A cruzada heroica nunca foi fácil. O conceito do herói em si nunca foi fácil.

Começamos com o Superman, um ícone que transcende os conceitos do heroísmo. Mas é um super herói, não é humano e tem poderes imensamente incríveis, o Superman não é limitado pela fraqueza do ser humano. Ele tem uma cruzada difícil, mas não tanto como o homem. O Batman é um deles, busca justiça, paz, harmonia e segurança para sua cidade, para que outros ‘Bruce Waynes’  não tenham seus pais assassinados em becos por criminosos, ele não tem poderes e mesmo assim busca esse ideal heroico.

O Demolidor, criação de Stan Lee e como eu gosto de pensar, configuração de Frank Miller,  segue a jornada de Matt Murdock, um vigilante que desde a infância sobreviveu com poderes ampliados.  Cego e com os outros sentidos além do normal, Matt Murdock é mais que muito bem explorado em sua série na Netflix.

Depois de tantos anos com a televisão e o cinema idealizando tipos de heróis e seus diferentes tons, Demolidor elimina problemas de outras produções,  tanto do MCU quanto dos filmes da DC Comics.

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O tom de Demolidor é encontrado nos primeiros episódios, acompanhamos os flashbacks e o início desse idealismo de se tornar um herói e iniciar uma jornada por sua cidade. Matt tem uma história longa que é desenvolvida crucialmente no decorrer da temporada, desde seu relacionamento com o pai até seu envolvimento com advogacia e seu amigo Foggy. O que Demolidor nos traz são dois mundos diferentes, o ser humano, com suas crises singelas, pessoais e totalmente usuais e o seu lado além do ser humano: suas habilidades o envolvimento de seu poder e o tragamento pelo seu lado guerreiro por uma figura que se assemelha ao mestre, ou seja, Matt Murdock é especial.

Hells’ Kitchen também é especial, tragada por uma onda de crimes e transbordando sangue (literalmente) ela é única para Matt, é seu lugar em todo o mundo, Matt não programa o acontecimento dos fatos, ele é indeciso, guerreiro e acima de tudo um herói.

Gosto de pensar o Demolidor como o conceito total do homem, como o Batman. A violência com as próprias mãos está lá, aquelas cidades (Gotham e NY) são cidades que transbordaram violência, é o nascimento da questão do cidadão, dele poder erguer seu punho e lutar contra essa criminalidade de indivíduos ruins que assolam suas ruas.

A própria abertura de Demolidor é questionada em relação ao heroísmo e a escuridão de Hells’Kitchen. Ela exibe elementos de uma cidade que jorra sangue, gotejando e criando uma onda nefasta e úmida. Até a criação de um ser, o próprio Demônio,  o Demolidor.  A cidade o criou.

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 Matt não precisou de vários familiares mortos ou de algum motivo pessoal para iniciar essa cruzada em sua cidade, embora a morte de seu pai tenha um forte impacto em seu desenvolvimento. O sangue de sua cidade o criou, ele é um guerreiro único, foi criado no sangue e é cercado de sombras.  A cidade é em grande parte noturna, é cheia de medo, trevas… E é um elemento grandioso para um contexto de uma série grandiosa.

De vez em quando temos comentários ou críticas negativas sobre a fotografia escura de Demolidor. É óbvio que a série não seria totalmente deleitosa na visão dos telespectadores, mas partindo para uma perspectiva analítica sobre a razão da fotografia, o óbvio está lá.

A cidade de Matt é nebulosa, é de uma densidade violenta inimaginável, além da presença de um futuro Rei do Crime. A cidade não é só lar de criminosos comuns, mas de organizações fortes e poderosas, tráfico humano, escravidão… Seus ares são cercados de maldade, de densidade, do escuro. Matt ironicamente não é um anjo que cruza a cidade sorrindo, com o sol raiando no alto céu. Matt é um demônio, age nas sombras, é provido de chifres, é vermelho. Matt é o estereótipo de um demônio em um total inferno, na cozinha de um inferno onde toda a banalidade suja e nebulosa aparece, onde todos os vales profundos e escuros reinam. Matt é um diabo entre tantos outros no inferno, mas é um diabo que não faz propriamente o mal. É o diabo responsável por encaminhar os maus para seus lugares.

Mas eis que o heroísmo não é tão bem visto assim, como qualquer cruzada há empecilhos. Todo herói tem seus erros, o assassinato ou não assassinato, o lado mais humano do demônio (Karen e Foggy) e suas questões sobre a religião que o cerca.

Matt Murdock é o herói mais singelo já apresentado em uma série de TV, a escuridão de Demolidor não é pretexto para negatividade, é um elemento do roteiro para a transfiguração e a criação climática de uma posição pessoal e psicológica do personagem.

Eloquentemente encantadora, brutal e necessariamente de um roteiro espetacular da visão de um herói humano, Demolidor da Netflix nos traz a melhor série de um herói já feita na história. É humana e demoníaca, ao mesmo tempo.
 

 

  • Mister Off

    Ótimo texto,cara! descreve muito bem as qualidades dessa série sem igual… que conseguiu equilibrar a grandiosidade e o humanismo existente na figura do herói.!!!