Quando adaptam quadrinhos para diferentes mídias há sempre aquele diferentão. Mudar o visual, o traje, a história ou elementos mais profundos como um Superman assassino ou um Homem de Ferro sério caracterizam determinado personagem, e se não sair tão bem para essa diferente versão de cultura, legiões de fãs aparecem. Essas legiões reclamam, brigam, querem que algo aconteça e movimentam toda a fanbase daquela futura série, nem sempre uma adaptação é ruim, Preacher da AMC é uma série totalmente fora do decorrer dos quadrinhos iniciais, mas transcorre muito bem, tem uma visão excelentíssima daquele clima e profundidade que os quadrinhos transmite, temos o DCEU que também não nos apresenta uma visão totalmente escarnada de uma Liga da Justiça, mas que segue extremamente bem pelo material apresentado e uma MCU já construída a mercê do carisma e de elementos cinematográficos do público juvenil. Criado em 1940 em “Flash Comics #1”, o velocista escarlate é sinônimo total do universo DC, toda a complexidade histórica de The Flash nunca foi tão bem apresentada na televisão como estamos vendo agora, além de uma história diferente e totalmente fora dos acontecimentos cagados e cuspidos das HQs, The Flash arrisca, arrisca muito e em grande parte das vezes acerta.

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Criado por Gardner Fox e Harry Lampert, O Flash é um dos super heróis mais conhecidos de toda essa cultura, poucos não conhecem a figura vermelha que corre em uma velocidade poderosíssima, chega ser até ditado popular “Eita, corre que nem o Flash!”. Mas como todos os leitores de quadrinhos sabem, o primeiro Flash foi Jay Garrick, que após inalar certos componentes químicos utiliza um capacete metálico similar ao do Deus Hermes para suas jornadas velocistas. A chamada Era de Ouro dos quadrinhos foi totalmente guiada com esse Flash, que participou da Sociedade da Justiça da América e teve seu fim em 1956.

A fabulosa DC via com total clareza que reviver seus heróis era algo que atraia públicos e então presenteia o mundo dos quadrinhos com sua versão mais conhecida do herói, Barry Allen, funcionário da polícia científica e que após de ser atingido por um raio e banhado por produtos químicos é capaz de correr em super velocidade, incrivelmente não só correr, mas modificar leis da física, modificar diversos aspectos científicos e por sua inteligência científica, fazer maravilhas. E é justo nesse ponto que The Flash, de 2014 entra.

Com uma participação especial em Arrow, somos apresentados a Barry Allen. De certa maneira em uma ambientação nesse novo século vemos um nerd total, um investigador científico extremamente inteligente que segue sua vida ligeiramente normal e no término do episódio é atingido por um raio e é banhado em produtos químicos. Somente em sua série que teríamos um aprofundamento digno. Temos Central City, o mesmo nome da cidade original nos quadrinhos e uma gama de personagens presentes nas HQs vem junto. Iris West é uma jornalista que é mais irmã do que namorada de Barry, embora o mesmo nutra sentimentos por ela e somos apresentados a uma história com porções de tempero diferentes, Barry vivenciou sua mãe ser morta pelo sobrenatural em sua infância e seu pai foi preso pelo crime, Barry é criado pelo detetive Joe West, um amigo de seu pai e passa uma vida dramática que gira em torno desse acontecimento. Também temos o acelerador de partículas, criado por Harrisson Wells, uma figura conhecida em Central City que constrói essa imensa máquina científica e que é uma das acarretadoras da criação do raio de Barry e também da matéria negra, energia que modifica vários humanos de Central City, criando os meta-humanos. E a partir desse início de série somos apresentados a uma orgia da DC Comics.

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The Flash não é um pingo perfeita, suas duas temporadas tem falhas gravíssimas, erros corriqueiros que vão surgindo com o decorrer da temporada como a ênfase extremamente pertinente da motivação heroica (Nível Lazytown) ou até mesmo personagens descartáveis, sem carisma algum, interpretações fúteis e certos trajes que me fazem torcer o nariz. Mas é coisa de fã, coisa de alguém acostumado com grandes monstros da televisão, The Flash não é Breaking Bad, House of Cards ou Game of Thrones, é The Flash. É simplista, narra a premissa de um super herói em ação que começa a desvendar toda a sua força e então nos estupra visualmente com personagens, vilões, referências e arcos tão parecidos com os quadrinhos que mais parecem gibi vivo. E se há esse ponto positivo tão largo em The Flash é a pujança do herói, o protagonista é guiado pelas motivações dos amigos em momentos de batalha, mas é um protagonismo elementar para um público juvenil ou fã de quadrinhos, e é puro quadrinho por exatamente isso! Enquanto outros heróis nos apresentam uma questão sombria, complexa e dificultosa de uma perspectiva filosófica e sociológica, The Flash nos dá uma cidade em perigo, vilões, um arco e pronto, está lá.

Todos os elementos de quadrinhos dessa mitologia do Flash está presente na série, desde o vilão da primeira temporada que é um show em termos de adaptação de quadrinhos até a segunda temporada com a presença de vilões do submundo do herói, até a apresentação dos conceitos do realismo do super herói, da condição que como aqueles poderes determinam um algo. Há crescimento de certos personagens descartáveis de início de temporada e uma constante apresentação de cenas da ação notáveis. Há um CGI meio ultrapassado, com algumas pegadas extremamente CW, mas todos esses elementos negativos criam toda uma atmosfera simplista para The Flash, e o simplismo presente nos personagens, no roteiro e na transa entre quadrinhos e produtores que ocorre é muito bem aceito. E agora com a vinda dessa terceira temporada temos quadrinho puro, você que parou por certo erro ou que não começou por birra mesmo, vá ver. The Flash erra, mas é perdoável por uma dezena de aspectos. É como aquele cachorro bagunceiro, claro que ele um dia vai rasgar um sapato, uma sandália ou até mesmo coisas importantes, mas ele é um cachorrinho amigável, carinhoso e que lhe dá muitas felicidades. Com a adaptação de um arco famoso e com a presença (FINALMENTE!) de outros Flashes, The Flash está se firmando como uma excelente adaptação de quadrinhos, nos agraciando em uma época tão escassa.

Assistam The Flash, é sério.

 

 

 

  • JGPRIME25

    Olha, parabéns pelo texto

    • Carlos Henrique

      Muito Obrigado, fico feliz que tenha gostado 🙂