÉ narrada na canção a frieza com que a amada, além de arrancar do peito aquele que em outros tempos tanto amou, levou “seu retrato, seu trapo, seu prato, uma imagem de São Francisco e um bom disco de Noel“. Chico afasta assim qualquer pensamento otimista relacionado a uma volta com uma partida que em muito se assemelha até mesmo a uma fuga. O coração abandonado ainda cogita que seu grande amor tomou rumo de má fé. Suspeita que ela tenha matado o amor por vingança. “Não levou um tostão porque não tinha não“. Ainda assim, Rita causou perdas e danos, levando planos, pobres enganos e outros vinte anos. Levou um coração. “Me deixou mudo um violão“.

Chico Buarque retrata o luto que dá lugar ao amor morto pelos olhos daquele que foi abandonado, se tornando viúvo de si mesmo. Entretanto, há uma outra perspectiva a ser analisada. Além da história de Rita, temos de analisar o contexto político que vivia o Brasil em 1965, época em que o disco foi lançado, em plena ditadura militar, onde artistas eram violentamente perseguidos e todo aquele que se manifestasse contra o governo era caçado e silenciado, consequentemente martirizado. Nos poréns, haviam nas entrelinhas algumas artimanhas que compositores e escritores e tantos outros intelectuais usavam para driblar a censura, camuflando e expressando todo o descontamento com o cenário político de forma indireta.

Por esse prisma, além de um conto rechaçado a dor e sofrimento, A Rita também poderia ser um protesto camuflado.

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Com canto triste, Chico entoa: “A Rita levou meu sorriso, no sorriso dela meu assunto, levou junto com ela o que me é de direito“. Passando a ideia do descontentamento de uma sociedade movida pelo medo, a falta de motivos para sorrir surge em meio a uma classe perseguida e torturada caso fugisse das leis impostas pelos militares que, assumindo vez, fiscalizavam absolutamente tudo, de livros a canções, aguçando o ouvido até mesmo às conversas cotidianas, levando o “assunto” e “o que me é de direito”.

A postura militar também é descrita. “Levou seu retrato, seu trapo, seu prato, que papel! Uma imagem de São Francisco e, um bom disco de Noel (…) Não levou um tostão, porque não tinha não, mas causou perdas e danos. Levou os meus planos, meus pobres enganos, os meus vinte anos, o meu coração. E além de tudo, me deixou mudo um violão“. Nota-se a costumeira apreensão de tudo que ia contra as regras impostas (definindo as “ameaças”), causando perdas e perdas a uma sociedade coagida, torturada, exilada e oprimida.  A Arte por definição seria o segundo apogético de uma sensação que transcende em inúmeros reflexos, e isso, essa transcendência, era proibida por lei. Os que lutavam por direitos pagaram com a própria vida. Então, foi feito o silêncio. Do povo e de seus violões, impedidos de cantar seus lamentos. Por fim, há a própria Rita, mulher fria, calculista e impetuosa. Associada a outra figura feminina com iguais características: “A” ditadura.

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Tudo se desdobra através de um signo linguístico ligado a uma série de pontos de vista. É essa aliança que cria labirintos imensuráveis. Atrás do silêncio, pode estar escondido um discurso de salvação. Um samba de melodia triste pode clamar por socorro. O conto de um homem abandonado por seu grande amor pode ser muito mais do que um romance desiludido. Dele pode sair um grito do escuro de uma sociedade amordaçada. Mais de uma vez, assim foi feito, afinal.

  • Levi Kaique Ferreira

    Como sempre uma delicia ler seus textos

  • Texto incrível, realmente muito bom

  • Guilherme Ferreira

    O bom dessa coluna é que além de entreter, ela consegue passar um pouco mais sobre cultura, eu mesmo depois de ler o texto, fui correndo ouvir esta musica de Chico Buarque. Mota, seus textos estão cada vez mais melhores!!!